Oliver Stone e a neocolonização imunda do Vietnã

Oliver Stone é uma figura sem meias medidas e grosseiro cinematograficamente que só ele. Sempre exagerado em suas proposições narrativas e por vezes considerado absolutamente melodramático e cafona, com a sensibilidade dum tijolo. E o que eu tenho a dizer sobre isso? Foda-se. O exagero dele é altamente coerente com os aspectos que narra. Não tenho lá muita paciência para o grupelho que tem tesão em ditar regras de como o cinema deve ser desenvolvido, e nisso acabam por divulgar um cinema sem tesão mesmo, sem o exagero. Ora, se eu vou pra porra dum cinema, eu quero ser degradado, avacalhado e vilipendiado. Quero gritaria, esculhambação, drama, brutalidade, contradição, quero sair do cinema absorto ou puto. E com o Stone é assim. E o tema primordial sobre o material ao qual escrevo é a porra da GUERRA do Vietnã, com a qual o diretor fora partícipe intrínseco daquele negócio quando soldado fora.

Stone mesmo afirma que passou por um período de depressão e fúria no início de sua fase adulta, quando tentou crescer na carreira de escritor acumulando insucessos numa crescente desilusão para com seu país de origem, os escrotos Estados Unidos da AMÉRICA. Isto ele afirma de forma voraz em sua autobiografia de seus primeiros 40 anos, o livro Chasing The Light: How I Fought My Way into Hollywood (2020). Obra que visa a retratar a transformação do Oliver desesperançoso, não escritor e revoltado em um diretor de sucesso com obras antiGUERRA pungentes. Na perseguição da luz, é a nomenclatura dada.

 

Oliver Stone na Guerra do Vietnã
Stone no Vietnã

A porra do mito norte-AMERICANOSO fora construído com sangue e tripas de inimigos considerados e de seus próprios correligionários. Por que esta merda? Tesão por conflito? Domínio político-ideológico? Controle econômico? Tudo isso, porra. Quando olhamos uma nação que prospera através de sangue e violência vendidos como liberdade e os caralhos na base da farsa, conseguimos perceber uma parada: todo grande país, quando quer exercer seu domínio por imposição física e ideológica, parte do pressuposto da COLONIZAÇÃO. A AMÉRICA dos NORTE-AMERICANOS fora fruto duma COLONIZAÇÃO inglesa, conseguira sua emancipação na porrada e a partir dali constituíra seu território desta maneira. Que o diga o México, que perdeu territórios próprios em conflitos de poder contra os AMERICANOSOS. Diante disso, o crescente para um NEOCOLONIALISMO era latente. Ainda mais com o exemplo europeu, que conseguira crescer em suas revoluções industriais através do estupro COLONIAL por séculos. Porém, no século 20, manter países sob jugo absolutamente físico strictu sensu ficara proibitivo e considerado bárbaro (por mais que vários países africanos tenham tido suas independências apenas nas décadas de 60 e 70). E o que diabos o Stone tem com isso? O Vietnã.

Aquele pequeno país, que era palco de domínio COLONIAL de asiáticos e europeus, acabar-se-ia por ser palco mais uma vez de um conflito que pouco tinha relação com sua história (GUERRA Fria), mas que massacraria o país, aprofundaria seus já vastos problemas e transformaria o planeta. A GUERRA do Vietnã. 

Isto era o novo NEOCOLONIALISMO (de curtição o neonovo/novoneo). Lutar pelo domínio de outrem sob a perspectiva de liberdade e os caralhos, não para tomar o território para inclusão como seu, mas para impor uma condição de dominação ideológica de influência contra a URSS na GUERRA Fria. Ora, importava menos ainda o território. E Stone se debruça sobre esta questão através do seu cinema bruto. Comete uma trilogia sobre o Vietnã. E num período em que o conflito havia findado e era altamente criticado por figuras tais quais Michael Cimino, com O Franco Atirador (1978), e Francis Ford Coppola em seu Apocalypse Now (1979), que tinham já uma visão totalmente pessimista do conflito, corroborando grande parte do anseio popular na questão; tanto o primeiro com sua secura e violência paranoica, quanto o segundo e toda sua brutalização ideológica via lisergia genial. Ambos indo na contramão às marmotas pró-conflitos, como a pataquada Os Boinas Verdes (1968), protagonizada pelo John Wayne, uma obra a serviço da propaganda governamental com apoio do pentágono, exército e os caralhos. Oliver Stone escolhe o seu caminho e pega a década de 80 e toda sua ressaca pessimista para desenvolver seu cinema crítico e estupidamente exagerado. Uma maravilha. Stone e a história da AMÉRICA. A trilogia sobre a GUERRA. A sua experiência empírica posta em prática.

