Os melhores filmes da Blumhouse

A produtora de cinema Blumhouse Productions vem se solidificando nos últimos 10 anos como uma referência em cinema de horror. Não é para menos: criada em 2000 por Jason Blum  (figurinha carimbada da Miramax durante a sua época de ouro), a produtora acumula múltiplas indicações e prêmios, incluindo Oscar e Globo de Ouro. A Blumhouse dominou o imaginário da produção horrífica da última década após conseguir seu primeiro hit: um filme de baixíssimo orçamento que rendeu US$ 200 milhões em bilheteria no mundo todo: Atividade Paranormal (2009), de Oren Peli. Mas o sucesso não subiu à cabeça de Blum, que, na contramão das grandes e médias produtoras, optou por um modus operandi bem singular: o micro orçamento aliado à liberdade criativa dos realizadores. Ao longo da última década, a produtora contribuiu ativamente para o florescimento do que alguns chamam de neo-horror: movimento mais preocupado com questões pungentes e de cunho social e menos interessado em sustos baratos.

Entre os diretores que passaram pela Blumhouse, há nomes como Leigh Whannell, que acabou de entregar o primeiro filme do ciclo dos monstros clássicos da Universal que Jason Blum vai produzir (O Homem Invisível, 2020), e James Wan, responsável por um dos primeiros sucessos da produtora: Sobrenatural (2010). Os filmes de Jordan Peele (Corra!, 2017), Damien Chazelle (Whiplash, 2014) e do veterano Spike Lee (Infiltrado na Klan, 2018) foram agraciados com o prêmio mais importante do cinema americano. Os dois últimos filmes, inclusive, são apostas raras fora do seu habitat natural, o horror. A produtora também acolheu o renomado M. Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido (1999), que há um tempo não entregava um sucesso de crítica e público. O autor oscarizado aceitou trabalhar com um orçamento de US$ 9 milhões em A Visita (2015), distante dos US$ 130 milhões do filme anterior, Depois da Terra (2013), estrelado por Will Smith.

O modelo faça-o-que-quiser-mas-com-pouco-dinheiro foi tão profícuo que rendeu à produtora um contrato para o reboot dos clássicos Monstros da Universal, começando por O Homem Invisível, e um acordo de 6 filmes com a Amazon Prime, nomeado “Welcome to Blumhouse”, do qual 4 já foram lançados esse ano.

Escolher, e ranquear, os 5 melhores filmes produzidos por Jason Blum não é tarefa fácil diante das mais de 90 produções lançadas. O critério principal será, obviamente, baseado em qualidade técnica e artística. Mas, em se tratando das obras pertencentes ao gênero de horror, é interessante observar o fator conceitual porque, afinal de contas, a Blumhouse é uma produtora especializada no gênero.

As joias brutas de Jason Blum

5. Atividade Paranormal (2007), Oren Peli

A Blumhouse estourou em Hollywood com Atividade Paranormal

Grande responsável pelo sucesso inicial da Blumhouse Productions, Atividade Paranormal é um filme paradigmático, talvez a melhor propaganda para a proposta de Blum. Feito por um programador de jogos eletrônicos na sua própria casa com atores amadores por vagabundos 15 mil dólares, a fita foi parar na casa de Steven Spielberg, que afirmou não ter dormido naquela noite. Não era para menos: o found footage ainda estava em alta, o que significa dizer que muitos filmes eram “vendidos” como verídicos. O filme acabou sobrevivendo às famosas regravações hollywoodianas com atores famosos e Blum aumentou as apostas com mais 200 mil dólares para serem usados de forma prudente em uma singela porém impactante campanha de marketing voltada para o público jovem, especialmente universitários.

Produzido em 2007 e lançado em 2009, o filme possui uma história tão simples que chega a ser ordinária: o casal Micah e Katie se mudam para uma nova casa e a moça começa a ouvir sons estranhos. Micah decide então gravar os dois enquanto dormem para provar para a namorada que nada acontecia. Sutilmente, a trama vai assumindo uma tensão ao melhor estilo there is no way out possibilitado pelo minimalismo arrojado e pela facilidade com que a direção conseguiu desenrolar a narrativa até seu clímax inimaginável. O filme acabou sendo uma lufada de ar fresco em uma década dominada pelo torture horror.

4. Fragmentado (2016), M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan recuperou o prestígio graças à Blumhouse

Fragmentado não chegou a ser uma unanimidade entre os fãs do diretor, mas definitivamente marcou o retorno triunfal do mestre em uma trama tensa e cadenciada, coroada pela interpretação de James McAvoy. Shyamalan já havia estreado na produtora de James Blum, no ano anterior, com o pouco notado mas eficiente A Visita, um found footage tardio que trouxe o peso da mão autoral de Shyamalan. Em Fragmentado, o diretor se aprofunda em uma narrativa de desenvolvimento de perfil psicológico cuja premissa em si não teria muito a oferecer não fossem as artimanhas de roteiro e direção utilizadas por Shyamalan.

O filme possui basicamente duas camadas narrativas: em uma, o personagem Kevin Wendell Crumb, um homem que possui 23 personalidades, passa por um doloroso processo de terapia com a Dra. Karen Fletcher. Na outra, duas de suas personalidades mais dominantes, Dennis e Patricia, raptam e aprisionam três adolescentes para sacrificá-las para a 24ª personalidade, a Besta. A alternância entre esses dois momentos permite ao diretor não apenas escrutinar esse personagem tão intrigante, como também cria um thriller dinâmico, que oferece ao espectador uma oportunidade única de acompanhar os mesmos processos pelos quais Crumb está passando, incutindo elementos horríficos de psicopatia no caminho.

