Uma Noite de Crime: faça o horror político de novo

“O filme nasceu, na verdade, quando eu assistia as notícias da América, e a ação no horror/suspense sempre vem dos nossos medos. Para ser honesto, meu medo agora é de armas, e esse filme vem disso. (…) A própria América virou a tela – ao invés da casa mal-assombrada, a tela é a América. Não precisamos mais de fantasmas ou vampiros quando estamos apenas matando uns aos outros, sabe?”

Nessa entrevista ao Den of Geek, o diretor e roteirista James DeMonaco justificou dessa forma o que inspirou sua saga Uma Noite de Crime: o medo da violência urbana. Com influências assumidas (na mesma entrevista) de filmes como The Warriors – Os Selvagens da Noite (1979) e Fuga de Nova York (1981) em sua construção, o diretor vem construindo uma das maiores sagas da Blumhouse e, por que não, uma de suas mais políticas. 

A franquia (com até agora três filmes contínuos, uma prequel e uma série de televisão) conta a história de um Estados Unidos distópico onde ascendeu ao poder o grupo New Founding Fathers, os Novos Pais Fundadores, que clamam ter conseguido baixar o crime e o desemprego no país com uma proposta insana: uma vez por ano, todos os crimes estão liberados.

A ambientação, passada no ano de 2022, é enfática em narrar que o grupo autocrata subiu ao poder depois de um “colapso econômico” em 2014 e como a “purga” do título original (The Purge) tornou-se um dogma dos partidários ao grupo autocrático que governa o país. Uma purga, do latim purgare, ou emissão, é um termo usado historicamente quando um grupo no poder prega “se livrar” dos maus elementos que estariam causando distúrbios sociais. 

Exemplos históricos são vários: em 1934, Hitler matou um grupo minoritário do Partido Nazista na Noite das Facas Longas. Durante sua liderança da URSS, Stalin foi outro líder que perseguiu minorias e opositores, enviando-os para os famigerados gulags. Anterior a isso, durante a Guerra Civil Inglesa no século XVII, membros moderados do Parlamento foram expurgados pelo Exército. Por esses exemplos, é constatável como a alienação e expulsão e, resumidamente, a divisão, torna-se um instrumento de conquistas de grupos de poder

A selva urbana de The Warriors foi uma influência marcante para Uma Noite de Crime

Antecedentes escabrosos

É marcante que DeMonaco cite dois filmes da virada da década de 70 para 80 para mostrar as bases fundadoras de Uma Noite de Crime. O período que ele se refere através dos exemplos cinematográficos é muito lembrado pelo seu escapismo, mas como o mesmo diz citando Scorsese, também foi a época de “cinema de contrabando”, ou seja, de levar sem ser solicitado suas ideias e suas visões de mundo para dentro dos filmes de gênero comerciais.

Na década de setenta, esses filmes e outros representaram essa certa tendência. Pensemos desde a década anterior até o desenrolar da seguinte, obras como A Noite dos Mortos-Vivos (1968), Aniversário Macabro (1972), O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Quadrilha de Sádicos (1977) modernizaram o horror com temáticas adultas e perturbadores e um nível grotesco de violência.

“Horror é uma reação, não é um gênero”, disse certa feita John Carpenter e em Horror Cinema, Trauma, and the US in Crisis in the 1970s, Brooke Krancer credita motivos como o fracasso na empreitada militar no Vietnã e o escândalo de Watergate fazer a confiança nas instituições despencar de 80% para 30% em um espaço de 15 anos, bem como a pobreza e o crime atingiram níveis históricos.

Então, como escreve Brooke, slashers como Halloween (1978) e Sexta-Feira 13 (1980) abordavam em um última análise o medo da “punição” e até a espiritualidade estava abalada em filmes como O Exorcista (1973) e A Profecia (1976), a declaração de Carpenter faz pleno sentido. Como esperar filmes otimistas de uma nação cujos indicadores sociais estavam em declínio? E como James DeMonaco traduz isso para a década de 2010?

