Tempo de Caça e de busca pelo Paraíso

Como será a Coreia do presente no futuro? A ambientação de Sung-Hyun Yoon para Tempo de Caça (2020) parte daí. A representação da Coreia no filme o coloca numa posição de grave crise econômica e social. A desigualdade é evidente e o desespero coletivo é refletido quando um dos três personagens principais verbaliza o incômodo perante a distância abissal entre classes. O semblante desses jovens que moverão uma trama frenética carrega apreensão e ambição. Afinal, o plano deles na Coreia desesperançosa de Sung é ousado, arriscado, e todos têm ciência do perigo.

Para compor esteticamente o pano de fundo do roubo, o qual trará trágicas consequências, um visual sujo, poluído, esfumaçado, contrastante com o design moderno de carros e máquinas. Luminosos prédios e letreiros também dão as caras, remetendo a Blade Runner (1982). O filme ancora suas bases nessa boa caracterização diegética e cria, além de um cenário desolador, situações para que personagens bem construídos tomem ações que tornem a película imparável.

A busca de três jovens por uma perspectiva mais solar permite que vejamos um thriller, um filme com ação e suspense. A rota de colisão propiciada coloca os três centrais na trama na contramão de Han, personagem que muito se assemelha ao Anton Chigurh (Javier Bardem) de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), pelo modus operandi, pela maneira com que rasteja por aqueles cenários muitíssimo bem pensados por Sung para tornar célere e cativante seu filme, esperando para dar o bote como um animal sorrateiro.

O longa todo se desenha para um embate cada vez mais quente entre Han e os intrépidos. Uma, duas, três vezes, até que o combate final ocorra. O confronto derradeiro é ótimo, mas as tensas cenas que o antecedem são igualmente memoráveis em sua concepção visual e narrativa, desde a escolha dos ângulos de câmera até uma paleta de cores bastante simbólica, uma vez permeada pelo vermelho. O vermelho sangue, o vermelho da violência, e aquele que aparece como sinal de alerta.

Todo o filme é, apesar de suas imperfeições, uma façanha artística, mostrando-se um dos melhores desse ano atípico de 2020. É um heist movie em parte de seu primeiro ato, que depois vira um thriller, um suspense e por aí vai, com algumas nuances no meio. Reflete muitíssimo bem sobre a posição de hipossuficientes e como esta colocação muitas vezes motiva ilícitos que prometem um Tesouro de Sierra Madre (1948) ao final de toda a empreitada. Enfim vemos que, para conquistar aquilo que almejavam, os jovens que acompanhamos tão de perto talvez tenham se arrependido no meio do caminho, quando conheceram a fúria do fator chamado violência, ônus que emerge quando não se acredita mais na ascensão social por vias honrosas e meritocráticas.

Afinal, com o desenho geopolítico global atual, construído ao longo de muito tempo, ficou muito difícil conhecer um lugar ao sol quando se está permanentemente sob a escuridão de áreas marginais e sob as garras de um Estado inoperante. Sung entra nessa discussão sem adentrá-la a fundo, priorizando o entretenimento. Não quer dizer, por isso, que não faça o espectador se divertir com sequências tensas como aquela que ocorre no hospital abandonado, com as perseguições agoniantes, sem tocar paralelamente na ferida chamada mazela. A social, a econômica e qualquer outra que se abata até mesmo numa Coreia da vida, país perfeitinho à primeira vista, mas que, como todo o mundo, como em todo o país, não foge às ácidas influências da selvageria capitalista, por sua vez geradora de desigualdade e efeitos dominós de violência. Os três protagonistas de Tempo de Caça conheceram-na, na busca pelo dinheiro, pela glória e pelo Paraíso. Nessa jornada, deixaram um pouco de si e perderam por inteiro alguns de seus próximos. Decorrências de uma escolha corajosa, a do caminho sem volta.

Obras citadas:

Tempo de Caça (Sanyangui Sigan, 2020), Yoon Sung-hyun; Blade Runner: O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982), Ridley Scott; Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007), Joel e Ethan Coen; O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre, 1948), John Huston.

Marcelo Queiroz

Estudante de Direito na PUCPR. Meu amor pelo cinema vem desde a infância, quando ia com meus pais nos finais de semana até a locadora e por lá ficava durante vários minutos. Me perdia olhando as prateleiras e na indecisão a respeito de qual filme levaria para casa para conferir num final de semana. Além dessa paixão, nutro outra, pelo esporte símbolo de nosso país. Adoro acompanhar o futebol, especialmente a trajetória do meu time, o Palmeiras. Não acaba por aí. Minha terceira e última admiração (prometo) é pela escrita. Me inspiro nos grandes autores para ser um autor autêntico, que escreve críticas de cinema com originalidade e orgulho. A cada novo texto que concebo, uma evolução.

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