O século da paranoia: de Glória Feita de Sangue a Dr. Fantástico

Glória Feita de Sangue (1957) é uma aula de cinema desde os seus primeiros minutos. E um deleite também para quem gosta de História e a conhece. Uma narração em off aponta todo um cenário que sintetiza a Primeira Guerra Mundial: a Alemanha invade rapidamente a França, que resiste numa guerra de trincheiras duradoura e terrível, que custou a vida de centenas de milhares de pessoas. No on, na tela, vemos um militar de 500 estrelas chegar com cerimônia em um típico château francês. Dentro do lindo palacete, ele encontra outro general condecorado, em uma conversa que, maliciosamente, começa com elogios à elegância da morada do seu subordinado.

— Uau… Isso aqui é formidável. Fantástico. Muito imponente.
— Bem, eu tentei criar um clima agradável para trabalhar.
— Acertou em cheio. Gostaria de ter o seu gosto para decoração.

O diálogo é amistoso, frívolo… ardiloso. O General George Broulard (Adolphe Menjou) tem a manha de massagear o ego do General Paul Mireau (George Macready) e lembrar-lhe o que deve fazer para seguir numa posição confortável nas Forças Armadas. O tom do papo logo sobe para um ritmo de dramaturgia e montagem que sugere conflito. Um embate baseado em persuasão: George traz ordens do alto escalão para que Paul tome em dois dias o Formigueiro, posição chave, numa colina (!), que os alemães mantêm com recursos para um ano. “Isso é ridículo. Minha divisão foi massacrada. Lamento, mas essa é a verdade”, diz Paul.

Então, essa conversa antes entremeada apenas por adulação torna-se um magnífico jogo cênico de manipulação e chantagem. A missão impossível e “a vida de um soldado me é mais cara que qualquer condecoração” se esvaem diante da perspectiva de ganhar mais estrelas, mais glória — feita de sangue. Paul acata a ordem de engajar numa missão suicida para seus 8 mil homens e a cena corta para as trincheiras descritas no início da sequência, em um baita movimento circular que “entricheira” a discussão entre os dois burocratas entre a narração dos eventos da guerra e da guerra em si.

As trincheiras de Glória Feita de Sangue (1957)
Ponto de fuga central, uma marca e uma obsessão de Kubrick

Escárnio da guerra, o trampolim de Kubrick

Diferente de Orson Welles (Cidadão Kane, 1941) e como a maioria dos gênios definitivos do cinema americano, Stanley Kubrick precisa de alguns filmes para atingir sua maturidade artística  — o que acontece aqui, aos 29 anos. Marcas autorais importantes, como a perspectiva com um ponto de fuga central (métrica inspirada no Renascimento), surgem com o poder particular de imergir o espectador nas trincheiras da guerra ou transformá-lo em testemunha de uma execução injusta. Glória Feita de Sangue representa o momento crucial em que Kubrick abraça o perfeccionismo estético como um recurso psicológico na construção narrativa (as imagens evocam sentimentos viscerais). E, também, como ilustração do fortíssimo apelo ideológico de seu discurso.

Adaptação do romance homônimo do veterano de guerra Humphrey Cobb, Paths of Glory é especialmente impactante para quem conheça o conflito no front europeu ou, como eu, tenha lido recentemente o livro A Primeira Guerra Mundial (1994), de Martin Gilbert (indicação do professor Vitor Soares, do ótimo podcast História em Meia Hora). O roteiro adaptado de Stanley Kubrick, Calder Willingham e do romancista Jim Thompson enumera — de forma narrativa, dramatizada — as principais inovações que fizeram a “Grande Guerra” tão transformadora na história contemporânea.

A metralhadora, que aumentou consideravelmente a contagem de mortes de uma infantaria. Os aviões, que deram sua contribuição mortífera via bombardeios aéreos. O gás mostarda, que proporcionou um tipo de morte absolutamente perversa, torturante (queima por dentro, cria bolhas no organismo e provoca o afogamento da vítima). A terra de ninguém, zona entre duas trincheiras onde o terreno fica preto e morto por causa dos bombardeios e excesso de pólvora. E as próprias trincheiras, que aumentaram a longevidade da guerra e acresceram um terrível fator psicológico para os homens que passaram de meses a anos naquele local horroroso, insalubre e fedorento, onde sangravam, choravam, cagavam e enlouqueciam perante os cadáveres de seus colegas e a iminência da morte.