Capa da autobiografia de Oliver Stone, Chasing The Light.
Capa da autobiografia de Oliver Stone

Platoon

Aqui é o diabo de uma análise livre, com uma metodologia minha. De cineasta, historiador e crítico de cinema do bom. Então sigam os capítulos e liguem as porras das peças. Ou não, porra. Oliver Stone já começa metendo uma música alta no seu filme. Quase como um surto de gritaria e melodrama. De que aquilo é GUERRA e vai ter desespero. E que finalmente ele consegue meter a porra da sua história no diabo do cinema. E a sua escolha para tal intento é pela introspecção floresta adentro. Uma sensação absortamente tácita de estar ali enfiado na marra. A visceralidade daquela esculhambação. O que é até irônico, já que seu protagonista vai pra aquele troço com a visão toda arrumadinha de menino bom da classe rica, que entende que os ricos têm que ir à GUERRA, ademais, demonstrando uma espécie de consciência de classe cheirosinha que não passa duma bravata.

E dentro desta entrada mato adentro temos uma naturalização das cores. Sem grandes filtros viçosos e arroubos outros e metendo um tom documental ao mesmo tempo que melodramático em seu desenvolvimento. O diretor quer contar sua história daquilo que sentira no conflito utilizando-se do caráter documentarista sem esquecer do drama. Os exageros tão citados pela questão do drama – que serão explicitados mais à frente, aguardem, ora porra – fazem parte de um conjunto de tergiversações e conflitos internalizados de Stone, que acredita que somente pelo exagero podem ser expostos. Numa questão de cor, imagem e contexto, o esquema documental aparece, sim. Com uma câmera móvel demonstrando a sensação de estar dentro daquele inferno sem fugas. Ela perambula pela mata naquele calor brutal com os personagens a enlouquecer com autoritarismo, execução humana e os caralhos. Oliver Stone cria um misto de rispidez, melodrama e tom documental. O equilíbrio disso tudo é a principal questão. E nisso Platoon (1986) se funda como obra-prima da escrotidão humana. É Stone respirando GUERRA. Sentindo ainda o cheiro da pólvora e do sangue e vísceras de buchos estripados e pedaços de membros arrancados e/ou explodidos sem a mínima cerimônia. E GUERRA não é isso? Uma espécie de realidade paralela na qual demora-se a crer no que acontece, mas que passa a ser cada vez mais real através da contagem de corpos.

Vários clichês e temas do subgênero vão se amontoando na obra. Os quais Oliver Stone sabe usar dentro da trama. Desde o soldado psicopata doido pra matar o chefe psicótico machão com cicatriz imensa na cara (lembram da falta de delicadeza sensacional do diretor?). Sempre usados em prol do tom de desespero que a trama insere. Coerente dentro da narrativa. Os personagens que lá estão, já se metamorfosearam dentro da GUERRA, sejam eles pelas drogas, mortes, políticas, desinteresse, depressão e os caralhos. Mas o Charlie Sheen acaba de chegar. É Stone. Chegando na GUERRA e de lá emergiria outra figura. Platoon, com todas as questões de seus personagens diversos, não oferece isenção para ninguém, muito menos redenção. Parte do pressuposto de que quem está dentro daquela violência COLONIAL, uma hora ou outra, vai demonstrar uma monstruosidade tácita que os conflitos desta envergadura obrigam. Não tem alisamento. E tudo seguido de perto pela câmera. O cheiro da mata.

