O Despertar da Besta (José Mojica Marins, 1970)

Nunca o cinema primitivo e selvagem de Mojica foi tão conceitualmente desafiador quanto em O Despertar da Besta. Talvez, o único paralelo que possa ser traçado é com o posterior Delírios de um Anormal. É um grito desesperado de protesto – em meio às drogas psicodélicas, a Era de Aquário, a contracultura hippie que ia gradativamente perdendo o lado ideológico e descambando em um hedonismo inconsequente, o diretor via o mundo sendo tragado pelo medo de uma Guerra Nuclear entre duas superpotências, recebia imagens de brutalidade extrema do Vietnã, e nas repúblicas latinas, cresciam com poder assustador as ditaduras e seus organismos de censura repressores que não mediam esforços em prol do “bem maior”.

Num país dominado por uma crescente tensão – a extrema-esquerda contra a polícia e o exército, com eventos paradoxais como os anos de chumbo e o milagre econômico ocorrendo de forma simultânea – o formalismo do diretor é levado ao extremo do bizarro para justamente, expor as vísceras de um Brasil ignorado, do inconsciente de cidadãos reprimidos que só tinham momentos esparsos para espantar seus demônios – como ir no cinema assistir a chanchada ou então testemunhar o futebol brasileiro no seu auge. É um verdadeiro filme-colagem, com um fiapo de história sobre abuso de drogas e cultura popular que desembocam inevitavelmente no feio, no cruel e no grotesco.

Mojica, desde cedo um cineasta maldito, quando criou o personagem Zé do Caixão em À Meia Noite Levarei a Sua Alma, de 1964, já conhecia muito bem o lado negro do espírito “ame-o ou deixe-o” encarnado em marchinhas como Pra Frente Brasil. Em plena efervescência do Cinema Novo e do Cinema Marginal, a brutalidade do diretor, principalmente nesta obra, chocou os censores, fazendo o filme ser banido e só ser restaurado e exibido dignamente em 1982, quando foi rebatizado como O Despertar da Besta.

O oque transgressor de suas obras impressionou muita gente, tornando o diretor e sua figura um verdadeiro objeto de culto. Mojica nunca escreveu nenhum artigo sobre cinema ou teorizou acerca do assunto, como fizeram tantos contemporâneos: seu conhecimento é puramente prático e regurgitado de tudo que lia e assistia – os quadrinhos e filmes de terror da Hammer, devolvidos por Mojica de forma nervosa, explícita e pouco afeita a amenidades. São filmes anti-convencionais, anti-establishment, de um dos poucos diretores daqui que podemos chamar de marginais; por natureza, por não conseguir adequar sua linguagem em nenhum outro lugar.

Nesse caso, ele antecipava em pelo menos dez anos a ressaca moral que foi a década de oitenta. As guerras eram uma mentira, o milagre econômico outra mentira, o sonho hippie outra mentira. É notável, aqui, traçar certo paralelismo com a banda primordial do heavy metal, o Black Sabbath: a adoção de cores escuras, sonoridade pesada e temática fantástica tinham sido igualmente um protesto de Ozzy Osbourne contra, segundo o que ele descreveu, “a merda de lugar onde vivia”, onde “paz e amor” não era uma resposta satisfatória.

Décadas depois do seu lançamento, ainda é notória a ousadia formal do Ritual dos Sádicos de Mojica. Poucas vezes foi feito um catálogo tão grande da perversão humana; a narrativa vai sendo cada vez mais fragmentada até não restar nada além de explosão bruta do ID, do instinto, do animal que o homem insiste em negar: é um conceito que Mojica antecipou até mesmo Lucio Fulci, quando o mesmo, com Pavor na Cidade dos Zumbis e Terror nas Trevas, tentou fazer filmes assim chamados por ele de “absolutos” (segundo o italiano, filmes que contivessem todos os horrores do mundo: enredo e lógica em segundo lugar, atmosfera sensorial e imagens impactante sem primeiro).

Como já tinha feito antes, ao juntar terror e controvérsia social (Mojica ainda era o homem que comia carne na Sexta-Feira Santa, afinal de contas), Zé foi pioneiro de novo, juntando o horror a novas tendências narrativas, antecipando até mesmo a produção de países que logo se firmariam como absolutas no gênero naquele período, como a Itália. Naquele Brasil confuso, atemorizado e perdido nos anos 70, Mojica foi um símbolo não apenas de terror, mas de resistência. Um artista que não se importa em ser desagradável em sua luta eterna contra o inconformismo, por simples vocação de não se contentar nem se intimidar. Seus melhores filmes são o resultado e praticamente da essência da eterna luta da câmera, do dispositivo artístico-narrativo, contra a grande roda social repressora e punidora. E Ritual dos Sádicos é esse atentado contra os “bons costumes”. Um literal “cinema contra a máquina”.

Obras citadas

O Despertar da Besta (1970), À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964), José Mojica Marins; Pra Frente, Brasil (1982), Roberto Farias; Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella città dei morti viventi, 1980), Terror nas Trevas (L’aldilà, 1981), Lucio Fulci.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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