À beira da loucura, Glória Feita de Sangue (1957)
À beira da insanidade: um homem questiona o outro de que forma gostaria de morrer

A glória perdida

A Liga das Nações foi criada ao fim da Primeira Guerra Mundial com o intuito de introduzir uma palavra então estranha ao vocabulário europeu: diplomacia. Guerras foram sempre vistas como resposta imediata para a resolução de conflitos de toda ordem: territoriais, religiosos ou ideológicos, para trocas entre reis ou mudanças de regime via revolução. Porém, ao fim da Grande Guerra, após 17 milhões de mortes, a impressão geral foi de que essa forma de resolução de conflitos (outrora vista de um ponto de vista romântico, glorioso) já não cabia no mundo. A proibição do gás mostarda induz que a tecnologia tornou as guerras mais cruéis. Mas a verdade é que os ideais liberais da Revolução Francesa contagiaram o Velho Mundo e abriram os olhos de todos para o horror (“o horror!”) que sempre tomou os conflitos bélicos.

Diferente de Alexandre, O Grande ou Napoleão Bonaparte, que lideravam suas infantarias no front de batalha, os homens que tomam decisões em Glória Feita de Sangue são burocratas infames. Toda vez que uma ordem absurda vem de cima, o imediato se surpreende com o comando (para fins dramáticos) e transmite a designação inglória para um subordinado. Nem seu combativo protagonista, o Coronel Dax do grande Kirk Douglas, está livre disso, e eventualmente omite as reais condições climáticas (péssimas) que seus soldados enfrentarão em combate.

Kirk Douglas (Cel. Dax), Glória Feita de Sangue (1957)
Cel. Dax

A real mudança transformadora da Primeira Guerra Mundial é a noção da desumanidade que é subjugar as vidas humanas dos militares mais baixos às ambições de soberanos ou generais ambiciosos. A glória da guerra é, definitivamente, posta em xeque. Graças aos pensamentos iluministas da população em geral (que já não mais reconhece soberanos como pessoas de sangue azul), da maioria dos pensadores (como Samuel Johnson) e formadores de opinião da época e de veteranos de guerra como o autor Humphrey Cobb.

O livro original de Cobb foi publicado em 1935, já na iminência de uma segunda Grande Guerra, haja vista o avanço de Adolf Hitler como Führer da Alemanha Nazista. A adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick foi realizada após a Segunda Guerra Mundial, e longe de ter sido realizada com anacronismo, fora de seu tempo. Glória Feita de Sangue foi a primeira investida antibelicista do cineasta em um momento de grande temor mundial por uma Terceira Guerra Mundial. Seu segundo filme de alerta foi lançado no auge desse momento, a Guerra Fria, em forma satírica: Dr. Fantástico (1964). Mas, antes de entrar no longa-metragem estrelado por Peter Sellers, é preciso responder algo que você talvez já tenha se perguntado: “O que os Estados Unidos têm a ver com Glória Feita de Sangue?”

Ponto de fuga central, Glória Feita de Sangue (1957)
Quando a perspectiva nos insere em cena

Europa feita de sangue

De fato, nada. Com o filme, nada. Glória Feita de Sangue concentra-se na resistência francesa após a Primeira Batalha do Marne, momento em que a Alemanha ficou muito próxima de seguir avançando e tomar Paris. Porém, a Primeira Guerra Mundial ajuda a entender a Segunda Guerra Mundial, e cada uma ou ambas juntas explicam a paranoia da Guerra Fria satirizada em Dr. Fantástico — seja pela legitimidade de se temer uma Terceira Guerra Mundial, seja pela postura que os Estados Unidos passariam a adotar no mundo após sua participação avassaladora no fim da Grande Guerra, em 1918.

Desde a sua colonização por peregrinos ingleses e principalmente após a sua independência, os EUA se declaram alheios aos conflitos que tomam a Europa. Essa política isolacionista não tinha qualquer relação com um possível pacifismo estadunidense, haja vista o genocídio indígena na conquista do Oeste e a política do Big Stick adotada pelo presidente Theodore Roosevelt Jr. (1901-1909). Essa política, declarada institucional pela Doutrina Monroe (1823), era uma forma de proteger o continente norte-americano de possíveis ataques e tentativas de colonização por ingleses, franceses e espanhóis, que detinham terras no continente e tinham plenas condições estratégicas de deflagrar ataques contra os estadunidenses. Da mesma forma, os Estados Unidos declaravam para o mundo a sua essência capitalista e seu interesse de se envolver apenas comercialmente com os europeus. Negócios, negócios, guerras à parte.

