O Mito Americano (Edição nº 2)

Novembro, 2020. Brasil. Espalhados em cinco cidades do país (BH, Rio, São Paulo, Fortaleza e Campina Grande), os editores da Revista Cine Cafe discutem um único assunto — aquele que também domina os noticiários brasileiros: a eleição do Presidente dos Estados Unidos.

Toda a complicação do sistema eleitoral americano, que é indireta e suscetível ao gerrymandering, todo o seu molde que dificulta o voto dos mais pobres, a obsolescência do seu modelo e a consequente demora da contagem de votos, a recusa de Donald Trump em aceitar o resultado, a divisão do país em dois… Enfim, tudo foi motivo de discussão naquela semana, e nos fez refletir sobre como esse tema é fascinante e pode ser amplamente discutido pela ótica do cinema.

Nascia, assim, a edição nº 02 da Revista Cine Cafe. Postergada para esse mês de janeiro, data em que toma posse o 46º Presidente dos Estados Unidos: Joe Biden, que talvez só tenha vencido essa disputa por ser um candidato democrata que é também palatável para o estadunidense conservador. Biden é um político liberal muito próximo do ideal tradicional americano, o WASP: branco, americano, saxão e protestante — ele só destoa por ser católico, que é uma religião cristã como o protestantismo. Enfim, Joe Biden está bem próximo de representar o ideal do mito americano, tema dessa edição da revista.

O que é o mito americano?

Para que os autores da revista e seus leitores partam de um mesmo lugar, antes é preciso entender o que significa esse mito americano, e do que falaremos nessa edição. Como disse nas linhas acima, o ponto de partida foi a eleição de novembro; mais precisamente, a ideia de que os Estados Unidos são “a maior democracia do mundo” apesar de todos vermos que o país não consegue e nem se dispõe a ser democrático nem no maior símbolo de uma democracia: a soberania do povo na escolha de seus representantes.

Essa visão soberba que o homem estadunidense tem de si mesmo (a ponto de se autoproclamar americano a despeito de haver tantos outros povos americanos no continente) e em relação aos outros ecoa a Doutrina Monroe e o Destino Manifesto. Que, por sua vez, remontam à chegada dos primeiros colonizadores à América. Uma tremenda viagem que o cinema tratou de contar e a que tentamos dar contexto nessa edição nº 02 da revista. Aposto que você descobrirá outros filmes dentro dos filmes que você já viu.

Mas a pergunta feita acima não pode ficar sem resposta. Então já resumo, para consumo rápido, alguns pilares dessa “identidade americana”: a branquitude, a masculinidade, a religião protestante e o capitalismo; a propriedade privada e o direito constitucional de assegurá-la com suas próprias mãos e próprias armas; uma declaração de independência que pregou a liberdade negando esse direito de nativos e negros; isolacionismo para conservar sua cultura e defender seus interesses, interferência e imposição para explorar ou dominar outros países; diplomacia para convencer, belicismo se não convencer; e tudo isso ungido por uma filosofia que promove os Estados Unidos à condição de Terra Prometida e fadada a ser a maior nação do mundo — mesmo que, para cumprir essa missão divina, o homem americano seja obrigado a cometer um genocídio indígena.

Big Stick, política que simboliza o mito americano de predestinação para impor sua "democracia" no mundo.
Cartum que ilustra a política do Big Stick de Theodore Roosevelt Jr.: proteger a América da colonização europeia para os Estados Unidos exercerem sua influência imperialista sobre os vizinhos latinos.

Desvendando o mito americano

A edição nº 02 da Revista Cine Cafe se dedica ao imenso esforço de refletir sobre o mito americano e os mitos americanos derivados desse ideal, uma construção secular. Tudo pelo viés do cinema, é claro. E sem viralatismo. Muito pelo contrário. Cremos que é besteira ignorar a forte influência dos Estados Unidos sobre o Brasil, audiovisual e culturalmente. E cremos também que conhecer as origens de tais influências nos ajudam a não pagar o mico de bater continência para a bandeira estadunidense — seja literalmente, como o patético Jair Bolsonaro já fez, seja de forma figurada, absorvendo (de forma artificial, ridícula) símbolos e princípios que não são nossos.

Tudo começa com o faroeste. O grande gênero americano, fundamental para a popularização do cinema em seus primórdios, e tão popular justamente por tocar na alma do cidadão estadunidense. Esse fenômeno é discutido numa trilogia sobre o cinema de John Ford (a primeira parte já está no ar, as outras duas serão lançadas nos próximos dois sábados) que aborda a colonização do Oeste, o genocídio indígena e outras questões problemáticas, porém romantizadas pelo cinema, que levaram o cineasta a questionar sua arte a ponto de revolucionar o western.