3. Infiltrado na Klan (2018), Spike Lee

Infiltrado na Klan, o grande filme de Spike Lee para a Blumhouse

O senso de necessidade de Lee é absurdo. Saber tocar no assunto certo na hora certa é sua marca. Muito disso vem de sua militância pessoal pelos direitos humanos dos negros nos Estados Unidos. Flutuando por gêneros ao longo de sua extensa carreira, Lee fincou recentemente seus dois pés em um cinema de ficção que se permite documental e quer, antes de tudo, socar os seus espectadores, sem perder muito tempo em enredos psicológicos.

A adaptação do livro de Ron Stallworth foi um projeto conjunto entre a QC Entertainment, a Blumhouse e a Monkeypaw Productions de Jordan Peele, impulsionada pelo sucesso de Corra!. A escolha do diretor não pareceu ser uma decisão difícil. O plot é um dos mais irônicos: o detetive negro Ron Stallworth decide se infiltrar na Ku Klux Kan do Colorado para expor os seus crimes, chegando a ficar “íntimo” do político racista e supremacista branco David Duke, em plena ascensão em 1978. O filme, produzido em 2017, deu ao seu diretor o poder de dialogar diretamente com a aberração que acabara de acontecer em Charlottesville, na Virgínia. E ele abusou desse poder.

Infiltrado na Klan também solidifica a direção mais consciente de si, segura e até mesmo autorreflexiva de Lee. Com planos majestosos e uma montagem por vezes frenética e outras cadenciada, Lee eleva a trama para qualquer outra coisa que não se sabe ainda. Quem sabe um dia?

2. Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014), Damien Chazelle

Jason Blum provou que também produz dramas com Whiplash

É, sem dúvidas, o maior ponto fora da curva da produtora de Blum. Ele tentou apostar em dramas de baixo orçamento no mesmo esquema dos filmes de terror e errou miseravelmente nas bilheterias. Em uma entrevista recente, o produtor usou o exemplo de Whiplash para explicar a inevitabilidade desse segmento de baixo orçamento conquistar o público que vai ao cinema. Talvez o filme estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons tivesse sido mais notado se fosse lançado diretamente no streaming, mas esse comentário de Blum vai ser apenas uma nota de rodapé na história do filme de Chazelle, que entrou para a lista da revista Empire como um dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Blum de fato viu potencial no curta de 18 minutos vencedor do Sundance em 2013 e decidiu apostar incríveis US$ 3,3 milhões em um filme que foi indicado a 5 Óscares, levando 3 estatuetas para casa.

A história singela de duas pessoas obcecadas pela perfeição, em um culto alucinante ao “vencer ou perecer” americano, pode até enganar em um primeiro momento. Mas o filme se constitui como uma ode à música, com um montagem tão afiada que chega a materializá-la em vários momentos, como no imprescindível solo de bateria no último ato. A direção cirúrgica de Chazelle e as intempéries do roteiro, aliada à belíssima fotografia e às atuações que deixaram visíveis as terminações nervosas do elenco, tornaram Whiplash um dos mais importantes filmes da Blumhouse, e seu primeiro grande ponto de virada em termos de prêmios importantes.

1. Corra! (2017), Jordan Peele

Corra! é o filme mais premiado da Blumhouse

A dificuldade de se deparar com uma obra que roube a atenção geral por representar anseios bem pontuais de uma geração é grande. Se essa obra vier do gênero de horror, tão boicotado e solapado, aí é História com “H” maiúsculo. O enredo de produção é digno de nota: um comediante famoso dos Estados Unidos decide escrever um roteiro de terror baseado em um stand-up de Eddie Murphy sobre a visita aos pais de sua namorada branca. O resultado é uma obra não apenas aterrorizante como socialmente eletrizante, ao mexer nas feridas mais do que abertas do racismo americano de uma forma singular. A discriminação racial muda para se adaptar e continuar “apelativa”. Charlottesville deixou isso claro. Há que se compreender suas formas para lutar contra ele.

Quando o fotógrafo negro Chris Washington chega na casa dos sogros, não encontra caipiras brancos, mas pessoas altamente sofisticadas com objetivos mesquinhos. Ao mesclar comédia com horror, Peele parece estar mais apto a se comunicar com o público: “parece sacanagem, mas é isso aí mesmo”, ele parece dizer. A metáfora da prisão, da perda do controle do próprio corpo, é um pequeno lapso na história da negritude. Como sua alegada superioridade é o motivo dessa perda, a genialidade de Peele em criar uma ambientação, desde cenários e atuações até planos e efeitos especiais, passando pelo simbolismo da xícara de chá, fez com que esse filme de baixo orçamento entrasse de vez para a história do cinema. Além do feito, a Blumhouse ficou mais ousada, apostando em filmes como Infiltrado na Klan, por exemplo, ancorada em uma obra-prima que se materializou em sucesso de bilheteria e já faz parte do imaginário cultural mundial.

Obras Citadas:

Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007), Oren Peli; Corra! (Get Out, 2017), Jordan Peele; Depois da Terra (After Earth, 2013), M. Night Shyamalan; Fragmentado (Split, 2016), M. Night Shyamalan; O Homem Invisível (The Invisible Man, 2020), Leigh Whannell; Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2017), Spike Lee; Sobrenatural (Insidious, 2010), James Wan; A Visita (The Visit, 2015), M. Night Shyamalan; Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash, 2014), Damien Chazelle; O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), M. Night Shyamalan

Maria José Barros

Às vezes eu penso que sei mais da Blumhouse do que de mim mesma.

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