O monstro americano da vez: a elite

Nós Vamos Invadir Sua Casa

Surpreendentemente, o primeiro Uma Noite de Crime (2013) não explora tanto a ideia de “liberdade total”, talvez focando na ideia de Jason Blum de “investir pouco para lucrar muito”, o que fez com que o filme fosse produzido pela bagatela de $3 milhões e rendesse quase $90 milhões nas bilheterias. Com toda a franquia custando cerca de menos de 40 milhões de dólares e rendendo mais de $450 milhões, faz sentido a comparação do diretor em chamar seu produtor de “o Roger Corman de hoje”, fazendo referência ao padrinho do moderno cinema americano, responsável por produzir gente como Coppola, De Palma e Scorsese em início de carreira.

O primeiro foca em dois astros, Ethan Hawke e Lena Headey, como um casal que vende sistemas de segurança para a noite de crime e, quando tem sua casa invadida por uma vítima fugitiva, se tornam eles mesmos alvos dos instintos assassinos dos que receberam chancela para cometer delito. Sintomático que, apesar de mostrar todo tipo de criminoso posteriormente, os primeiros que vemos são jovens bem apessoados, com roupas impecáveis, trajados de elite. E toda essa elite tem ideias bem específicas do que fazer com os pobres coitados que atravessem seus caminhos.

Ainda assim, o primeiro filme é um tanto prejudicado com seu escopo reduzido – se tirarmos a contextualização daqueles assassinos, seria o típico filme de invasão caseira onde a família é empurrada até o limite de começar a responder de volta. Mas ainda assim, o público parece ter respondido bem ao clássico tema onde uma verdadeira instituição americana – a casa familiar, a propriedade privada – é devassada e ameaçada, e dessa vez, pelos ricos. Talvez um reflexo da crise dos subprimes de 2008, onde para que alguns pudessem lucrar, milhares perderam seus lares?

Ainda hoje, a confiança pública no governo não voltou a alcançar os marcadores da geração do pós-guerra. Após Reagan, que conseguiu mais ou menos retomar a auto-estima americana, nenhum presidente motivou nenhuma geração com a mesma estima. Boomers, Geração X, Millennials têm números oscilantes em sua confiança. Após a crise de 2008, preocupam indicadores dos últimos anos, como um aumento vertiginoso de casos de estupro (quase duplicando em menos de dez anos), uma epidemia de opioides (218 mil mortes por overdoses entre 1999 e 2017, segundo o CDC) e de tiroteios massivos (praticamente um por dia desde 2013). Nesse sentido, não há como negar: o horror não vem como gênero, mas de maneira reativa, como disse Carpenter. Mas se o escopo era humilde na primeira empreitada de Uma Noite de Crime, o mesmo não pode-se dizer das seguintes.

As sequências apresentam um carnaval de alegorias

Os Assassinos Somos Nós?

Vendo Uma Noite de Crime: Anarquia (2014) e 12 Horas Para Sobreviver: Ano de Eleição (2016) (curiosamente o único da franquia a não levar o nome na tradução), fica nítida a vontade do diretor de expandir seu mundo, e o resultado são thrillers com momentos escabrosos, ação e, como o próprio admite, humor macabro. 

Despontando como roteirista de filmes policiais como A Negociação (1988) e o remake de Assalto à 13ª DP (2005) (e do Jack [1996] de Coppola, mas todos temos que começar de alguma forma, não é mesmo?), DeMonaco honra a influência admitia dos filmes supracitados e filmes como Um Dia de Cão (1975) e se perfaz nas suas sequências, colocando os personagens nas ruas e deixando a loucura reinar, quase como se estivéssemos vendo uma adaptação do videogame Grand Theft Auto em larga escala.

A comparação não é infundada, visto que toda a inspiração para a série veio quando diretor e esposa tiveram um conflito na estrada com um motorista bêbado e a esposa, até então uma gentil médica, no auge da sua irritação, imaginou como essa briga aconteceria se, uma vez por ano, o crime fosse livre. O diretor ficou tão impressionado com a declaração que acabou tendo uma ideia.