O playboy vivido pelo Charlie Sheen descobre que o Vietnã não era um clube

Falando em trama e falta de sensibilidade, existe a escolha da calmaria antes da tempestade. Alegria da galera antes do choque. As drogas aparecem como entorpecimento das figuras como uma tentativa de fuga da realidade quando começam a se deparar com o desastre no qual estão enfiados. Esta calmaria vem seguida por uma missão de reconhecimento que termina com uma cena de explosão chocante, na qual um soldado perde os dois braços e morre numa armadilha. É a manipulação do Oliver Stone com o espectador, te relaxa para te arruinar. O efeito causado é maior do que o que a cena solta já pudesse propor. Nisso tudo, nós realmente somos o Charlie Sheen. Vendo tudo pela ótica da marinheiragem de primeira viagem. Num momento de transição de criatura liberal farsesca e bonitinha a monstro quando entra na inumanidade com o outro, acabando por enternecer em momento de crise de identidade para, enfim, mostrar-se como humano e, de fato, o monstro como pode se apresentar como tal. O absurdo daquilo tudo entrando em Sheen. A raiva e o desespero. Willem Dafoe é a balança. O ainda minimamente humano, mesmo em GUERRA. Que busca separar o conflito escroto de um crime de GUERRA via total barbárie. O que é ser humano numa GUERRA? Existe isso? Existem limites? Somente os impostos pelos vencedores. Pelos poderosos. A indignidade pela existência do conflito é tácita. Tom Berenger é monstro querendo agir. Coerente em sua existência monstruosa que independe de limites e sua cara esfacelada só mostra o quão fodido está por dentro. Tanto que seu olhar é sempre frio e distante, enquanto Dafoe busca respirar com alguma consciência em respeito mínimo ao próximo. Berenger quer arrombar. Vingar todos os dias pela sua cara destroçada.

A GUERRA é uma merda. O clichê dos fodidos lutarem pelos abastados e por um sistema de poder que só é alcunhado como tal por ser uma verdade. O clichê existe por uma percepção de repetição do real. Oliver Stone não quer saber e usa desse expediente seboso. A invasão estrangeira a fórceps traz o significado de desumanidade latente. Esta é a COLONIZAÇÃO que se transmuta, que aporta para o domínio físico, mas não para ali ficar, e sim para estender seu poder. Uma coisa este esquema mantém se compararmos a outros tantos: a total desimportância para com o dominado. Desde escravos do Império Romano, passando pelo aniquilamento da escravidão africana com o tráfico negreiro ao prisioneiro de GUERRA vietnamita. Independentemente de épocas e anacronismos que possam acusar o historiador que aqui escreve, o vilipendiado pela COLONIZAÇÃO pouco vale. Mesmo que os piores casos ainda sejam os do tráfico negreiro, que ainda envolveu retirar as figuras de sua origem. São menos que humanos. São coisas. Inimigos. Objetos. Mão de obra. Diversão. Acaba por não valerem porra nenhuma. Metodologias estas, de ruína humana, sabemos inventar e diversificar.

Na GUERRA, o outro não é gente. É nada. Sheen vai vendo isso. O significado da empatia é embrutecido no conflito. Para dominar o outro, isto é tido como expediente de necessidade inventada. A destruição total do próximo. De forma que ele não tenha mais forças para reagir, e o tratamento de exclusão da existência e desumanização dão cabo da situação. Por isso que, quando um vietnamita é executado sem motivos óbvios, faz parte de um processo de extermínio programado que o esquema COLONIZATÓRIO implica. Quando o próximo é tratado como inferior, sua condição é espalhada pelo conflito. Um modus operandi de dominação altamente eficiente no qual o outro, quando visto como não humano, acaba-se por servir à naturalização do destroço.

Tom Berenger em Platoon (1986), Oliver Stone
Tom Berenger, destroçado por dentro e por fora

E os idiotas? Existem imbecis torcendo e escolhendo um lado numa briga interna entre Berenger e Dafoe. Demonstração de idiotia conseguida (alimentada) por osmose na GUERRA. O lance é esta GUERRA. Vamos nos estragar, porra. O que importa é o mais forte. O mais machoso. O mais invocado. Esperteza do Stone aqui, quando demonstra que a GUERRA somente exprime a podridão interna já existente por um acúmulo social de estupidez muito bem vendido por uma nação que teima no seu tesão de poder. Mesmo que este conflito interno tenha consequências nefastas à frente, o que interessa é quem vai vencer. 

A musiquinha melodramática segue em curso sempre que se necessita do apego do drama. Seja no início para estabelecer um tema, seja numa cena crucial de estrago de um próximo ou em seu findar para rimar com o fim de um tempo que vai deixar cicatrizes. Mas sempre alta e chorosa. É Stone. E é GUERRA de trincheiras literalmente. A escolha dele pela proximidade dos planos. Fechados e de conjunto. De dentro da GUERRA. Uma escolha contundente e coerente com sua proposta. Ora, somos mal acostumados a um cinema clássico que abre seus planos como respiros visuais e narrativos para que possamos nos manter atentos e até confortáveis. Oliver Stone não nos entrega isso. Nos vilipendia com a proximidade de todas aquelas figuras. Seja nos diálogos de treino e GUERRA, seja nas drogas, nos monólogos e conflitos. É dentro daquela floresta que o conflito está se propondo. É nas aldeias, é nas trincheiras, é nos matos. Plano geral, temos na chegada dum helicóptero, em que saímos e finalmente vemos por cima a destruição com uma falsa noção de respiro, que se percebe como tal na cara de um Charlie Sheen devastado que não sabe o que sentir. Corroborando criminosamente com as imagens, temos um som seco, grosso. Isto não é filme de ação com pirotecnia. É destroço. É som de bala sem eco. A secura é o real sendo conclamado. Num despertar podre de sensações.

