Portal da Carne (Seijun Suzuki, 1964)

Antes de A Marca do Assassino, Suzuki trazia para a tela em cores fortes, duras, marcadas e quase lisérgicas a vida de um pequeno grupo de prostitutas que resolvem lutar – na mão – para conseguir sobreviver. Unidas sob uma promessa, elas resolvem não deixar ninguém entrar em seus domínios – um casarão arruinado ao qual chamam de “lar”  e punir qualquer uma do grupo que transe com um homem de graça, sem cobrar.

Ainda que com figurinos tão coloridos, o contraponto deles, que são os cenários arrasados e sujos, dão o tom geral do filme: uma cáustica reflexão do Japão do período pós-guerra. Claro que, como é habitual do diretor, feito com muito esculhambação e histrionismo.  A câmera penetrante do diretor, sempre pescando pequenos momentos e inseguranças dos ambíguos e violentos personagens, une forças com a montagem altamente fragmentada para dar a Portal da Carne seu aspecto confuso, de pesadelo vivido, de idílios e desejos deformados.

Esse tipo de filme  com o passar dos anos iria influenciar todo um filão de filmes no Japão a cada vez mais produzir histórias a toques de caixa sobre o crime organizado, os vícios, a opressão e exploração do sexo feminino e por aí vai. Suzuki foi certamente um dos pioneiros em seu país do cinema B, barato e urgente. Se Kenji Mizoguchi, em grande parte dos seus filmes, via como trágica a situação de meninas sendo vendidas como prostitutas para que as famílias conseguissem comer (o que aconteceu com a irmã do diretor), Suzuki filma no meio do lixo.

Entre uma bebedeira e outra, a líder das prostitutas calcula que elas cobram o mesmo preço para vender seus corpos que o mercado cobra para vender carne. Nem mais nem menos, nem despesa nem lucro; ela só não sabe responder, afinal, se “estamos comendo para vender nossos corpos ou vendendo nossos corpos para comer”? Mizoguchi lamentava a degradação. Suzuki, de outra geração, já era a podridão propriamente dita.  Sem tempo para muitas filosofias no meio daquele matadouro humano.

Chove constantemente no filme; os personagens estão constantemente sujos, suados e envoltos pelas sombras. Essas criaturas da noite, enfocadas de maneira delirante pelo diretor acabam por pintar um certo quadro expressionista japonês; Suzuki não parece muito interessado em narrar, mas sim criar uma manifestação íntima que equilibre elementos como a emoção e toda a sua gama de cores (cada prostituta, com sua cor específica, reage de maneira diferenciada ao universo e aos acontecimentos que experimentam) com seu campo profundo, a perder de vista. O que está ao alcance da vista é uma bagunça, uma ruína, uma sujeira. Não se vê muita coisa ao longe. Seja pela distância ser enorme, seja pela escuridão engolir, seja pelo foco seletivo – Portal da Carne faz jus ao nome e está sempre perto demais daqueles rostos que ninguém se dispõe a olhar.

Suzuki procura redefinir a autoridade, o homem, a mulher e suas relações: as mulheres são corajosas, batalham para sobreviver, mas ainda cedem aos homens; os homens são frágeis, mas ainda violentos. Ambos são comerciantes, ambos trabalham com o lado ilegal da vida. Um lugar onde a autoridade não existe, onde cada um cria suas próprias regras – e dane-se quem não gostar. Uma sociedade virada de cabeça pra baixo, esmagada pelo peso de suas próprias tradições. A lógica clássica da família japonesa, apesar de ainda poder ser vista no filme, é obviamente filtrada pelas lentes distorcidas, pelas sobreposições e elementos cênicos bizarros.

Tal espírito que faria Suzuki ser demitido após A Marca de Assassino, sob alegação dos produtores que seus filmes “não faziam sentido nem faziam dinheiro” , cujo posterior processo aos seus antigos patrões por parte do cineasta faria o mesmo entrar numa lista negra e ao mesmo tempo ser ídolo contracultural da sua geração, um homem que não tinha medo de mostrar o Japão como via a japoneses progressivamente mais alienados – que fizeram gente de ambos os lados do globo delirarem, de John Woo, Chan-Wook Park,  e Takeshi Kitano  a Jim Jarmusch e Quentin Tarantino, motivando os próprios a também tecerem suas próprias histórias marginais.

Insatisfeito com as formas e conceitos anteriores, Suzuki foi lá e fez a sua parte, caminhando paralelamente à nouvelle vague japonesa (ou nuberu bagu) de Nagisa Oshima e Hiroshi Teshigahara, e reinventou o cinema japonês como conhecíamos: ao invés dos samurais fordianos em estética classicamente ocidental de Kurosawa, do anti-drama de Ozu e o pesado trabalho de mise-en-scène sobre temas humilhantes de Mizoguchi, agora cores, sons, música e enquadramentos adquiriam novos tons de bizarrice. Se a humanidade era um show de horrores então, filmaremos ela como tal. Da obsessão sexual de Teshigahara e Oshima em A Mulher da Areia e O Império dos Sentidos até a mais bizarra perversão de um Takeshi Miike, Suzuki abriu um novo precedente estético e dramatúrgico: o Japão, marginalizado, encenado em uma linguagem dodecafônica, sem pátria, que só faz sentido afinal, na cabeça de quem assiste. Do jeito como Suzuki sempre quis, afinal de contas.

Obras citadas

Portal da Carne (Nikutai no mon, 1964), A Marca do Assassino (Koroshi no rakuin, 1967), Seijun Suzuki; A Mulher de Areia (Suna no onna, 1964), Hiroshi Teshigahara; O Império dos Sentidos (Ai no korīda, 1976), Nagisa Oshima.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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