O segundo filme de 2014 introduziu um personagem que ligaria a série: Sargento Leo Barnes, interpretado por Frank Grillo, famoso por antagonizar Chris Evans em Capitão América: O Soldado Invernal (2014). O “Sargento”, como é chamado, é um homem devastado pela perda que aguarda a noite do expurgo como uma oportunidade de se vingar do homem que atropelou seu filho ao dirigir bêbado, mas acaba se juntando a outros sobreviventes da madrugada de loucura e, mais cedo ou mais tarde, protegendo-os dos agressores – talvez o personagem que, como DeMonaco descreve, possa “emergir da escuridão” em um filme com “visão incrivelmente cínica”.

Mas apesar de alguns personagens redimidos, nesse filme, o diretor “solta os cachorros” e, para quem queria alegoria, não faltam momentos absurdos como mercenários paramilitares que ganham a vida vendendo vítimas para milionários que não querem arriscar a própria pele em campo aberto. Em outro momento, o pai de uma família afro-americana vende a si mesmo para ser morto para garantir o futuro da família que enfrenta dificuldades financeiras. Tudo sempre volta às questões sociais, ao que parece; “é sobre raça, é sobre divisão de classes, e é sobre armas”, sentenciou o diretor na entrevista que abre o texto.

Já em 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição, uma senadora que teve a família massacrada pelos purgadores que promete acabar com as Noites de Crime. Vendo o seu reino ser ameaçado, Os Novos Pais Fundadores revogam a única regra, a de atacar autoridades políticas. Seu guarda-costas contratado é Leo, que vê-se obrigado a escoltar a senadora por doze horas para protegê-la da manobra política de um sistema que muda para continuar igual.

No terceiro filme da saga, o desencanto com o sistema é claro; não apenas os governantes manobram as leis que os próprios criaram para continuarem no poder, como vemos comentários absurdistas, à lá Robocop – O Policial do Futuro (1987), como os benefícios econômicos do “turismo de assassinato” – a vinda de estrangeiros para participar da Noite de Crime e até mesmo sacerdotes religiosos conseguindo prestígio político com sacrifícios humanos. No absurdo mundo dos expurgos oficializados, a vida humana não é apenas dispensável, mas uma commodity. Mas como nasce um país tão distorcido assim?

O racismo é o principal tema do prequel A Primeira Noite de Crime

O Nascimento de Uma Tradição Americana

O material publicitário de A Primeira Noite de Crime (2018) provoca acintosamente o discurso patriota e conservador que teve uma nova ascensão com a eleição do republicano Donald Trump. O slogan reproduzido aqui no subtítulo convidava os espectadores a ver como nasceu o “orgulho nacional” onde crime se tornou legal e depois virou mercadoria e um dos pôsteres mostrava o conhecido boné vermelho que as letras brancas clamavam “Torne a América Grande de Novo” anunciando a primeira purga. Criada durante o governo Obama, a franquia se reinventava para manter a atualidade.

É o primeiro filme da franquia a contar com DeMonaco apenas como roteirista, agora com Gerard McMurray (Código de Silêncio, 2017) na cadeira de direção. É o filme que mais toca no tema sensível do racismo estadunidense, já que trata sobre como A Primeira Noite de Crime funcionou: os Novos Pais Fundadores, chancelados pela psicóloga Dra. Updale (Marisa Tomei), implementam o experimento e a narrativa passa a se centrar em Staten Island, distrito de Nova York. 

Durante os anos anteriores, o movimento antirracista Black Lives Matter ganhou proeminência e, um ano antes do filme, supremacistas brancos marcharam em Charlottesville. Como resultado, A Primeira Noite de Crime é um filme que retrata vidas inocentes de negros e latinos fugindo da fúria legalizada pelo governo da KKK e neonazistas. Como herói por acidente, temos Dmitri (Y’lan Noel), um traficante que tem de escolher entre continuar praticando crimes e pegar em armas e resistir contra os que acossam sua comunidade. Para a Collider, Y’lan definiu seu personagem como uma “contradição ambulante”, que “decide agir contra a própria hipocrisia”, afirmando que “todos somos um saco misturado”, com “qualidades heroicas e vilanescas” e que apenas quando “está apertado contra a parede que revelamos quem realmente somos”. Uma redenção possível em um cenário de inferno, onde um homem no limite da lei opta por uma marginalidade heroica, trocando tiros radicais que sentem-se empoderados.

