O cinema de guerra americano: heroísmo, vergonha e supremacia

Guerra é uma palavra ligada à história dos Estados Unidos. O país nasceu quando as Treze Colônias, por conta dos impostos, guerrearam contra a Grã-Bretanha. No século seguinte, o conflito é civil: Norte e Sul batalham em um conflito entre liberdade e escravidão, União e Confederação.

O poderio americano se expande por todo o século XIX com a Doutrina Monroe, “a diplomacia do dólar” e as intervenções econômico-militares por toda a América. Chegavam imigrantes aos montes e o país experimentava forte industrialização. Os governos lutam contra os trustes, ocorrem reformas sociais e o capitalismo de livre iniciativa se torna um modelo. 

No Século XX, a expansão continua – territorial e economicamente. Theodore Roosevelt apresenta a política do Big Stick: “Fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete” Uma declaração sintomática de um país que passaria os próximos cem anos lutando por dominância.

Pôster de recrutamento da Primeira Guerra Mundial

A consolidação do império

Temos o único hino nacional no mundo que menciona mísseis e bombas naquela porra!
– George Carlin, What Am I Doing in New Jersey?

No ano anterior ao fim da Primeira Guerra, os EUA entram no conflito. A motivação era em retaliação a submarinos afundados pela Alemanha. Impérios como o Alemão, o Otomano o Austro-Húngaro caíram com o conflito. Surgem novos países como a União Soviética. A destruição e mortes chocam a todos. 

Após o conflito, os EUA vendem um estilo de vida moderno e inédito, com o Grand Old Party Republicano na liderança. E então veio a Grande Depressão. A Bolsa de Valores quebrou e muitos perderam tudo o que tinham. O trauma social leva a poetisa Gertrude Stein a chamar os que lutaram na guerra de Geração Perdida.

Com Franklin D. Roosevelt, as medidas intervencionistas do New Deal recuperam a economia. Porém, os efeitos econômicos são sentidos durante toda a década. O evento aprofunda a ascensão dos regimes nazifascistas europeus. Em 1939, o fuhrer alemão Adolf Hitler invade a Polônia. Isso deflagra o maior conflito armado da história: a Segunda Guerra Mundial. Os EUA permanecem neutros até 1941, quando a base de Pearl Harbor é destruída por kamikazes do Império Japonês.

A partir de então, os Estados Unidos sempre estiveram em guerra. Os motivos são os mais variados possíveis, afetando estadunidenses de diferentes maneiras. O sentimento por vezes é ufanista e em outras oportunidades, críticos. 

Tal mentalidade afeta toda uma cultura. E como o cinema de guerra do país representou isso?

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O inferno da guerra em O Resgate do Soldado Ryan (1998).

O Resgate do Soldado Ryan: o débito com o passado 

“Eu vou dedicar meu livro aos que atiraram mas não foram alvejados, porque é sobre sobeviventes. E sobrevivência é a única glória da guerra, se você me entende.”
– Soldado Zab (Robert Carradine), em Agonia e Glória (1980)

No tempo presente (no caso, 1998), um homem idoso visita um cemitério, acompanhado de cruzes brancas. Vê-se um horizonte de cruzes brancas alinhadas. Quando vê uma tumba, o nome o faz cair ao chão. A câmera mergulha em seus olhos. Ondas se ouvem ao longe.

As cruzes se tornam uma barreira militar banhada pela água. O raccord sonoro nos joga de volta ao Dia D, 6 de junho de 1944. Homens vomitam ao balançar das ondas. As tropas desembarcam. No início de O Resgate do Soldado Ryan (1998), durante 23 minutos, Spielberg recria para o espectador como foi o ponto de vista americano da praia de Omaha. O que se vê é um massacre. Tiros são disparados dos postos alemães e bombas explodem. Homens perdem membros, órgãos internos são expostos. 

A fotografia do polonês Janusz Kamiński evoca os registros do fotojornalista húngaro Robert Capa. Presente no evento, Capa (chamado de “louco” por Hemingway), seguiu à risca sua filosofia de “se sua foto está boa o bastante, é porque você não está perto o bastante”. O fotógrafo perdeu muitas fotos; as que revelou tinham rastros de obturador e alta granulação. O resultado são fotos tremidas, desfocadas e contrastadas. A memória visual do evento, recriada por Kamiński, é enervante, enjoativa. 

O roteirista Robert Donat foi quem germinou a ideia de Ryan. Enquanto lia o best-seller O dia D: 6 de junho de 1944, de Stephen Ambrose, um monumento em New Hampshire chamou sua atenção. Homenageando heróis da Segunda Guerra, a construção listava o nome de uma família de irmãos morta em ação.

Tal constatação chocou Donat, que escreveu o roteiro e vendeu a ideia que atraiu dois notáveis filhos do pós-guerra: o cineasta Steven Spielberg e o ator Tom Hanks. Spielberg, que já filmara histórias ambientadas durante o período como Império do Sol (1987) e A Lista de Schindler (1993), logo se interessou. Em entrevista ao American Cinematographer, declarou acreditar que “a Segunda Guerra Mundial é o evento mais significativo dos últimos 100 anos; o destino dos baby boomers e até da Geração X estão conectados ao seu desenrolar”.

