Trevas sobre a América: o film noir de Fritz Lang

Que país Fritz Lang encontrou quando, no fim da década de 30, pôs os pés nos Estados Unidos?

Através de conflitos civis ao longo do século XIX, os Estados Unidos emergiram como uma nova potência mundial. Antigos impérios apresentavam sinais de colapso ou desgaste. O país consolidou, no século XX, uma supremacia econômica e militar inédita. A mentalidade patriótica da figura angelical Columbia, portadora do Destino Manifesto, transformou-se, de maneira pragmática no Sonho Americano. O conceito é definido por James Truslow Adams em A Epopeia Americana (1931): “o sonho de uma terra que a vida deveria ser melhor, mais rica e mais completa para todos, com oportunidade para cada um de acordo com habilidade ou conquista”. Mas o quanto isso seria verdade para os americanos?

À época da publicação , o país experimentava seu primeiro duro golpe econômico com o advento da Grande Depressão de 1929. Milhões sofriam da falência econômica. Em breve, o país sofreria um reformismo econômico com as ideias intervencionistas do New Deal. Ao mesmo tempo, ascendia ao poder na Alemanha a ditadura nazista de Adolf Hitler. Tal acontecimento causaria uma mudança no cenário cultural dos países. O führer e o ministério de propaganda de Joseph Goebbels objetivavam filmes patriótico, grandiosos – como O Triunfo da Vontade. O que acabou mudando a cultura em voga na Alemanha.

O trágico assassino feito por Peter Lorre em M - O Vampiro de Dusseldorf (1931)
O trágico assassino feito por Peter Lorre em M – O Vampiro de Dusseldorf (1931)

 Fantasias sombrias

A Alemanha tornava-se conhecida internacionalmente pelo que ficou conhecido como o Expressionismo Alemão. Os filmes tinham abordagens psicológicas distorcidas, derretendo o cotidiano em fantasia e em perspectivas visuais doentias. Além disso, eram histórias com profundas alegorias políticas. Era o caso de O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu e Metrópolis, de Fritz Lang. Com o fim da República de Weimar, há uma “evasão de cérebros”cerca de 1500 profissionais da área fogem. É aqui que encontramos nosso principal personagem.

Friedrich “Fritz” Christian Anton Lang, em particular, teve uma fuga emblemática, quase mitológica. Surgido com os filmes seriais (como As Aranhas), o cineasta destacou-se no expressionismo com A Morte Cansada. Realiza então a ficção especulativa Metrópolis, sobre um mundo de trabalhadores e patrões em rota de colisão. O filme impressionou Goebbels, que ofereceu a direção do cinema alemão para Lang. O nazistahavia censurado Lang nos seminais M – O Vampiro de Dusseldorf e O Testamento do Dr. MabuseSegundo Lang, o mesmo recusou a oferta na frente de Goebbels.

De ancestralidade judia, Fritz Lang exilou-se da Alemanha e se divorciou da esposa e roteirista Thea Von Harbou, simpatizante nazista. Após realizar Coração Vadio na França, desembarca nos Estados Unidos, sob auspícios de David O. Selznick. Residindo em um novo país, passaria a observar com seu típico interesse social as transformações sociais que o país enfrentava. O ícone expressionista então empresta seu olhar estrangeiro para os EUA. Como um alemão foragido do nazismo enxergava a assim dita terra das oportunidades?

Fritz Lang
O protagonista de Fúria (1936) busca vingança contra a injustiça sofrida

Década de 30: Semeadura sombria – Fritz Lang e os dramas sociais

Estamos a alguns anos do film noir surgir de maneira “oficial” com O Falcão Maltês. Fritz Lang desembarca com uma trilogia de filmes com a atriz Sylvia Sydney (que atuou para Hitchcock em O Marido Era O Culpado). As obras carregam uma temática social cara ao cineasta: a crítica social. Lang era frustrado com a superprodução Metrópolis, dizendo sua conclusão ser “falsa” por seu caráter generalista.

Em entrevista à Cahiers du Cinema em 1959, reproduzida no catálogo do CCBB Fritz Lang – O Horror Está no Horizonte, o diretor opina que a crítica social é algo “fundamental para um cineasta” a “crítica de nosso “ambiente”, de nossas leis, de nossas convenções”. É sobre isso o primeiro filme, Fúria (1936). Na obra, Spencer Tracy é confundido com um raptor de crianças, e linchadores o perseguem. A delegacia é incendiada e o protagonista dado como morto. Mas ele está vivo, e deseja vingar-se dos seus “assassinos”.

