Time e a persistência do tempo

A preciosidade de um documentário é criar uma narrativa a partir da concretude. Ainda há pessoas que encaram um documentário como um “retrato” da “realidade” e não devemos, absolutamente, culpá-las. Todos nós fomos criados para crer nisso. Talvez o recurso das entrevistas (talking heads), que começou a bombar nos anos 1970, tenha algo a ver com a questão. Nada mais justo: é uma forma mais fácil, ou menos difícil, de guiar o olhar do espectador para aquela teia fragmentada que é a vida, transformada em filme pelo documentarista. Às vezes funciona belamente, e Eduardo Coutinho com seu dispositivo é um grande exemplo, mas seu caráter quase institucional pode pecar ao perder o fugidio, aquilo que o personagem dificilmente projeta em palavras para a câmera. Garrett Bradley entendeu que, ao contar uma história sobre o tempo e pelo tempo, muito tempo se perde com as elucubrações dos personagens sobre si mesmos.


Time (2020), de Bradley, lançado pelo Prime Video da Amazon, é mais do que um ensaio sobre a temporalidade: é um esforço medonho e poético de contar a história, e luta, de Sibil Fox Richardson contra injustiças e tudo o que foi perdido em anos de cárcere de seu marido, Robert Richardson. Foi um trabalho em dupla, pois a diretora contou com mais de 15 anos de material gravado de Sibil, em um esforço de reter o próprio tempo em cristais para inteirar seu marido do que acontecera enquanto estava preso.


Alternando passado e presente, aos poucos vamos compreendendo que Fox Rich, como se autointitula Sibil, está empenhada na luta contra a escravidão moderna nos Estados Unidos, que nesse caso se relaciona ao encarceramento em massa da população negra. Com seu cadente sotaque de Nova Orleans, ela conta em seus encontros sobre Direitos Humanos e na igreja como Robert recebeu uma pena de 60 anos por uma tentativa frustrada de assalto a um banco. Ao mesmo tempo, vemos seus 6 filhos crescendo sem o pai, usando por vezes a câmera para falar com ele.


A narrativa é fragmentada, um convite para que o espectador debulhe a história, mantendo sua plena atenção sob um doce dedilhar do piano, quase choroso, que acompanha toda a história (música de Jamieson Shaw e Edwin Montgomery). Portanto, qualquer informação à mais pode se tornar um tremendo spoiler aqui (!). A cinematografia garante a beleza de todas as tecnologias de diversas épocas nas quais as filmagens foram realizadas, trazendo um frescor de home movie raramente experimentado.


Sibil logo assume seu protagonismo, tanto em vídeos antigos, nos quais pede para seus filhos dizerem a data, quanto no presente, ligando para advogados e vendendo carros. São dela as sequências mais emocionantes do filme, principalmente quando interage com a família. Ao longo da obra, vemos esse personagem sendo construído delicadamente por Bradley, também de Nova Orleans, que tem se debruçado sobre a questão de como a justiça assume hoje o papel de algoz da população negra, debate em alta no país.


Ao assumir a tarefa de contar a história do tempo na vida de Sibil, Tempo nos entrega uma refinada reflexão sobre a própria vida e seus caminhos obtusos, mas não menos belos.

Maria José Barros

Às vezes eu penso que sei mais da Blumhouse do que de mim mesma.

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