The Assistant e o abuso sistemático

The Assistant, dirigido, escrito e produzido pela autraliana Kitty Green, estreou no dia 07/01 no Brasil através da Amazon Prime. O filme segue um dia na vida de Jane (Julia Garner, de Ozark), assistente de um executivo da indústria do cinema, enquanto ela desperta para os abusos sistemáticos que cercam aquele ambiente de trabalho.

É extremamente difícil realizar uma leitura do filme que fuja do movimento #metoo, especialmente do papel que Harvey Westein ocupou naquela história. O chefe de Jane (que não por acaso permanece inonimável ao longo de todo o filme) é um exercutivo poderoso da industria que intercala suas reuniões de trabalho com testes de sofá e abusos morais para com seus assistentes.

A estética abraçada por Green proporciona a criação de um ambiente lúgebre e opressivo. A trilha sonora é ausente, a câmera é estática e todos os personagens que compartilham o cotidiano com Jane são austeros. Green consegue articular aqui uma espécie de casamento entre Michael Haneke e Chantal Akerman com o seu Jeanne Dielman (1975), marco do cinema feminista.

Jane sendo atacada pelo funcionário do RH enquanto fazia uma denúncia de conduta imoral por parte do seu chefe

Num dos grandes momentos do enredo, Jane se farta com o comportamento tóxico do chefe e decide reportar a situação ao RH da companhia. O funcionário, ao perceber o teor do depoimento, torna-se feroz e enseja o choro da garota, para, logo em seguida, tercer-lhe elogios, dizendo que o chefe a considera inteligente e que ela tenha um grande futuro pela frente.

Essa aparente contradição entre ‘tratar com violência’ e ‘tratar com afeto’, tão comum em relações de abuso, é registrada pelo filme com uma complexidade interessante. O ataque e o afago fazem com que Jane adquira a necessidade de agradar ao chefe na mesma propoção em que teme desagradá-lo. Ela, ao mesmo tempo que o despreza, sente ciúmes. E ao mesmo tempo que sente ciúmes, se atormenta pelas garotas que se reunem com o executivo na esperança de um breakthrough em suas carreiras, pois sabe que para o chefe a reunião não passa de uma oportunidade para tirar vantagens sexuais das jovens.

Além dessa perspectiva predatória, tão urgente nos tempos de hoje, o filme de Green parece comentar a respeito da rigidez e impessoalidade que permeiam os escritórios da indústria cinematográfica. Jane, assim como seus colegas assistentes, é uma aspirante à produtora de filmes, e tolera longas jornadas de trabalho, funções imorais e abusos sistemáticos na esperança de um dia realizar sua ambição profissional. Não é difícil imaginar que, no mundo real, as Janes são incontáveis e, as que perseveram, poucas.

Obras citadas

Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles, 1975), Chantal Akerman.

Guilherme Bakunin

Cinéfilo desde os dezesseis anos, graduado em Artes e Cinema desde os vinte e quatro. Não sei se estou vivendo ou apenas lamentando constantemente o falecimento de Edward Yang.

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