O filme antecipa o impactante faroeste Consciências Mortas e exibe a América profunda como um lugar histérico e raivoso. A estética pavimenta o caminho entre o expressionismo e o noir as faces da população raivosa durante o linchamento público recebem closes em chiaroscuro monstruosos e grotescos. Igualmente, o protagonista quando “volta da morte” retorna em fúria vingativa, roupas em tons escuros, postura dura e vertical. Apenas seu par romântico (Sydney) clama que ele aja de forma humana, ao contrário dos seus pretensos algozes.

O personagem de Henry Fonda em Vive-se Só Uma Vez (1937) tenta ser bom, mas a sociedade o o corrompe
O personagem de Henry Fonda em Vive-se Só Uma Vez (1937) tenta ser bom, mas a sociedade o o corrompe

O culpado inocente

Fritz Lang via os Estados Unidos como uma terra trágica e injusta para o ser humano. Isso é notório em Vive-se Só Uma Vez, onde escala Henry Fonda ao lado de Sydney. Fonda seria um ícone dos “filmes sociais”, estrelando posteriormente Consciências Mortas e Doze Homens e Uma Sentença. Em filme que François Truffaut definiu como sendo sobre o “destino”, a inspiração clara é do midiático casal de bandidos Bonnie & Clyde; porém, o retrato não é espetacular, mas trágico: um ex-condenado, de boa índole, é empurrado para a marginália pela sociedade. 

Dessa forma, o protagonista de Fonda tenta levar uma vida convencional, trabalhando e se casando; mas a sociedade o julga desde o primeiro momento na lua-de-mel, é expulso pelos gerentes de motel que descobrem seu passado. Ao longo do filme, será acusado de assalto à banco e assassinato, sendo condenado à morte. Inocentado tarde demais, organiza sua escapada , em cena repleta de fumaça, sombra e luz, quando torna-se inimigo público. 

Novamente, apenas sua mulher (Sydney) jamais deixa de acreditar na sua inocência, preferindo tornar-se culpada junto a ele. Um personagem secundário penalizado afirma que “os acusam até do que não cometeram”. O próprio Fonda afirma em certo ponto: “eles me tornaram um assassino”. Um diálogo sintomático que para alguns homens, o sonho da vida plena é negado. 

Fritz Lang
O homem no limiar da lei em Casamento Proibido (1938)

 
Tragédias marginais

O interesse político declarado rende um terceiro filme com Sylvia (“sobrevivi à três filmes com ele”, diria). O resultado é Casamento Proibido, um filme fracassado e mal recebido. Em contradição com os filmes anteriores, esse possui um clima mais leve, com diálogos humorados e números musicais. Um ex-condenado (George Raft) vê sua esperança de se reabilitar ameaçada ao descobrir que sua esposa e companheira de trabalho também esteve presa.

Saber que está cometendo um crime sem consciência disso (de acordo com as leis da época, a união seria associação criminosa) o tenta a cair na bandidagem de novo. Decepcionado que está, ensaia um atentado contra bondoso patrão, que emprega quem serviu pena. Conseguirá ele se redimir ou será condenado de vez? Distante do estilo tradicional de Lang, esse filme autoproduzido solar e carrega um ar irônico à Lubitsch. Soa como um uma variação rala de sua temática preferida. Acabou entre os projetos pelos quais não tinha grande apreço, ainda mais depois do fracasso nas bilheterias.

Nesses três filmes, a figura feminina de Sydney atua como pêndulo moral dos homens, salvando-as das ruínas de suas vidas. Em Vive-se Só Uma Vez, sua dedicação é tamanha que a acompanha até no crime. No todo, Lang pinta um quadro de resiliências sendo testadas, e nem sempre bem respondidas. O elemento da falsa acusação e do falso crime é uma constante nos três filmes. É difícil perseguir sonhos se a própria sociedade se opõe. Esse quadro injusto, onde a massa condena e o indivíduo sofre, continuaria a reverberar nas obras seguintes.

O mundo esmaga o indivíduo em Quando Desceram as Trevas (1944)
O mundo esmaga o indivíduo em Quando Desceram as Trevas (1944)

Década de 40: Trevas Reinventadas – Do expressionismo fantástico ao noir realista

Após seu primeiro fracasso comercial, Lang dirigiria dois faroestes, O Retorno de Frank James e Os Conquistadores. Lang diria amar o gênero, já que os filmes possuem uma “ética muito simples e muito necessária”. Os dois filmes examinavam a vida de pistoleiros que largam a vida de crimes. Mesmo ambientado os dois projetos na fundação da América, os temas de redenção continuavam sendo-lhe caros. 

