O Farol e a sala escura

Um bom sintoma do que foi 2020 é escrever esse texto insone, em plena madrugada de domingo, com olhos e dedos coloridos por causa da Covid-19. Beira o tragicômico: as festas de fim de ano são uma tradição de família e eu cumpria a quarentena à risca até ser infectado pela… minha… mãe. Coitada: ela claramente se sente culpada, mas nem teve culpa. Um desfecho irônico para um ano bizarro era o único desfecho possível.

Apesar dessa introdução mórbida — coerente com 2020 e com o filme-objeto desse texto, O Farol (2019) —, até que o ano termina com boas perspectivas futuras num âmbito pessoal. E, no que realmente importa nessa crônica, as primeiras coisas que me vem à mente agora, ao pensar em cinema, são duas lembranças positivas.

O cinema na pandemia

Há 6 meses, quando me reuni com o amigo Francisco Carbone para editar o texto de melhores do filmes do streaming em 2020 até aquela data, para o Cineplayers, nossas perspectivas em relação ao cinema eram as piores. Dentre outras coisas, discutíamos (em um tom de brincadeira que pouco a pouco foi se desenhando como um receio mútuo legítimo) as chances reais que Aves de Rapina (2020) tinha de figurar em nossas listas de fim do ano. Passou longe — ufa!

Eu poderia escrever um texto inteiro sobre a volta precoce do cinema no Brasil, fazendo as devidas ponderações abordando a crise que o setor enfrenta no país e no mundo, agravada por essa pandemia maldita, e o medo que todos devemos ter de que mais salas fechem as portas nos próximos anos. Porém, vou focar no lado positivo: o fato é que, nos cinemas e nas plataformas de streaming (que parecem viver sua Era de Ouro), bem mais que 10 bons filmes foram lançados no Brasil. Obras estadunidenses, obras brasileiras, obras do mundo inteiro.

Curiosamente, meu filme de 2020 compreende essas três zonas: além do Canadá (onde o filme foi rodado) na cota estrangeira, O Farol foi realizado por dois novos fenômenos de Brasil e Estados Unidos. O produtor Rodrigo Teixeira, pelo qual torço que se afaste dos problemas judiciais e siga fazendo obras autorais do tamanho de Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019)Me Chame Pelo Seu Nome (2018); e a A24, produtora mais quente de Hollywood, responsável pelo meu outro longa-metragem predileto do ano, Joias Brutas (2019).

Robert Pattinson e Willem Dafoe, os faroleiros mitológicos de O Farol

O Farol

Enfim, a outra memória boa é o fato de hoje fazer exatamente 1 ano que eu vi O Farol, no Festival do Rio, pela primeira e única vez até aqui (a última, talvez?). E a memória que tenho do filme segue muito marcante, quase palpável, de detalhes visuais e sonoros, de sustos e sons. Isso se deve a uma imensa qualidade de composição de Robert Eggers, e que é uma das minhas prediletas no cinema: atmosfera. A capacidade de uma obra de arte de trazer seu público para dentro de si, inseri-lo naquele universo e envolvê-lo em sua atmosfera.

Essa lembrança saudosa da sala de cinema ecoa de forma multissensorial. Buzina bizarra, gaivota grasnando, fogo lambendo alto dentro de caldeiras de ferro, um preto-e-branco austero confinado em 1.19:1 de razão de aspecto. Lembro também que teve gente que não curtiu The Lighthouse e lamento — lamento por elas. A única pergunta que eu faria é: você não sentiu? Cinema é meu local predileto do mundo todo e poucos filmes fizeram tanto jus a isso quanto O Farol.

Na primeira cena do Robert Pattinson no quarto, quando ele bate a cabeça no teto do cômodo escuro, e de repente, do nada, detrás de uma porra de uma viga que invade o cubículo no meio (sugestivo pra cacete!), Willem Dafoe sai mancando, resmungando e peidando, eu sinto o desconforto e a clausura do Robert Pattinson. Antes de todos os conflitos, ambíguos, e muitos signos surgirem no filme. Antes da tensão erótica entre aqueles dois faroleiros ser, para mim, a tensão erótica mais infame que eu já vi no cinema.

Essa infâmia, essa estranheza que emana do choque constante entre eles, é parte fundamental da construção de terror de O Farol. A confusão causada pela sugestão de homossexualidade entre esses dois homens broncos está na mesma zona de subversão das expectativas que as constantes mudanças de humor do personagem nefasto do Willem Dafoe. Aos poucos, isso vai pavimentando também a crítica social presente no filme — que, assim como A Bruxa (2015), recorta um microcosmo no passado para representar problemas contemporâneos com o filtro do horror.

A sala escura

Até aqui, todo mundo já destrinchou todos os signos possíveis de O Farol. O velho marujo que se impõe sobre um outro mais jovem, “bonito como uma pintura”, e o objetifica como um empregado (ou uma empregada). A masculinidade tóxica que regem a relação entre eles e a escatologia como síntese. O caráter fálico do farol e o fascínio que eles têm por aquela coisa desconhecida — para Pattinson, proibida. A loucura. O pecado. A homossexualidade. A repressão. Nas melhores cenas do filme, três menções expressivas: “Hipnose”, do pintor exilado-por-ser-gay Sascha Schneider; Proteu, pelo olhar medonho de Willem Dafoe; e Prometeu, o homem que traiu Zeus e teve o fígado devorado por aves pela eternidade.

Por mais que eu goste de perceber as mil referências sociais, históricas, religiosas, literárias, pictóricas e cinematográficas (Os Pássaros, 1963) tramadas por Robert Eggers, o que mais me interessa em O Farol, sinceramente, é ver sua articulação em cena. De duas maneiras: como um elemento de contínua sublimação de suspense psicológico; e como a mais pura e simples mise-en-scène. Curiosamente, pelo mesmo motivo pelo qual eu recomendo o texto do Bernardo Brum sobre a representação pós-moderna do filme: menos respostas fornecidas, mais perguntas em aberto e a permanência de uma obra provocante como material de apreciação individual.

Eu nem sei se quero rever O Farol. Às vezes penso em revisitar aquela ilha precária que me mergulhou numa outra época, no clima frio que eu senti no cinema, no meu gênero favorito absorto em sombras graves. O confronto entre dois atores de gerações, métodos e formações tão diferentes interpretando seres mitológicos também distintos, opostos, frontais é outra coisa que desejo redescobrir um dia — no dia certo. A verticalidade do filme, em travellings e plongées que tão bem combinam com a tela quadrada que amontoa seus personagens no plano e transforma somente dois em gente demais. Os graves rompantes da trilha sonora. Sua brutalidade. Enfim, motivos não faltam para o reencontro. Mas em casa? Pesa o temor de comprometer o impacto da obra que eu conheci numa de minhas últimas visitas à sala escura. Pesa o saudosismo da sessão de cinema que eu não tive em 2020. Minha melhor experiência no ano é do ano passado. Guardo a lembrança.

Obras citadas:

O Farol (The Lighthouse, 2019), Robert Eggers; Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, 2020), Cathy Yan; Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra, 2019), James Grey; Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017), Luca Guadagnino; Joias Brutas (Uncut Gems, 2019); Benny e Josh Safdie; A Bruxa (The VVitch, 2015), Robert Eggers; Os Pássaros (The Birds, 1963), Alfred Hitchcock; Hipnose (Hypnose, 1904), Sascha Schneider.

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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