Lembram do conflito interno que citei? A briga de cachorro grande entre Dafoe e Berenger. As consequências. O fogo amigo de execução proposital de Berenger em Dafoe. Tudo para ficar com o direito de matar intacto. Aqueles que supostamente visam entender uma GUERRA. Berenger entende. GUERRA é o arrombamento do outro independentemente das condicionantes e ele leva isto às últimas consequência quando fuzila um companheiro de farda que o denunciaria por crime militar. O conflito e sua desgraça. Existem retratos e fotogramas de GUERRA que a fita demonstra expor. A famosa cena de Dafoe correndo ainda vivo e sendo massacrado por vietnamitas. A cara rasgada do Berenger após atirar em um companheiro é a GUERRA. Assim como sua execução pelas mãos de um Sheen revoltado. Filme de trincheira com sensação de GUERRA internalizada, sem reflexões lisérgicas ou verborrágicas por demais. A GUERRA pela GUERRA. Onde ninguém escapa e as consequências vão existir. Pode ter certeza disso. Oliver Stone sabia na pele. Por isso construiu este material pujante em sua desesperança não somente com a GUERRA, mas com a falta de humanidade que as relações entre países são regidas mediante necessidades econômicas sob a égide dum COLONIALISMO novo vigente.

Willem Dafoe em Platoon (1986), Oliver Stone
Willem Dafoe como o Sargento Elias

Nascido em 4 de Julho

Sai o devastador barbarizante, áspero e seco de Platoon para a morbidez sebosa e de olhos arregalados de Nascido em 4 de Julho (1989). Um filme que promulga uma palhaçada sistematicamente patriótica que, de tão ridícula, só poderia ter sido real. O fato de o protagonista ter nascido no dia da independência de seu país. Nisso a obra já começa expondo o tom de nacionalismo pelego de seu protagonista. “Meu pequeno ianque”. Uma ótima sacada, aliás, é pegar o Tom Cruise galã para um papel dum veterano aleijado. O ideário AMERICANO estará na merda, aqui mostrado desde o início com ironia e sagacidade. Direto. Legal também Tom Berenger fazer ponta como um fuzileiro a convocar alunos nas escolas, assim fazendo uma rima com Platoon. Agora na estica do uniforme arrumado com discurso heroico na ponta do bico. Sabemos que vai dar merda.

Aqui temos os símbolos da AMÉRICA. Simbolismo stonezistoso. Fogos, paradas militares, beisebol e sorrisos imbecis. A espetacularização da própria história. As cores da bandeira sempre presentes em seu início, assim como o tesão eterno pela competição. Um alô à meritocracia. Porém, tudo aqui é mais rebuscado. Mais dramático — bem mais. Outro esquema visual. Um esquema de trajetória. Mais novelescoso. Que nos impele à idiotia abrasiva de um Zé Ruela que crê na crença do heroísmo próprio na defesa de seu país majestoso (meuzovo). E isto é ótimo. A queda de um bestão. A empolgação do idiota. O anticomunismo do otário, que fora treinado para ser imbecil por família e país, adotando a postura do conservador patriotesco. E numa cidade toda limpinha e bonitinha. Uma farsa do caralho.

E vem a troca de visual. Da cidade do interior para a GUERRA. Que já mantém a continuidade do horror dos civis vietnamitas que nada valem, como já visto fora no Platoon. O vietnamita nada vale, tanto que Kovic participa de duas merdas grandes, a primeira ao liderar um ataque a figuras que estavam em casa escondidas e fora do conflito. A posteriori, um crime que o devastaria, um fogo amigo. Mata um companheiro seu porque o tesão e a adrenalina de meter bala era tão grande que atirou no que viu e acertou no que não sabia o que era. Uma demonstração da imbecilidade não só pessoal, mas, principalmente, do conflito. A GUERRA do Vietnã, que nada mais era que um moedor de carne a serviço do poder COLONIZATÓRIO inventado e imbricado ali. E uma execução no contraluz. Bonito e exageradíssimo. Sistema Stone. A idiotia dramática tem que ser mostrada no mais puro teatro.