Nos três anos seguintes, Fritz Lang iria à guerra – figurativamente falando. As três produções seguintes tratam sobre a luta contra o terceiro Reich. O tom pesado caminha no limiar entre o suspense de conspiração e o noir. Antinazistas febris, O Homem Que Quis Matar Hitler e Os Carrascos Também Morrem mostram protagonistas ameaçados pelos horrores do Terceiro Reich e um alto custo humano. As obras renderam polêmica e admiração, com o produtor Darryl F. Zanuck tentando o direito ao corte Lang. Décadas depois, porém, o historiador e crítico Ronald Bergan o descreveu como um dos primeiros filmes a retratar nazistas não como figuras patéticas e engraçadas (como em O Grande Ditador e Ser ou Não Ser), mas sim cruéis perigosos.

O filme seguinte cria uma ponte entre o Lang “guerreiro antinazista” e o noir: Quando Desceram as Trevas, adaptação de livro de Graham Greene (Um Americano Tranquilo). Ray Milland aparece como um homem atormentado que ao receber alta de um asilo, encontra um país dominado pelo medo. É época da Blitz, a campanha de bombardeio de Hitler contra Londres. Para completar, o protagonista é perseguido por espiões do Reich por colocar as mãos em um microfilme. 

O clima de paranoia é constante. O protagonista é acusado de crimes seguidamente. Seu passado levanta suspeita. Há até uma cena envolvendo espíritos e mau agouro, que parece citar Dr. Mabuse – O Jogador, a corrupção retratada como um mal que nunca dorme. Em M, tinha-se a noção que os assassinos estavam entre nós); aqui, não só eles estavam como os inocentes são confundidos com eles. 

A materialização da figura admirada em Um Retrato de Mulher (1944)
A materialização da figura admirada em Um Retrato de Mulher (1944)

Desejo se faz carne

A guerra conhecia seus dias finais quando Lang assentou o pé no film noir. Um mundo de trevas labirínticas é observado pelo diretor em Um Retrato de Mulher e Almas Perversas. Filmes-irmãos que compartilham a direção de Lang, a fotografia de Milton R. Krasner e os atores Edward G. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea, parecem atuar como espelhos de temáticas semelhantes. 

Toda a assinatura noir que Fritz Lang ajudou a fundar está aqui: fotografia noturna, silhuetas em contraluz, reflexos distorcidos. É construída uma atmosfera feérica, não desse mundo, como podemos conferir em Um Retrato de Mulher. O protagonista encontra por acaso do destino uma mulher que serviu como modelo para um quadro de loja que admirava. Lang filma o encontro de maneira etérea, a femme fatale surgindo em reflexo antes de se fazer carne. Talvez o momento mais erótico do cineasta: a materialização do desejo de um homem respeitável. Tentado pela ausência da esposa e filhos em viagem, o protagonista acaba na casa dela. A noite agradável dá errado quando surge o amante dela, a quem acaba assassinando em uma briga.

O protagonista tenta se livrar da culpa que ameaça arrasar sua vida e carreira. Seu amigo comissário do protagonista o atormenta, detalhando o quanto a polícia está perto de descobrir o assassino. O clima de angústia está instalado. O noir coloca o moralismo americano em xeque; um senhor respeitável flerta com uma mulher “vulgar” para a sociedade à época, mata e foge da lei. Lang sugere que tal figura tradicional é capaz de ser tão calculista e culpado quanto assassinos “comuns”. O final anedótico, considerado desnecessário por alguns, vende a sociedade americana como um grande teatro de máscaras.

Fritz Lang
A representação pervertida de Almas Perversas (1945)

Espelho negro da América

Em Um Retrato de Mulher tudo parece delirante. O conflito é iniciado a partir de um reflexo na janela.Não sabemos o quão próximos estamos de sermos pegos. O inconsciente pode pregar peças. Enquanto isso, Almas Perversas é seu espelho perverso. Baseado no filme A Cadela, de Jean Renoir e no romance homônimo de Georges de La Fouchardière, a obra conta a história de um homem medíocre (Robinson) em um emprego e casamento ordinários que se apaixona por uma mulher maliciosa (Bennett). A femme fatale explora o hobby do protagonista em pintura amadora para extorquir dinheiro para ela e seu namorado (Duryea). De novo, o tema da pintura. Mas agora a arte não materializa um desejo, mas antes, o condena.

