As lições de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Fundado em 1985, o Festival de Sundance nasceu com o intuito de impulsionar o cinema independente estadunidense e acabou virando, involuntariamente, uma espécie de movimento cinematográfico. Tal como o Film Noir e a Nova Hollywood (para ficar nos meus prediletos), essa “nova” onda autoral não tem parâmetros definidos por seus realizadores, qualquer tipo de organização central ou definições disseminadas no meio da Sétima Arte; porém, apresenta um caráter perfeitamente identificável por quem acompanha cinema. É muito comum em festivais ver um crítico ou cinéfilo resumir sua próxima sessão com um simples “Ah, é um filme de Sundance”. E o interlocutor sempre entende.

Os realizadores de Sundance são, em sua maioria, jovens cineastas. Seus filmes, independentes, de baixo orçamento. Naturalmente, histórias mais simples e intimistas são contadas. E o objetivo de Robert Redford quando do lançamento do festival em Utah tem sido bem-sucedido: pulverizar o cinema por todos os cantos dos Estados Unidos, o que resulta na produção de mais obras regionais. Ao que parece, diretores de cinema não são os mais descolados do bairro na juventude, então, o que mais se vê são dramas de jovens deslocados. Escolhas estilísticas também se somam a esse rol de características dos filmes de Sundance, como um tempo mais baixo, mais lento, mais cotidiano, e bem menos trilha sonora.

O sucesso do Festival de Sundance influencia diretamente nas convenções do cinema indie americano — e vice-versa

Síntese do que há de melhor em Sundance

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020) apresenta esse jeito particular de contar histórias do Festival de Sundance. O filme começa numa feira cultural numa escola. De lá salta para uma lanchonete, e essa lanchonete é, claramente, uma rara opção de diversão no bairro. A protagonista deixa o salão antes de todos e caminha sozinha pela cidadezinha fria. Caminha triste. Com razão: no meio da apresentação do seu número musical, um carinha no meio da plateia, pinta de atleta, típico bully de colégio, gritou um infame “PUTA”, do nada! Infelizmente, ele não está sozinho nesse mundo, e Eliza Hittman dedicará os 100 minutos seguintes da projeção a mostrar como homem é um bicho escroto.

Porém, veja bem: Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é sobre mulheres. Especificamente, conta a saga de uma jovem para interromper uma gravidez indesejada. Uma baita saga. O enredo acompanha uns poucos dias na vida de Autumn (Sidney Flanigan) e sua amiga Skylar (Talia Ryder), mas é como se fosse muito mais tempo. A lentidão peculiar do drama indie americano encontra aqui seu encaixe perfeito, ora exprimindo a angústia e a corrida contra o tempo de Autumn para fazer um aborto, ora evocando na gente, no público, o desespero de sua situação — como num momento crítico em que ela vaga longas horas pelas ruas, visivelmente esgotada, enquanto deveria estar de repouso.

Uma vida baseada em lidar com o machismo estrutural perpassa a aflição de Autumn com sua gravidez

Tantas vezes, os mesmos ratos de cinema citados no primeiro parágrafo tacham “Ah, é um filme de Sundance” de um jeito aborrecido. A pecha negativa se deve a toda uma leva que, perante o sucesso de Anti-Herói Americano (2003), Hora de Voltar (2004), Napoleon Dynamite (2004) e Pequena Miss Sunshine (2006) e outros títulos, passaram a apenas copiar seus cacoetes estilísticos mais básicos em detrimento do conteúdo que fez essas obras aclamadas romperem as barreiras de Park City. Não é o caso de Hittman, cineasta que articula as convenções do “movimento” com evidente maturidade. Vide o refinamento de sua abordagem naturalista, vide a praticidade com que se utiliza dessas ferramentas. O resultado é uma narrativa seca e de subtexto denso que eventualmente lembra o (brutal) 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2008).

