Vivendo no Limite (Martin Scorsese, 1999)

Para o paramédico Frank Pierce, New York faz algo além de apenas estar sempre acordada – ela também agoniza de dor, vinte e quatro horas por dia, gritando, sangrando, vomitando… E tirando seu sono. Voltando ao tema do cruzado solitário que atravessa um cenário desolado, sujo e violento onde imperam cenas de puro desespero de Taxi Driver, Scorsese e Paul Schrader costuraram em Vivendo no Limite outra narrativa character-driven que desce até os becos mais profundos de uma cidade que afeta e é afetada pela degradação mental, física e moral dos seus milhares de personagens.

Essa é a investigação de um determinado tipo de imaginário, o cristão. Pierce é uma espécie de santo autodestrutivo, vivendo em um lugar onde a fina linha entre vida e morte não é sempre clara, mas está presente o tempo todo. Ele e todos os seus outros colegas de profissão estão numa profissão da qual jamais conseguem se demitir, por mais que o emprego os consuma e jogue-os dentro de uma espiral sem volta de loucura.

Nessa história episódica e sem trama, o paramédico é uma espécie de “esponja de dor”, expiando os pecados da decadência dos homens comuns, sofrendo com a angústia, insanidade e perda alheia. E pior ainda: há algumas semanas, todos que passam na mão de Pierce, de recém-nascidos a idosos, todos vão perecendo em suas mãos. Grande parte das vezes, alucina com Rose, uma menina inocente que morreu em suas mãos e que iniciou sua “crise de fé”. Ao mesmo tempo, fica obcecado por uma ex-junkie de nome Mary – cujo pai Frank salvou e levou para a emergência, após um ataque cardíaco. Antes irritada com seu progenitor, agora ela está arrependida, esperando que o pai saia do “limbo”, ou seja, do estado vegetativo.

Há também um “falso Messias”, que vende tranquilizantes e promete paz para todos aqueles angustiados demais com os próprios erros e com o mundo que os cerca – e que acaba tendo que enfrentar uma espécie de crucificação no meio de uma comemoração com fogos de artifício, em uma das cenas mais absurdas da filmografia de Scorsese, substituindo o Monte Calvário de Cristo por um arranha-céu, cruzando o sacrifício do falso cordeiro com uma paródia perversa – e transcendente – do final apoteótico de Manhattan, do ateu Woody Allen.

Schrader, assim como fez com Travis Bickle, repete sua lógica dostoievskiana de autodestruição, sofrimento e catarse tão vista nas principais histórias do russo – entrando em choque direto com o mundo selvagem e violento, que sempre ataca repentinamente de Scorsese, onde o maior exemplo reside na comédia de muitos erros Depois de Horas. Chame de versão secular de uma história “sacra”, ou de uma versão hardcore de Kundun – onde longe de ser um líder espiritual, Frank Pierce dá uma sobrevida ao povo de New York para eles conseguirem viver mais dias violentos e conturbados.

Os olhos cansados e com olheiras profundas de Nicolas Cage testemunham algumas das mais bizarras cenas do puro surrealismo scorseseano,  projeção intensa e dramática do inconsciente sob quilômetros de asfalto manchados de sujeira e sangue. Logo a racionalidade deixa de importar quando a câmera passa a seguir o dia-a-dia de Frank Pierce, que jamais alcança a redenção em momento algum. Humano antes de tudo, imperfeito, ainda guiado por pulsão de sexo e morte – enquanto tenta salvar os inocentes, xinga, quebra, mente e persegue.

Uma nova referência distorcida surge no plano final, que invoca num cenário moderno o tema Pietá, onde o abraço sofrido do Cristo e da Virgem substituídos pelo sono redentor da ex-viciada e do paramédico, que por um momento podem esquecer seus demônios em um abraço afetivo e justamente piedoso e caridoso.

Se por séculos foi lembrada a importância da Paixão de Cristo, Deus que se fez carne,  Scorsese agora nos entrega a Paixão do Homem – o homem comum, o homem medíocre, figura central em sua filmografia – que desta vez, expurgará os pecados no mais secular  das narrativas – o cinema, a projeção de uma tela, onde o espaço também se torna tempo, que irá desmoronar e acabar com o passar das horas.  Nascido carne, o cordeiro humano, que sacrifica por nós todos os dias na mais insone das cidades para expurgar nosso pecado original – existir? -, também merece dormir um pouco, afinal de contas.

Obras citadas

Vivendo no Limite (Bringing Out The Dead, 1999), Taxi Driver (1976), Depois de Horas (After Hours, 1985), Kundun (1997), Martin Scorsese; Manhattan (1979), Woody Allen.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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