Neste retrato naturalista e animalesco da sociedade, nada é o que parece. Todos guardam segredos uns dos outros e ninguém é inocente. Todos traem o protagonista, que bate de volta. No final, vê-se livre da lei, mas isso não o redime, pois nenhum desejo seu mostra-se possível, seja o sexual, familiar ou artístico. A pintura aqui representa o que se pode sonhar e representar, mas observa-se que a realidade é diferente, corrompida. O pesadelo do noir nunca foi tão concreto quanto em Almas Perversas, onde testemunha-se um delírio cruel do qual é impossível acordar. 

A personagem perde-se nos cenários e em si mesmo em O Segredo da Porta Fechada (1947)
A personagem perde-se nos cenários e em si mesmo em O Segredo da Porta Fechada (1947)

As sombras do inconsciente

Após outro filme de espionagem, O Grande Segredo, com Gary Cooper, produção encomendada pela Warner Bros., O Segredo da Porta Fechada é seu noir mais psicanalítico. Joan Bennett e Michael Redgrave estrelam uma versão do conto-de-fadas do Barba Azul, de Charles Perrault. Na história, uma mulher investiga o segredo do seu amoroso marido: um quarto cujo acesso é proibido. Violada, a porta libera o segredo e a faceta sombria do indivíduo antes apaixonado.

Luc Moullet comparou no livro Fritz Lang o filme ao cinema de Hitchcock. Destacou, aind, que para além do lado expositivo que muitos criticam no roteiro, é “um diamante de misé-en-scene”, “uma obra inteiramente gratuita, uma sequência marienbadiana de espelhos, chaves, corredores, lâmpadas, portas, dentro de uma estranha mansão campesina”. É sua produção americana mais expressionista, por assim dizer. Ambientes e personagens se confundem, os corredores labirínticos da casa também sendo os da mente humana.

O diretor refina e reinventa as trevas que sempre acompanharam seu trabalho, descolando-a das fantasias e imprimindo-as nas grandes cidades. Dotado do grande maquinário de Hollywood, sua câmera mira indivíduos respeitáveis, desejos recalcados e ruptura das instituições. A América é um labirinto confuso, a vida nas cidades é perigosa e as pessoas bem podem ser os monstros dos contos fantásticos.  E como veríamos, nos dez anos seguintes, Lang se tornaria cada vez mais incisivo. 

Fritz Lang
A perversão dos poderosos em Maldição (1950)

Década de 50: Pesadelo na Esquina – Fritz Lang destrói o mito 

Antes, Lang falava sobre inocentes tornados culpados pela sociedade. Na sua década final nos Estados Unidos, novos rumos eram tomados. O Sonho Americano nunca teve tanta força que nem na década de 50; é a época de ouro da televisão, do surgimento do Rock & Roll, do capitalismo como um manancial de possibilidades. Mas também era época de Joseph McCarthy e sua caça às bruxas anticomunista e da Guerra Fria em plenitude. O mundo se reorganiza e se encontra dividido: a Coreia se parte em duas; um muro ideológico e posteriormente literal divide Berlim. 

O clima de aparente otimismo não seduziu muito Lang, que abre a década conduzindo Maldição, história de um rico escritor que assedia sua empregada e acaba matando-a. A morte não é conclusão, mas ponto de partida; com toques fantasmagóricos, uma cortina enrola-se na empregada tal qual um braço amorfo de desejo. Talvez o momento americano do diretor mais próximo da fantasia do horror sobrenatural.

Ao contrário das anatomias criminosas anteriores, onde o assassinato tem um contexto por trás, em Maldição o protagonista é perverso. O personagem de Louis Hayward chantageia o irmão e usa a morte como autopromoção. Uma crítica às elites? É oq que parece. Dessa vez, o culpado parece ter demônios dentro de si desde sempre. Faltava apenas um pretexto para liberar esse caráter.

Fritz Lang
A luz e as trevas no coração de cada um em Só a Mulher Peca (1952)

Moral conturbada

Ironicamente, Só a Mulher Peca é, em toda a carreira, seu filme mais humanista. Sim, até mais que Fúria e Vive-se Só Uma Vez. toda a tensão do roteiro está centrada em uma pergunta: como será o Clash By Night, o confronto à noite do título original? Trágico ou redenor? Ao adaptar a peça de Clifford Odets, Lang insere todos os elementos típicos do noir: a mulher “sem valor” interpretada por Barbara Stanwyck, casada com um homem explosivo e apaixonada por outro. Porém com uma reviravolta.