Mais um fogo amigo na guerra

Esquema de cores diferentes do Platoon. Mais rebuscado. Menos verde, menos trincheira. Mais amarelo. Mais planos abertos. O tom é de trajetória a ser seguida. Primeiro vem a cidade corretinha e bonitinha, lotada de patriotinhas abestalhados que acreditam no bem que sua nação faz ao mundo, daí vamos à praia, a areia e o amarelo turvo incômodo do Vietnã. O incômodo da GUERRA, mas ainda sangrando ufanismo. E o Hospital para o aleijado que levou bala. Outra GUERRA a ser travada. Podridão. Merda, mijo, sangue e vômito. O soldado do abandono, mas ainda seguindo a jumentice de ser o menino da AMÉRICA. Os tons quentes começam a chegar junto. Os vermelhos exagerados. O choque de realidade e a negação vem com gosto dentro do esquema panfletário do Stone. Melodrama assumido. O exagero como mote, desde ações e imagens quanto na atuação afetada de Cruise, com trejeitos e movimentos duros e olhos esbugalhados, num símile de loucura de GUERRA. Uma movimentação corporal intensa – na contradição, já que o cara passa a não andar – que avacalha seu comportamento inicialmente metido e farsescamente seguro e pujante. Antes metido a estoico, passa pelo horror da GUERRA, chegando ao retorno para casa. Onde, afinal, o veterano é visto como pária social. O transtorno vem por uma luta interna que justifique o sacrifício. Se está aleijado, assim o fora por um motivo nobre. Toda esta merda cai por terra.

Inclusive, Stone tira uma onda crítica com a História através de algumas rimais visuais e conceituais. A rima dos desfiles é a principal. O primeiro dos veteranos de 1945 com a atrocidade da GUERRA em sua falta de membros, mas carregando a reboque o heroísmo considerado àqueles participantes, assistidos por Ron Kovic criança, quando seu patriotismo começara a se desenrolar. O segundo desfile vem com revolta. Já na segunda metade da fita, o veterano (Kovic) continua aleijado e respeitado e reverenciado por alguns, porém, agora existe a revolta do povo que considera aquela GUERRA do Vietnã uma imbecilidade. Há ainda o encaixe singular desta rima, em que susto com o estalo de fogos sobre os veteranos no início é repetido em Kovic. Toda e qualquer GUERRA é uma merda, principalmente quando é o seu próprio país que a provoca. E é exatamente isto que passa a servir como mote para a transformação futura dele. Como num plano dolly-in em Cruise, que assume as merdas que fez e afirma que não entende mais os motivos daquilo que fizera. A venda dos mitos do heroísmo. O idealismo do imbecil. Por que diabos ele foi se meter nessa? O cinema do Stone parte de convicções políticas críticas claras e sempre busca o tom questionador – independentemente do novelismo – diante da história. E são perguntas teimadas subrepticiamente, como a tremedeira do ator principal aleijado da cintura para baixo servindo de encaixe nervoso pelas respostas. A mensagem pensada por Oliver Stone é brega, exagerada, panfletária e contundente.

Aí temos um resumo de merdas e suas consequências pós-combate. Uma visita na primeira manifestação e o estado policial descendo a porrada. A bebida e novos infernos. O olhar vidrado de Cruise. Tremedeira e inquietação só aumentam. A atmosfera de cores tomando um caminho sombrio. O vermelho inferno do bar. A fumaça (Vietnã tinha demais) ao chegar em casa. O discurso de Kovic da desgraça com a família. Não existe Deus e nem país. A patriotada orgulhosa dá lugar à frustação completa. Não existe mais um homem na sua cabeça, e isso o massacra. O orgulho se esvai dando lugar ao desespero com a vida e ao fato de pouco se importar com as consequências de seus atos. O padrão das suas ações existe como um catalisador destroçante e catártico que não tem outra função senão chocar e enraivecer. O plano mantém-se na altura de Kovic e perambulando pela casa. Pelos corredores apertados que amassam um cadeirante. Ele reage fazendo merda.

Kovic: decadência física e psicológica após o Vietnã

O cabaré mexicano. As mulheres. A sensação de ser homem que Kovic reclamara não ter mais. O vermelhão da tela. Ele perambulando pelo cabaré e a câmera na sua altura. A tentativa de se encontrar. De usar a putaria como válvula de escape para longe de tudo que lembre que ele é um inválido – sua mente teima nisso. Num reduto de veteranos de GUERRA em abandono, ele não consegue esquecer sua condição. Não existe fuga. Não existe redenção. Mas pode existir um acordar. Willem Dafoe na revolta, rimando com Platoon, no qual seu personagem simbolizava alguma humanidade – algumas boas partes dela ao menos. E aqui ele é o radical. O antiGUERRA. Quem acorda Kovic e o responsabiliza mediante todas as tentativas de fuga. A cena das cadeiras na estrada. “Quem você matou?”, ele pergunta a Kovic. 

