O toque afetivo de Soul

Após o sucesso de Divertida Mente (2015), Pete Docter volta às questões do ser em Soul (2020). Seu ser, nosso ser e um ser específico, pertencente a um grupo minoritário: os negros. Com a inteligência e sensibilidade de ser sutil, já que é delicado fazê-lo em sendo um homem branco*. Seu primeiro grande trunfo é o de tocar em questões sociais e psicológicas universais, porém mostrando, de forma implícita, que isso afeta de forma mais intensa quem é negro, como o seu protagonista.

Os obstáculos que Joe Gardner (Jamie Foxx) enfrenta para perseguir seus sonhos são ainda maiores, pois enfrentam um medo já ancestral de se tornar um pária numa sociedade estruturalmente racista. O único modo de não sê-lo, o passaporte da aceitação, é o alcance de um status social. Via emprego, carteira assinada, estabilidade financeira.

O traço abstrato de Soul
O traço abstrato de Soul marca a ousadia e a maturidade da Pixar.

O sonho de uma vida completa, de se manter fazendo o que gosta, fazendo arte? Um privilégio distante. O sonho que lhe cabe é o sonho de sua mãe: o sonho de uma vida segura. Num mundo em que o Estado dá cada vez menos condições aos seus cidadãos, e menos ainda às minorias, sabemos que isso vai muito além da segurança financeira. No país de George Floyd, a estabilidade de um professor contratado, logo respeitado em seu meio, pode ser como um seguro de vida para o homem negro.

Pete Docter tem a imensa coragem de concretizar esse contexto social trágico, que antes corria apenas no pano de fundo de Soul, ao encenar sua animação com uma cadeia de eventos dramáticos: quando Joe enfim se vê em vias de realizar seu grande sonho (ser pianista de um quarteto de Jazz), a morte atravessa seu destino. Só imagino o misto de dor e identificação que tantos podem sentir nessa sequência, por mais lúdica que seja a encenação dessa tragédia social cotidiana.

Soul e o sentido da vida
Soul é a (inesperada) jornada de descoberta do sentido da vida de Joe: o improviso, o dia a dia, o banal. A grandeza do trivial.

Numa de suas sequências mais emocionantes a alma de Joe vira o Bing Bong de Divertida Mente, pegando na mão de 22 (Tina Fey) para lhe dar forças e coragem de encarar as durezas da vida terrena, mas também se permitir gozar dos seus prazeres. Na cena em que 22 sente pela primeira vez o sabor de uma pizza, Soul vira brevemente Ratatouille (2007), remontando ao já clássico momento em que Anton Ego volta a ser criança. Essas coincidências ilustram uma opinião pessoal: que a Pixar atingiu um nível de excelência que beira o automatismo, já possuindo suas fórmulas, suas referências, também autorreferências, o que resulta em animações como Soul: embora distante das obras-primas que o estúdio já realizou, um filme capaz de emocionar, provocar reflexão e encontrar um lugar entre os melhores do seu ano de lançamento.

*P.S.: Soul é codirigido por Kemp Powers, um homem negro.

Obras citadas:

Soul (2020), Pete Docter, Kemp Powers; Divertida Mente (Inside Out, 2015), Pete Docter, Ronnie Del Carmen; Ratatouille (2007), Brad Bird, Jan Pinkava.

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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