Ao mesmo tempo que se evidencia o lado sombrio da pessoa comum, evoca-se certa esperança no espírito humano dos marginalizaoas. Se no filme anterior o poder corrompe, aqui as dificuldades nos fazem reconhecer o ser humano no outro. Um verdadeiro exercício de empatia do cineasta.

Entrementes, Lang também conduz mais um faroeste: O Diabo Feito Mulher, onde trabalha com uma lenda conterrânea, Marlene Dietrich. Antes honesto, o protagonista sedento por vingança se infiltra em um bando em busca de um assassino. Por ocaso do destino, passa a se relacionar com a dona do esconderijo. As tomadas exteriores são poucas, abundam os interiores de estúdio, confinando os personagens. À margem da lei, os personagens não se movem muito, tampouco podem compartilhar seus fantasmas. Revelar demais significa morte. Dietrich, apaixonada, pensa em largar tudo, mas os sentimentos “quentes” aqui são reprimidos pelo excesso de passado. Um filme sobre desconfiança para uma década paranoica. A “ética simples” é destruída no faroeste de Lang.

Fritz Lang
Um rosto destruído em Os Corruptos (1953): um retrato da América.

Um inferno americano

A obra-prima Os Corruptos, um dos dois filmes que Lang realizou no ano, é seu experimento mais brutal com o noir. Nesse filme de crime escrito pelo ex-repórter policial Sydney Boehm, um policial vai às últimas consequências para impedir um sindicato organizado. Violento e repulsivo, é uma espécie de pai espiritual de filmes como Operação França, Viver e Morrer em Los Angeles e O Ano do Dragão. É lembrado principalmente pela cena onde o gângster psicótico interpretado por Lee Marvin desfigura com café escaldante o belo rosto de sua namorada (Gloria Grahame).

Esta é talvez a caracterização de personagem mais noir possível; como observa Inácio Araújo no catálogo Friz Lang – o terror está no horizonte, um rosto seu é “belo e sadio”, enquanto o outro é “desfigurado e doloroso”. Como a própria América, solar em seu consumismo, mas dominada pela máfia. Como aborda Tom Gunning em The Films of Fritz Lang: Allegories of Vision and Modernity, Os Corruptos é um “drama de superfície”, evidenciando em carne viva a desgraça moral dos seus protagonistas.

Lang então realiza Desejo Humano, versão melodramática que muda o tom do naturalista brutal de A Besta Humana, em sua segunda refilmagem de Jean Renoir. O próprio diretor não nutria grande apreço pelo filme, onde uma mulher pede ao amante que mate o marido abusivo. Rebatizado de maneira sensual, é um tórrido romance de portas fechadas, onde os protagonistas se escondem, enquadrados por trás de batentes. Pressionado pelos estúdios, Lang discordou em filmar o protagonista Glenn Ford como um “americano bem apessoado” ao invés de um “pervertido sexual”, como Renoir filmou Jean Gabin. Mas o recado era dado: o amor manifestado de portas abertas parecia impossível. A degeneração dos valores e hostilidade homicida viram a ordem da casa. 

Fritz Lang
Gato e rato se caçam pela mídia em No Silêncio de Uma Cidade (1956)

Mídia e violência

Nesse período, Lang assinou três obras que abordam seu fascínio com a mídia: A Gardênia Azul, No Silêncio de Uma Cidade e Suplício de Uma Alma. No primeiro, Anne Baxter interpreta uma telefonista romanticamente frustrada que, por acaso do destino, acorda ao lado de um cadáver. Suspeita de assassinato, aposta seu destino em um repórter ansioso que procura inocentá-la para obter um furo. Com o título aludindo aos crimes da Dália Negra, Baxter evoca o Edward G. Robinson de Um Retrato de Mulher no que Peter Bogdanovich chama de “um retrato particularmente venenoso da vida americana”.

No Silêncio de Uma Cidade é um M mais contemporâneo, baseado em The Bloody Spur do jornalista Charles Einstein. Seguimos aqui William Heirens, o Assassino do Batom, epítome conseguida por uma mensagem escrita nas paredes. Vincent Price, no papel de um herdeiro de jornal, ordena que três editores compitam entre si para ver quem melhor cobre os assassinatos. A cidade é virada do avesso na busca pelo assassinato, e a ganância pelo furo parece não conhecer limites.