A história de GUERRA AMERICANA em um plano. Fotos dos parentes nos conflitos históricos e uma criança com uma arma e uma promessa. “Estamos prontos pra ir de novo se for preciso.” Isto é o que acontece. A câmera passeia pela residência do companheiro morto que Kovic matou naquele contraluz que citei lá em cima. E nisso a câmera perambula no ambiente onde se assume a história AMERICANA, mostrando um país sempre preparado a sacrificar os corpos dos outros para conflitos inventados pela liberdade, moralidade, ideologia e outras porcarias. Kovic, enquanto reflete sobre sua merda e se desculpa, vê a sua alienação presente naquela família. Com morto na GUERRA ou não. A propaganda de GUERRA perpassada através das décadas mostra-se muito bem vendida. Sempre existe carne para se abater em nome doutra invenção da democracia. Não é redenção, mas uma verdade necessária. 

As manifestações. Corrupção e esculhambação. O cinismo do discurso de Richard Nixon sobre a GUERRA e seus soldados. Kovic amava país e povo, mas o governo mentiu para todos, e agora ele vira um artífice da resistência. A voz de um veterano desse povo. A contundência e frontalidade do discurso antiGUERRA do Oliver Stone. Discurso brega e não menos real. Uma trajetória longa de virada de chave que intenciona uma transformação de caráter baseada nas feridas da história e que se pode aprender com elas, mesmo que o discurso cínico do Nixon viesse a se repetir pelas bocas de outros líderes da AMÉRICA. Uma fita de espaço alongado na demonstração de uma transformação chorosa e didática? Completamente, mas escapa ao escrutínio duma análise interna do que aquilo representa como cinema? Não. A preocupação do diretor é pelo abuso do sensacionalismo mesmo. Afinal, um conflito imbecil que mata milhares e leva uma potência gigantesca a uma derrota acachapante mesmo assim não deixa de ser sensacional. Stone sabia disso.

Transformação, de patriota a revoltoso

Entre o Céu e a Terra

Um Vietnã pré-GUERRA. De lá. Oliver Stone amaina o discurso no terceiro filme. Uso excessivo da trilha do Kitaro. Até visualmente ele alisa. De início, a breguice do Entre o Céu e a Terra (1993) é ainda mais proeminente do que no Nascido em 4 de Julho. O Stone queria falar do Vietnã dos traumas que viu dentro do conflito quando lá fora e sentiu que precisava desenrolar alguma coisa sob a ótica vietnamita, dentro do pensamento dele como ocidental e como poderia traduzir isso. Filme que desde cedo tem seu discurso pacifista atrelado aos lemas filosóficos e culturais daquele país, que passara eras sendo palco de conflitos externos por terra e poder alheios sobre o domínio de sua própria soberania. “A liberdade deve sempre ser reconquistada”. Lema de um cara (o pai) que vê seu país passar de mão em mão. A repetição de reconquista já existe como um costume daquela gente, que já entende as lutas pelo poder e age de forma desesperançosa em meio à GUERRA, sempre buscando a sobrevivência. O incômodo é quase que um costume. Não uma sensação, mas um desígnio estrutural infeliz de sua condição de COLONIZADO.

Bela fotografia. A mensagem alisa, comparada às anteriores. Em contrapartida, a fotografia abre e busca pegar bem mais abertamente o visual do Vietnã. Um esquema de início mais bucólico. A chegada da GUERRA nas comunidades. Inclusive com idioma do dominador. Defesa vietcongue. As críticas de Stone. Os lados opostos de uma GUERRA. A visão do outro? A visão do outro sob a compreensão de um cara pertencente ao país COLONIZADOR, e como tal, tem seu distanciamento no olhar. Assim ele manipula o espectador: a introspecção no tema pelo lado bucólico das imagens e apela para a violência contra a mulher dentro do seu escopo sensacionalista já conhecido. A visão pelo outro e não dele mesmo. Os anseios dos personagens partem do ocidentalismo latente. Desde propriedade a violência privada para chocar o público. Com lados escrotos – tortura dum lado, estupro doutro. O horror do ser humano num esquema de deslegitimação da vida do vencido. O apelativo latente é o olhar do ocidental. Que não sabe moldar uma narrativa equilibrada sobre a questão. Oliver Stone apela para a dialética mais grosseira. E seu olhar apelão deixa clara sua condição de estrangeiro, mas não impede que o filme funcione como tal fora planejado. 