Terra de Ninguém, Glória Feita de Sangue (1957)
Terra de Ninguém

Enquanto isso, na Europa, a Grande Guerra (nome original da Primeira Guerra Mundial, que só seria rebatizada após o início da Segunda Guerra Mundial) começa após um período de Paz Armada motivado, principalmente, por tensões entre o Império Alemão, de um lado, e França e Inglaterra de outro. Os alemães ganharam a antipatia dos ingleses ao tomar seu lugar como principal potência industrial europeia. E isso só aconteceu após a unificação dos estados germânicos, em um evento que causaria o conhecido revanchismo francês — o que exige mais umas linhas de História adiante.

A rivalidade entre França e Alemanha advém da icônica Batalha de Waterloo, quando a Prússia (importante estado germânico) derrotou o Primeiro Império Francês de Napoleão, em 1815. Décadas depois, quando austro-húngaros e franceses pregavam a volta do absolutismo na Europa, o Primeiro-Ministro da Prússia, Otto von Bismarck, usou a rivalidade com o Segundo Império Francês para evocar um sentimento nacionalista nos estados germânicos e, assim, finalmente, conseguir unificar os anseios “alemães” de norte a sul. O Império Alemão, primeiro estado unificado do que é hoje a Alemanha, nasceria após a Guerra Franco-Prussiana, em cerimônia ocorrida dentro do Palácio de Versalhes — uma afronta. Essa humilhação (além de outras sanções, como uma indenização pesada e a devolução da Alsácia-Lorena, rica em ferro e carvão) seria o principal combustível do dito revanchismo francês, e um dos catalizadores da Paz Armada que redundaria na Primeira Guerra Mundial.

Kubrick e Kirk no set de Glória Feita de Sangue (1957)
Kubrick e Kirk no set de Glória Feita de Sangue

Ok, mas e os Estados Unidos?

Portanto, é compreensível que os EUA tenham optado por se manter afastados das rivalidades históricas dos países europeus, particulares entre eles. Porém, os americanos nunca estiveram de fato alheios à Grande Guerra; eles só estavam, como tantas vezes, nas sombras do evento, influenciando de forma decisiva, com o intuito de faturar pilhas e pilhas de dólares, e a despeito de qualquer moral. Os Estados Unidos abasteciam os países da Tríplice Entente com armas e mantimentos, e enriqueciam como nunca. Porém, quando a Revolução Russa acontece em 1917, os russos deixam ingleses e franceses sozinhos na Tríplice Entente. Assim, os alemães ganhavam força — e seus soldados tinham a certeza de que venceriam a guerra. Isso significava, dentre outras coisas, que os americanos poderiam sofrer um grande calote, já que eles também emprestavam somas astronômicas de dinheiro para França e Inglaterra.

Então, de repente, o Império Alemão assinou o armistício. Para surpresa de seus soldados que se encontravam em posições consolidadas no front. Estes não sabiam das baixas sofridas pelos alemães em outras frentes e do poderio avassalador demonstrado pelos americanos no momento em que entraram na Grande Guerra. Na verdade, nem as forças estadunidenses conheciam sua força até engajarem no conflito. Isso mudaria em definitivo o panorama mundial. Os Estados Unidos alcançariam o status de maior potência do mundo, e assim passariam a se comportar durante todo o século 20, bem como suas forças militares — as mais equipadas e orgulhosas do planeta.

Dr. Fantástico se situa nesse ponto. No ponto em que os EUA deixariam o isolacionismo de ocasião e a falsa diplomacia de lado para imprimir de maneira ostensiva sua influência no mundo. A reação em cadeia da a) superprodução da indústria estadunidense na década de 20, b) a Grande Depressão de 1929, c) a decorrente ascensão de Hitler na Alemanha Nazista dos anos 1930 (também motivada pelo revanchismo alemão após o fim da Primeira Guerra Mundial, pelas sanções impostas ao país e pela crise que se impôs à sua população) e a d) influência econômica estadunidense na Europa do pós-guerra (via Plano Marshall) fez os Estados Unidos tomarem as rédeas da situação no mundo e se blindar de futuras crises domésticas pela garantia de um mercado consumidor no exterior. O que significava, como sabemos, combater as tentativas de avanço global da ideologia comunista da União Soviética. Com uma Guerra Fria que pareceria muito com os momentos de paz armada e preparação bélica que antecederam as duas recentes e traumáticas guerras mundiais.