É certo que os assassinos de M e desse filme são culpados – são homicidas compulsivos. Mas o que dizer dos criminosos organizados de um e a mídia que instaura caos social de outro? Aqui, porém, Fritz Lang resgata a moral vista na trilogia com Sylvia Sydney; é o amor por uma mulher (Rhonda Fleming) que salva a alma do âncora interpretado por Dana Andrews. Ele abdica daquele mundo onde a perseguição por “justiça” desperta os piores instintos dos cidadão normais. Talvez o único caminho para sua alma “suja” ser redimida.

Fritz Lang
A culpa é uma narrativa em Suplício de Uma Alma (1956)

Narrativa perversa

Na década de 60, Lang retorna para a Alemanha e realiza seu testemunho definitivo sobre controle social: Os Mil Olhos do Dr. Mabuse. Ants, ensaiou a temática na epítome dos seus filmes midiáticos em terras americanas: Suplício de Uma Alma. Trata-se de um drama de tribunal que na verdade é um filme-farsa. Um romancista pretende expor as falhas da pena de morte se colocando como o principal suspeito de um crime. Porém,  como logo aprenderemos, a culpa não se baseia na verdade em si, mas na narrativa dos fatos.

Suplício de uma Alma é, portanto, o filme mais metalinguístico de Lang. Com base no final trapaceiro, o roteiro é “a história de um roteiro”, um “simulacro”, como escreve Serge Darney em A Máquina Infernal. Em seu último filme americano, não há significado para além do que inventamos. Não é um filme sobre a certeza da verdade, mas seu esvaziamento. É claro que é um filme rocambolesco, absurdo, improvável; mas se justifica, pois, no final das contas, é sobre a falência de tudo que consideramos crível. 

Fritz Lang
Fritz Lang em ação

Um observador sombrio

Durante duas décadas de cinema americano, Fritz Lang reinventou as trevas do expressionismo alemão. O misticismo fantasmagórico que derretia a realidade em visões, como diria Lotte Eisner em A Tela Demoníaca, virava um realismo enegrecido, pervertido. Sua América é uma América da perversão por trás do desejo. A América dos belos cenários ganha contornos absurdos e as faces luminares de Hollywood são destruídas por violência moral e física.

A tradição do pesadelo americano filmada por gente como William Friedkin, David Lynch e os grotescos filmes do Gótico Sulista deve muito à sujeira sombria do noir. Portanto, devem também à a Fritz Lang, um dos cinemas mais importantes a serem trilhados na filmografia do país. Um Dante moderno que eviscerou uma cultura e nela descobriu um inferno escuro e pessoal. Se está disposto a conhecer a Terra das Oportunidades, deixai aqui toda esperança, vós que entrais.


Obras citadas:

Metrópolis (Metropolis, 1927); As Aranhas (Die Spinnen, 1. Teil – Der Goldene See, 1919); A Morte Cansada (Der müde Tod, 1921); M – O Vampiro de Dusseldörf (M – Eine Stadt sucht einen Mörder, 1931); O Testamento de Dr. Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse, 1933); Coração Vadio (Liliom, 1934); Fúria (Fury, 1936); Vive-se Só Uma Vez (You Only Live Once, 1937); Casamento Proibido (You And Me, 1938); O Retorno de Frank James (The Return of Frank James, 1940); Os Conquistadores (Western Union, 1941); O Homem Que Quis Matar Hitler (Man Hunt, 1941); Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die!, 1943); Quando Desceram as Trevas (Ministry of Fear, 1944); Dr. Mabuse – O Jogador (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922); Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window,1944); Almas Perversas (Scarlet Street,1954); O Grande Segredo (Cloak and Dagger, 1946); O Segredo da Porta Fechada (Secret Beyond The Door…,1948); Maldição (House By The River, 1950); Só a Mulher Peca (Clash By Night, 1952); O Diabo Feito Mulher (Rancho Notorious,1953); Os Corruptos (The Big Heat, 1953); Desejo Humano (Human Desire, 1954); A Gardênia Azul (The Blue Gardenia, 1953); No Silêncio de Uma Cidade (While The City Sleeps, 1956); Suplício de Uma Alma (Beyond a Reasonable Doubt, 1956), Fritz Lang; O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens,1935), Leni Riefenstahl; O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1919), Robert Wiene; Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), F.W. Murnau; O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1942), John Huston; Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident, 1936), William A. Wellman; Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957), Sidney Lumet; A Cadela (La Chienne, 1931); A Besta Humana (La bête humaine, 1938), de Jean Renoir.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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