A bela fotografia de Entre o Céu e o Inferno

A invasão AMERICANA pelo sexo também. Física pela violência e pelo estupro, e pelo sexo consentido como vã esperança de melhora de vida. Um país sendo devastado de todo jeito. Os vietnamitas pouco valendo, como sempre. Mulheres pobres, sempre sendo consideradas putas, objetos mesmo. Este é um caráter de dominação COLONIAL que venho citando aqui. A exterminação do outro. No Platoon eram os civis desconhecidos que seriam humilhados numa aldeia; algo que se segue no Nascido em 4 de Julho com um morticínio empurrado para debaixo do tapete porque os locais pouco significavam; neste Entre o Céu e a Terra, os aldeões não são nada além de buchas de canhão úteis ao conflito e as mulheres são tratadas como refugo dos soldados via prostituição. A câmera sempre em movimento captando estas situações. Aqui seguindo a personagem Le Ly. A circundando. Seja no estupro, seja nos diálogos. Como uma perscrutadora sem vergonha. Oliver Stone curte o melodrama, mas a sensibilidade é duma parede. Mas aí Le Ly conhece o AMERICANO suposto gente boa do Tommy Lee Jones.

Aqui se apressa a narrativa com Lee Jones e Le Ly. Conheceu, casou. A chegada na AMÉRICA, onde lentes grandes angulares alopram nos detalhes dos espaços grandes e distorcem os contornos comportando a marmota toda num esquema de estranheza de Le Ly com aquele novo mundo. De início, o sonho AMERICANO. O racismo aparece de todas as pontas. As mais variadas perturbações da GUERRA. Ora, o filme perscruta uma questão crassa: como uma mulher pobre poder-se-ia escapar da GUERRA? Unindo seu corpo ao dum soldado em crise. Como se a única saída que esta mulher, que tanto se lascara, conseguisse encontrar somente através de uma ajuda externa. Esta é não só uma visão ocidentalizada do Stone, mas, sim, uma oportunidade que os AMERICANOS ainda permitiam dar-se dentro daquele conflito, mesmo que trouxesse todo o racismo a reboque. Oliver Stone mostra isso em sua narrativa – agora arrastada pra cacete.

Le Ly e as grandes angulares

A intenção dele é mostrar a visão de uma nativa vietnamita mediante a GUERRA e tudo o que a circundava se utilizando de sua micro-história (a mulher pobre querendo sobreviver) de olho num entendimento macro: a porra da GUERRA. E diante de tudo isso, entre tese e antítese, monta-se uma síntese no terceiro longo ato. Não era o cara a ser responsável por sua salvação, mas ela própria lidando com tudo isso pra sobreviver. O soldado era mais um perturbado com aquele conflito maldito, e que simplesmente não conseguia seguir adiante depois de todo o morticínio que aprontou no Vietnã e em como o governo de merda que o fabricou o estaria esquecendo. Le Ly no meio disso estaria numa terra desconhecida, mas dentro de uma realidade que ela conhecia: a exclusão por sua raça. 

Nos seus dois primeiros filmes sobre o conflito, Oliver Stone partia dum pressuposto crítico com decisão e segurança; Platoon e Nascido em 4 Julho afirmam isso quando vinculam seus estratagemas à loucura da GUERRA e da crítica ao sistema. Já neste último os temas se pulverizam por demais. O cara quer fazer um reconciliação própria dele, não com seu país de origem, a AMÉRICA, e, sim, com o Vietnã. Mesmo que saibamos de toda sua visão ocidental para com a cultura do último. É inegável a mim que o longa fica num paralelismo perdido entre os temas que aborda, o que acaba por gerar certa confusão e o fechamento via melodrama passa do ponto. Porém, a mensagem final passada é válida: que a responsabilidade de um conflito é muito mais profunda do que braços e pernas arrancados. Ela adentra no âmago das figuras como uma espécie de síndrome segundo a qual não existe esperança, mas alívio externalizado. Como o próprio Tommy Lee Jones afirma, que, quando encontrava vietnamitas mutilados, eles riam para os soldados AMERICANOS por um simples motivo, estes últimos ainda não haviam matado os primeiros. Um triste sorriso de agradecimento pela sobrevivência dos sobrepujados.