Major "King" Kong, Dr. Fantástico (1964)
Major “King” Kong: um texano montando uma bomba nuclear

Dr. Fantástico ou como Kubrick satirizou a Guerra Fria

Assim como Glória Feita de Sangue, Dr. Fantástico deixa imediatamente claras as suas intenções e seu olhar crítico sobre algo que considera infame em nossa História. E ainda antes, já nos créditos de abertura. Onde, de forma solene, um instrumento fálico de um avião da força aérea americana engata noutro e vemos uma das cenas de sexo mais surpreendentes e bizarras do cinema.

Assim, também, Stanley Kubrick já mostra que fará algo que se tornará sua marca registrada: realizar mudanças sensíveis nas obras literárias que adapta para a telona. Vide o que fez em O Iluminado (1980), para a revolta de Stephen King; em Laranja Mecânica (1971), ao omitir todo o capítulo final da obra de Anthony Burgess; em Barry Lyndon (1975), desde o narrador em primeira pessoa do conto de William Makepeace Thackeray; etc. Essa qualidade tornou-se tão famosa que Kubrick é acusado de mudar até mesmo 2001: Uma Odisseia no Espaco (1968), cujo roteiro foi escrito em parceria com Arthur C. Clarke, que só depois lançaria o romance complementar ao longa-metragem (e com mudanças propositais para se distinguir do filme e do cineasta celebrados). Mas, enfim, Kubrick gostava mesmo de impor sua visão própria e ressignificar as obras originais no cinema (como deve ser, sempre), e a forma que ele encontrou de adaptar o livro Alerta Vermelho (1958), de Peter George, foi transformando os absurdos da obra literária em fio condutor absurdista de uma comédia.

Versatilidade é uma das características que consagram Stanley Kubrick. Além de três curtas documentais, o artista nova-iorquino realizara dois longas-metragens de guerra (Medo e Desejo, 1953, e Glória Feita de Sangue), dois do gênero noir (A Morte Passou por Perto, 1955, e o ótimo O Grande Golpe, 1956), o épico Spartacus (1960) por encomenda e o polêmico romance Lolita (1962). Então, quando enfim dirige uma comédia, Kubrick faz uma que é muito versátil em si mesma. Dr. Fantástico costuma ser definida como black comedy, mas reúne muitas outras em seus 90 e poucos minutos: a sutileza da comédia observacional, a fisicalidade do humor pastelão, e, claro, a acidez da sátira política. O texto de Kubrick, George e Terry Southern cria personagens (e caricaturas), diálogos afiados, trocadilhos infames (cabe um texto só para os nomes), faz piada com imagens estáticas, brinca muito bem com a trilha sonora… enfim, um roteiro que esbanja polivalência e, sim, sofisticação.

O gênio Peter Sellers

O elenco de Dr. Fantástico é ótimo, todo ele, mas quem também combina atuação de alto nível e ecletismo é seu protagonista. Um dos grandes atores de todos os tempos (não só dentre os comediantes), Peter Sellers empresta chaves cômicas distintas para os personagens que interpreta. O Presidente Merkin Muffley é engraçado por ser pacífico demais, até ingênuo em meio àqueles homens histéricos por violência. O Capitão Lionel Mandrake, dotado de uma típica insolência inglesa que vai e vem entre a coragem e a covardia. Ambos são interpretados por Sellers dentro da lógica da deadpan comedy, com um humor seco, lacônico, que surpreendem comicamente pela subversão de seus papéis, pela incoerência de suas atitudes e pelo contraste entre a seriedade deles e o ridículo do que dizem ou das situações em que estão inseridos.