Por falar no cinema de faroeste, um de seus ícones também ganha espaço: Clint Eastwood, numa leitura sobre seu trabalho detrás da câmeras do ponto de vista do trauma da guerra. Guilherme Bakunin analisa os longas-metragens mais recentes do cineasta e expande essa questão do trauma para além do governo americano (instituição que impetra as guerras) para discutir as instituições de sua democracia.

Os Estados Unidos são, por política expansionista para se tornar um país continental ou por necessidades diversas de expatriados estrangeiros, uma nação que recebeu muitos imigrantes. Com isso, o olhar de fora sobre o americanismo é fundamental, ainda mais em se tratando de Fritz Lang, cineasta alemão que moldou as bases do grande cinema noir. Outro subgênero “trevoso” moldado para o contexto americano foi o gótico sulista, que tão bem representa a ruína do sul estadunidense após a Guerra de Secessão.

Pam Grier e Robert DoQui, anti-heróis de uma nova mitologia americana — o subversivo blaxploitation.

Essa edição reúne duas listas de filmes: uma que enumera os dez musicais que criaram, amadureceram ou renovaram esse gênero que moldou um império de consumo antes do advento do blockbuster, além de refletir os costumes e ideologias de formas diferentes — ora propagandista, ora pueril, ou até mesmo cínica. A outra lista bate de frente com o conceito de “maior democracia do mundo” com 5 longas-metragens que denunciam como o moderno sistema de governo dos Estados Unidos é aparelhado pelas elites para suprimir a representação do povo (premissa de uma verdadeira democracia, plena).

Nesse cenário, é essencial examinar a autorrepresentação do homem negro no cinema blaxploitation, o que resulta no primeiro texto lindo de Yasmine Evaristo como colaboradora da revista. Outro estreante, Vilson Gonçalves assina um ensaio sobre a apoteose das franquias de super-heróis, desde seu surgimento com Superman and The Mole-Men (1951) até a consagração do Universo Cinematográfico Marvel.

Essa edição ainda inclui artigos sobre o genial Stanley Kubrick, os subversivos irmãos Coen, o politizado Oliver Stone e a pioneira Ida Lupino. A mulher, aliás, está no centro da ação em duas críticas: de A Mulher faz o Homem (1939), clássico de Frank Capra que parte do cidadão comum para discutir a realpolitik estadunidense; e O Atalho (2010), filme que aborda a relação sociocultural do homem americano com as fronteiras do noroeste país e é, acima de tudo, um raro western revisionista feminista.

Sem mais delongas, tudo mais que você precisa saber sobre a edição nº 02 da Revista Cine Cafe, você encontra abaixo.

Boa leitura, e que o nosso 2021 seja um bom ano também. Bebam água. Vacinem-se.

Revista Cine Cafe #02: O Mito Americano

Trilogia John Ford – Parte 1: No Tempo das Diligências, o destino manifesto do faroeste, por Rodrigo Torres

A Mulher Faz o Homem e a fé inabalável no homem comum, por Bernardo Brum

Trevas sobre a América: o film noir de Fritz Lang, por Bernardo Brum

Mãe Solteira ou como Ida Lupino tomou Hollywood de assalto, por Guilherme Bakunin

A construção da utopia: os musicais da Era de Ouro, por Bernardo Brum

O século da paranoia: de Glória Feita de Sangue a Dr. Fantástico, por Rodrigo Torres

Fé, sexo e morte: o Gótico Sulista e o lado proibido da América, por Bernardo Brum

O negro é lindo no cinema Blaxplotation, por Yasmine Evaristo

Clint Eastwood e as chagas do homem comum americano, por Guilherme Bakunin

Uma odisseia americana: o cinema dos Irmãos Coen, por Rodrigo Torres

A apoteose do super-herói: Hollywood, grandes franquias e a era do espetáculo, por Vilson Gonçalves

O Atalho, a fronteira e a América: expansionismo como identidade, por Guilherme Bakunin

Democracia ou farsa? 5 filmes sobre a política estadunidense, por Rodrigo Torres

Trilogia John Ford – Parte 2: Rastros de Ódio: a mitologia em busca de redenção (em breve)

Trilogia John Ford – Parte 3: O Homem Que Matou o Facínora — a desconstrução do faroeste (em breve)

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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