Respondendo ao SlashFilm, o diretor McMurray define que a tensão do filme está no seu principal antagonista: as lideranças políticas. “O governo é o bicho-papão. Esse é o horror”, defende. Ele diz ter “adicionado muito” ao mundo do criador DeMonaco. “A persepctiva do que eu acho do que é assustador para um homem negro, a KKK. Tudo que você vê acontecendo no filme, as máscaras, tudo, eu que cheguei para James e contei como eu queria fazer o filme de uma perspectiva negra”.

Sete anos depois, Uma Noite de Crime foi longe, abrindo sua abordagem e compondo uma verdadeira metralhadora giratória que mostra de maneira macabra o que as pessoas fazem quando ela não tem limites e, mesmo assim, reproduzem formas de opressão social. Esse conteúdo denuncista também está presente na série da Amazon, ainda que a alegoria, como aponta o site Escotilha, valorize mais a ação e menos a discussão. 

No todo, entre altos e baixos, Uma Noite de Crime é um triunfo para a Blumhouse, já que é mais um exemplo de Jason Blum de como não só é capaz de fazer muito com pouco, mas também fazer sucesso com filmes que a princípio “ninguém quer fazer”, como contou à ÉPOCA Negócios. Na mesma entrevista, gaba-se da “liberdade” dos filmes de baixo orçamento depositada na mão dos autores e também credita, como DeMonaco, a mudança do terror por conta da mídia: “São histórias reais que nos assustam hoje. A realidade me assusta. Pessoas como Roger Ailes e Steve Bannon me assustam”, mencionando casos como o ex-chefe da Fox News acusado de assédio e o assessor de Trump, acusado de manipular a população. 

Quando analisamos a realidade e juntamos as produções feitas por DeMonaco à outras produções de Blum, como o horror Corra! (2017), de Jordan Peele e o drama policial Infiltrado na Klan (2018), fica fácil entender, afinal de contas, de onde sairia esse novo horror político, antes praticado por Craven, Carpenter, Romero, Verhoeven e outros: justamente dos animais políticos que o praticam – nós mesmos.

Obras citadas:

The Warriors – Os Selvagens da Noite (The Warriors, 1979), de Walter Hill; Fuga de Nova York (Escape From New York, 1981), Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978) de John Carpenter; A Noite dos Mortos-Vivos (Night of The Living Dead, 1968), de George A. Romero; Aniversário Macabro (The Last House on The Left, 1972), Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), de Wes Craven; O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre, 1974), de Tobe Hooper; Sexta-Feira 13 (Friday The 13th, 1980), de Sean S. Cunningham; O Exorcista (The Exorcist, 1973), de William Friedkin; A Profecia (The Omen, 1976), de Richard Donner; Uma Noite de Crime (The Purge, 2013), Uma Noite de Crime: Anarquia (The Purge: Anarchy, 2014), 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição (The Purge: Election Year, 2016), de James DeMonaco; RoboCop – O Policial do Futuro (RoboCop, 1987), de Paul Verhoeven; Jack (1996), de Francis Ford Coppola; A Negociação (The Negotiator, 1998), de F. Gary Gray; Assalto à 13ª DP (Assault on Precint 13, 2005), de Jean-François Richet; Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), de Sidney Lumet; Capitão América: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014), de Joe e Anthony Russo; A Primeira Noite de Crime (The First Purge, 2018), Código de Silêncio (Burning Sands, 2017) de Gerard McMurray ; Corra! (Get Out, 2017), de Jordan Peele; Infiltrado na Klan (BlackKklansman, 2018), de Spike Lee.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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