Além do tempo dilatado, a diretora e roteirista investe em uma fotografia cheia de granulação e tons pastéis que muitas vezes resvalam no sépia — um set completo de clichês estéticos do filme cult bacaninha de trama rala. Por sua vez, Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é dotado de uma unidade estilística funcional, imersiva, responsável pelo incrível feito de igualar em tom uma cidade pequena da Pensilvânia com a cosmopolita e movimentada Nova York. Em filmando a capital mundial financeira e cosmopolita à sua maneira (em interiores, planos fechados, cores mortas e sem qualquer romantismo), Eliza Hittman encena NY como um mero check point na trajetória de sua protagonista, e pior: como mais um dificultador em sua jornada, já que uma cidade caríssima e predadora.

Autumn e Skylar: “perdidas” em Nova York

Sobre ser mulher e o machismo estrutural

Numa cena, Autumn se encontra em um metrô vazio à noite quando avista um homem parado à sua frente. Ela o observa como que em estado de hipnose, e a compositora Julia Holter interrompe o silêncio predominante da trilha sonora com um sutilíssimo instrumental que remete a meditação ou transe. De repente, o homem começa a abrir o zíper, pronto para sacar o pênis da calça. Autumn levanta chocada e parte dali com sua prima Skylar, que dormia.

Essa leve intervenção da trilha sonora confere uma ambiguidade que é sempre bem-vinda no cinema, e, de fato, abre aquela sequência para interpretações bem plausíveis. E é interessante que ocorra ali, só ali, uma cena que retrata um comportamento muito absurdo e pode ser efeito do cansaço de Autumn, ou do seu medo, ou é a realidade mesmo e Eliza Hittman o faça assim em tom crítico ao que homens dizem em situações desse tipo (“Ela é louca!”, “Tá delirando!” etc). Enfim, pode ser muita coisa, mas não é esse o ponto em que eu quero chegar.

A expressividade silenciosa de Sidney Flanigan e Talia Ryder é o maior trunfo das jovens atrizes

A questão é que, durante todo o longa-metragem, Hittman bate nos homens (não resisti ao trocadilho, perdão) sem piedade. E sem deixar de ter razão. Embora contado de um ponto de vista enviesado (como todo filme), Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre só retrata situações comuns, que não só mulheres, como todo homem consciente é capaz de reconhecer. O que a cineasta faz é se permitir realçar os detalhes que compõem essa violência que é cotidiana, mas machuca.

É o pai (ou padrasto) que acusa Autumn de inventar coisas em sua cabeça, é o homem mais velho que responde à simpatia de uma adolescente com assédio, é o chefe que não respeita um problema de saúde e ainda fala gracinha. Quando um jovem aborda Skylar tocando o seu braço, a câmera de Eliza Hittman ressalta essa invasão particular com um close, um olhar e um movimento de câmera devastadores. Daí parte a desconfiança de Autumn e Skylar de que nunca poderão contar com um cara que acabaram de conhecer sem que ele espere algo em troca, sem que ele as veja como mero objeto, sem que elas dispensem o uso de maquiagem antes de encontrá-lo. Enfim: é foda!

Por isso, é tão bonito ver toda a dedicação temporal e dramatúrgica de Eliza Hittman para o filme se tornar um exemplar de sororidade tão bem interpretado por Sidney Flanigan e Talia Ryder, gratas revelações. Também por isso, o clímax de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre constitui um dos grandes momentos do cinema em 2020: a sequência em que o título da obra entra em cena e Autumn desmonta, demonstrando para o grande público o que é revitimização (palavra e conceito que precisam ser desbravados).

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre traz consigo uma lição urgente, ainda mais num dia em que Anitta era bombardeada por revelar que já sofreu abuso, sendo julgada não por um crime que cometeu, mas do qual diz ter sido vítima. E transmite essa mensagem por meio de um belo filme, que enriquece o cinema independente americano e o legado (involuntário) do Festival de Sundance.

Obras citadas:

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (Never Rarely Sometimes Always, 2020), Eliza Hittman; Anti-Herói Americano (American Splendor, 2003), Shari Springer Berman, Robert Pulcini; Hora de Voltar (Garden State, 2004), Zach Braff; Napoleon Dynamite (2004), Jared Hess; Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006); 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile, 2008).

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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