“A gente não vale nada.”

“E quem disse que a gente valia?”

Exatamente.

Tommy Lee Jones, o suposto americano gente boa

A minha escolha por um texto descritivo demais é completamente escrota, cansativa e execrável para alguns (poucos, porque eu sou foda), mas ela tem uma denotação marota (quase uma desculpa metodológica) que visa a rimar com o que o Stone quer aplicar em sua trilogia. As dolorosas narrativas que ele propõe em detalhes e sob variadas perspectivas expõem o horror de uma GUERRA por um cara que realmente esteve naquele troço. E como tal visualiza aquilo como um drama gigante e absolutamente insensível. Muitos o acusam de ser exagerado ou melodramático demais. Foda-se. É isso mesmo. GUERRA é um exagero. O COLONIALISMO é um exagero. O melodrama é a martelada sem delicadeza que ele acaba dando. E o COLONIALISMO é a chave. 

Nos primeiros parágrafos, fiz uma deambulação histórica bem grosseira acerca da COLONIZAÇÃO (NOVANEOCOLONIZAÇÃO) sobre o Vietnã, com vários percalços históricos, filosóficos e políticos com os quais os vietnamitas tiveram que lidar por anos. Mas o que uma COLONIZAÇÃO além de física pode dar como ponto juntamente escroto é a COLONIZAÇÃO mental imposta. A escravidão, servidão e objetificação humana contribuem perfeitamente para a COLONIZAÇÃO mental. Neste quesito, podemos bater palmas com mãos de esqueleto ao sistema capitalista e suas mutações, por ter aperfeiçoado um método antigo. Mesmo sem a necessidade de anexação física propriamente dita dos estados (algo que já comentei), a mentalidade em desespero é nociva por demais. Onde mora o destroço da torcida pelo fim da própria existência. A final consciência de coisificação que o ocidental consegue impor ao COLONIZADO. E sem que a responsabilidade para tal assim seja imputada, mesmo quando o COLONIZADOR sai de cena e deixa o país devastado. Dali pra frente, vários padrões seguidos conseguem ser imitações dos anteriores, porque foram impostos de maneira veemente. Basta entender minimamente a confusão de vários países orientais e africanos no pós-independência, onde a metodologia de governo estabelecida conhecida seria a do BRANCO COLONIZADOR, que impusera mentalmente seus esforços de desgraça.

Por isso a COLONIZAÇÃO é destruidora. Genocídio, etnocídio, destruição mental. Dolorosa, longa, escrota, voraz, assassina, dramática e sensacionalista. A GUERRA se confunde com o cinema quando somos postos a pensar porque diabos temos um tesão em dominar o outro. Como isto é vendido? Que tipo de sonhos de oportunidade econômica, política e religiosa são vendidos que nos permitem o esfacelamento do outro? A partir do instante em que considerarmos como inferiores um povo por qualquer que seja sua estrutura cultural e moral, estamos cravando passos coloniais. Inclusive quando aquele teu amigão imbecil afirma que sem a COLONIZAÇÃO como imposta fora não teríamos a estrutura de mundo que realmente temos hoje. Sim, otário, e tantos milhões mortos valem isso? Temos que parar com estas merdas chorosas (valentes de goela) sobre a questão e, sim, assumirmos um papel crítico de nossa história e lidarmos com isso com tenacidade e sapiência, e não com o choramingo citado, como tanto conclamam alguns conservadores imbecis (desculpem a redundância sobre estes alguns). Quer saber? Foda-se o meu pedido de desculpas, afinal, sou somente um branco azedo de classe média debatendo sobre um conflito histórico que não vivenciei, mas estou aqui viçando a escrever sobre. Aí dentro.

Obras citadas:

Os Boinas Verdes (The Green Berets, 1968), de John Wayne e Ray Kellogg; O Franco Atirador (The Deer Hunter,1978), de Michael Cimino; Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola; Platoon (1986), de Oliver Stone; Nascido em 4 de Julho (Born on the Fourth of July, 1989), de Oliver Stone; Entre o Céu e a Terra (Heaven and Earth, 1993), de Oliver Stone; Chasing The Light: How I Fought My Way Into Hollywood (2020), Oliver Stone.

Ted Rafael

Pesquiso cinema marginal utilizando-me da minha paixão e mote acadêmico pelo banditismo urbano. E ainda produzo, dirijo e monto umas bagaceiras. Gosto de cinema sem muita frescura. E como frescuras outras não são comigo, paro por aqui. Cinema. CINEMA.

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