Tenet e a futilidade da autoria

“Não tente entender”, explica uma coadjuvante ao protagonista interpretado por John David Washington ainda no início de Tenet. Entramos no reino da reversão temporal, um conceito complicado. Mentes lineares não conseguiriam processar isso muito bem, então o jeito é “sentar e aproveitar a viagem”. Aí surge o problema principal: Tenet nunca permite isso. E por um grande motivo: Christopher Nolan.

Quando a Cahiers du Cinema pensou sobre um projeto de autoria de cinematográfico, era uma relação dialética como o próprio cinema: os cineastas como os novos pintores e romancistas. Hitchcock como um novo Flaubert ou Michelangelo. Imagens que mudariam o mundo, pois alcançavam popularidade tendo um estofo sofisticado. Tenet é a falência desse projeto em larga escala; quando o melhor que pode-se dizer sobre um filme é que é “a cara do seu autor”, a revolução artística torna-se fetiche de marketing.

Nolan é esse autor fútil, ipsis literis; é um cinema fechado em si mesmo para reproduzir certos símbolos daquele que quer mostrar que “dominou a máquina” sendo notícia pelos seus caprichos: ele filma em IMAX. Ele destrói aviões de carga de verdade. Ele lança o filme no meio de uma pandemia – e esbraveja contra o estúdio que o financiou por considerar lançar o filme de maneira simultânea nos streamings.

E na tela, o preciosismo fora dela jamais diz ao que veio.

Um filme estacionário

Tenet é um filme do tamanho do seu gigantismo, e isso não é um elogio. Tudo aqui é demais, até mesmo quando não há razão de sê-lo. Não é um filme eloquente, eficiente em narrar sua história; antes, é grandiloquente, preocupado apenas em insuflar sua história, decorando-a com artifícios sem muito propósito e reproduzindo vícios de linguagem pela mera razão que todos eles são muito Christopher Nolan.

Com isso, mata-se a ambiguidade que inclusive o próprio já conseguiu modular em filmes como O Cavaleiro das Trevas. É a história de duas forças se chocando: o herói que quer salvar o mundo, o antagonista que quer destruir. Não existem nomes. Não existem personagens, no sentido psicológico do termo (character, o que caracteriza). As motivações, quando existem, são básicas (a mulher que odeia o marido vilanesco).

Muitos dizem que os filmes de Nolan são difíceis de entender – mas como? Não há recusa evidente pelo cartesianismo, como acontece, digamos, com David Lynch. Enquanto Lynch propositalmente cria metafilmes, histórias dentro de histórias, espelhos distorcidos de personagens, Nolan simplifica qualquer questão dramatúrgica ao máximo, narrativamente tecendo um desfile de exposição. O que vemos é uma alternância de cenas que explicam o conceito com cenas que as aplicam. Ad infinitum. Nada progride ou mesmo reverte – não se chega a lugar nenhum.

Amnésia se beneficiava de contar a mesma história em reverso. O dilema entre Harvey e Rachel em O Cavaleiro das Trevas contém jogos narrativos bem racionalizados. Até mesmo A Origem contém um esquema narrativo. Tenet é Nolan dissolvido até sumir. É tudo dele – até tudo ser dele não significar mais nada. Os mesmos golpes sonoros de Hans Zimmer, o mesmo diálogo despersonalizado, só que agora é um tempo em reverso. É curioso algo tão grandioso soar tão preguiçoso – tudo arquitetado não para contar uma história que reflita temáticas pessoas, mas para fazer cumprir a própria marca. E quando há fetiche, não há filme, propriamente falando – apenas um “isso é tão Christopher Nolan“… E daí?

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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