Já o personagem-título, o Dr. Strangelove, integra um seleto rol de ícones da comédia pastelão no cinema. Apesar de também agir com pretensa sobriedade na maior parte do tempo, toda a concepção do cientista ex-nazista (risos) é baseada na caricatura de vilão da Guerra Fria: um homem patentemente malvado, de forma até maniqueísta, mas capaz de enganar àqueles ao seu redor. Além de permitir algumas das melhores cenas de comédia e improvisação da sétima arte (“Mein Führer! I can walk!” é digna de altas gargalhadas), o Dr. Strangelove permite uma série de interpretações críticas — ao que o alemão se tornou pós-Nazismo, à ética americana de receber as mentes mais vis da Alemanha, ao fato de inimigos virarem amigos em nome de um mal maior etc etc etc.

Aliás, cada um dos personagens principais de Dr. Fantástico permite refletir (negativamente) sobre os partícipes da Guerra Fria. Não é à toa que o Major King Kong (Slim Pickens) veste um chapéu de caubói — assim se questiona os modos não só de texanos, como do americano tradicional de glorificar um combate armado sem pensar nas consequências destrutivas disso. O General Jack D. Ripper (Sterling Hayden) personifica o perigo a que estamos expostos em tempos de poderio nuclear (tanto que o filme influenciou mudanças no protocolo militar americano). E o Gen. ‘Buck’ Turgidson (George C. Scott, excepcional) materializa a paranoia anticomunista que os Estados Unidos abraçaram e incutiram em seu povo e forças armadas.

Peter Selles genial em Dr. Fantástico (1964)
Sellers, genial

A paranoia e o patriota

Assim, Dr. Fantástico pontuou bem onde habitou a verdadeira paranoia da Guerra Fria. Não nos civis, que tinham boas razões para temer uma Terceira Guerra Mundial e um apocalipse nuclear. Mas nos homens que perderam a racionalidade e o senso de respeito pelo outro. Numa masculinidade essencialmente machista e baseada na resposta armamentista como única forma de ação. Num país que deturpou seus ideais liberais e levou o capitalismo a um extremo desumanizante. E que, para manter (e financiar) seu American Way of Life, tornou-se capaz de impor as maiores humilhações aos seus vizinhos no mundo. Kubrick denuncia essa deformação moral e ideológica, e como ela se volta contra os próprios estadunidenses em forma de violência, aqui e em Nascido Para Matar (1987).

Os Estados Unidos da Guerra Fria (1947-1991) são resultado daquele país que assistiu de camarote à eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. Que (desde os primórdios) vestiu uma capa de diplomacia para se defender, alimentou o conflito com seus recursos bélicos e financeiros e entrou na guerra de vez para garantir suas riquezas. Assim, cumpriu a profecia de seus colonizadores e a doutrina que seus founding fathers e presidentes instilaram na população: o destino manifesto de ser a maior potência do mundo. A qualquer custo. As bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945, não eram necessárias — foram um recado para o mundo. Um recado atroz, desumano, perverso. Que levou o planeta à beira do colapso nuclear.

Esse cenário só é possível porque existem “homens” que usam a identidade nacional, coletiva, para empunhar o que há de pior em si (vide os generais e o criador da bomba de Dr. Fantástico). Tão em alta hoje, nesse momento de ascensão da extrema-direita no mundo, esse patriotismo é o que o pensador Samuel Johnson define (e o Coronel Dax de Glória Feita de Sangue defende) como o último refúgio dos canalhas. Do outro lado está gente como Stanley Kubrick, que usa sua arte para mostrar como esse nacionalismo doentio e belicista sempre revela a pior face do homem.


Obras citadas:

The Luck of Barry Lyndon (1844), William Makepeace Thackeray; Paths of Glory (1935), Humphrey Cobb; Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), Orson Welles; Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957),Stanley Kubrick; Alerta Vermelho (Red Alert, 1958) Peter George; Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962), Anthony Burgess; Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), Stanley Kubrick; 2001: Uma Odisseia no Espaco (2001: A Space Odissey, 1968), Stanley Kubrick; 2001: Uma Odisseia no Espaco (2001: A Space Odissey, 1968), Arthur C. Clarke; Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), Stanley Kubrick; Barry Lyndon (1975), Stanley Kubrick; O Iluminado (The Shining, 1977), Stephen King; O Iluminado (The Shining, 1980), Stanley Kubrick; Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987), Stanley Kubrick; A Primeira Guerra Mundial: Os 1.590 Dias Que Mudaram o Mundo (The First World War: A Complete History, 1994), Martin Gilbert; História em Meia Hora (2019), Vitor Soares.

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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