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O heroísmo sangrento do Capitão Miller 

Heroísmo moderno

Em Reclaiming Parkland, o historiador James DiEugenio observa que o filme é em “90% ficção”, declarando o objetivo ser comemorar o evento como “a boa guerra e o “papel americano como crucial”. Tom Hanks surge como o Capitão Miller, personificação de integridade e dever no filme. Ele recebe uma missão suicida – encontrar o soldado de elite desaparecido James Ryan. Integrante da Divisão Aerotransportada, os Screaming Eagles, ele agora defende uma ponte atrás das linhas inimigas.

A motivação é simples: todos os irmão de Ryan morreram, e a Política do Sobrevivente Único demanda que o Exército o proteja. O Resgate do Soldado Ryan foi parcialmente inspirado na história real dos irmãos Niland. Todos os irmãos foram mortos na guerra, exceto Edward, encontrado como prisioneiro de guerra em Burma. Spielberg e Hanks a partir desse fato real constroem uma história sobre dever manchado de sangue.

É certo que lidamos aqui com personagens centrais íntegros, como Spielberg tanto admira – Hanks parece ser seu James Stewart ou Gary Cooper. Mas o diretor suspende aqui, ao menos em parte, a sensação de armadura de roteiro, ou seja, de que o protagonista não morrerá. Pois a violência e a morte são uma constante repentina em Soldado Ryan.

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O heróico Carpazo (Vin Diesel) ao resgate.

 Em um momento de adrenalina, uma velha casa francesa é estourada pelos tanques alemães. Após salvar uma garotinha em um momento resoluto de glória, Carpazo (Vin Diesel) é acertado por um franco-atirador. A secura da morte, em plano geral, não é a única abordagem do filme. A morte também é traumática, como a do soldado Wade (Giovanni Ribisi), que morre com o estômago perfurado, gritando pela mãe. 

Spielberg é ufanista, mas não utópico. Seus homens tem que sujar as mãos apesar do que acreditam. É o caso de Jackson (Barry Pepper), um franco-atirador cristão. Em um duelo emblemático do filme, sem qualquer visualização por conta da chuva, o personagem reza um Pai Nosso para conseguir matar o inimigo.

Assim, não é um filme sobre uma vitória fácil, mas sobre uma tour-de-force maior que a vida. Spielberg destrói as locações, trucida os personagens, mas tudo por uma causa maior. É um baby boomer exaltando os que vieram antes, um corte geracional chamado Greatest Generation. A Geração Grandiosa. A que lutou e morreu para que outros pudessem sobreviver.

Não é uma história sobre homens que vão ganhar a guerra. Como observou Rafael PH Santos, é “a história vista de baixo”, corrente historiográfica que conta a história dos sujeitos comuns. A glória de Soldado Ryan é salvar um único homem, uma única família. Em tom otimista, Harvey J. Kaye escreveu em The Fight for the Four Freedoms que essa geração queria “frear o poder do capital, criar crescimento econômico e desenvolvimento, acabar com a pobreza e ‘habilitar as pessoas a se desenvolverem’”. 

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Unidos pela tragédia em Irmãos de Guerra (2001)

Elegia e elogio

Em Children of The Great Depression (1974), Glen Holl Elder Jr. observou que as pessoas moldadas pela Grande Depressão com uma “habilidade para sobreviver e resolver problemas”. A visão de Kaye e Elder conferem um status quase mitológico à Grande Geração; pessoas com senso de propósito, que superavam as dificuldades e lidavam com o mundo. Que sujavam as mãos por um bem maior.

Spielberg e Hanks continuariam a perpetuar tal mitologia produzindo o brutal drama da HBO Irmãos de Guerra, espécie de sequência espiritual de Ryan. As histórias contadas são baseadas em depoimentos verdadeiros. Para aumentar ainda mais a sensação de realismo, episódios são introduzidos por idosos veteranos da vida real.  De maneira emocionada, relembram para a câmera os eventos que definiram suas vidas para sempre. Um coral memorialista que eternizou em filme a geração com um propósitol

Assim, as produções de Spielberg refletem um momento específico de exaltação, de tributo. A brutalidade e a sujeira são admitidas, a morte nos ronda, mas o senso de dever é uma responsabilidade que paira. Salvo por homens mortos, James Ryan refletirá se viveu uma boa vida. O mito dos EUA como coração do novo mundo nunca ressoou tão forte quanto ao fim desse conflito, e o sangue desses homens pavimentou esse caminho. Ryan é um elogio (e uma elegia) a esses tempos românticos.

Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946)
O veterano volta para casa em Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946).

Mas novos desafios vinham no horizonte. O vencedor do Oscar de Melhor Filme Os Melhores Anos das Nossas Vidas (1946) já colocava empecilhos. O cinema de guerra encontrava um exemplar pós-conflito aqui. Nem todos que voltavam conseguiam se adaptar. Houve uma explosão populacional. As mulheres ocupavam postos de trabalho. Os movimentos civis dos negros clamavam por terminarem as leis racistas Jim Crow. 

Após a Guerra que definiu o propósito de uma geração, os EUA competiam com a União Soviética como as nações mais influentes do mundo. Capitalismo x Comunismo tornou-se o novo embate. Os primeiros líderes da Grande Geração chegavam a postos de liderança. O mundo temia ser engolido em uma guerra atômica devido à mentalidade beligerante de generais dos dois lados, o que Stanley Kubrick satirizou em Dr. Fantástico (1964).

Assim, diferente do esforço de guerra contra os fascistas, visto pela população como absolutamente necessário, mesmo que custasse um número incalculável de vidas (como a moral que o Ryan de Spielberg oferece ao mundo), os próximos conflitos seriam percebidos de maneira um tanto controversa. 

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A sanidade é desafiada em Apocalypse Now (1979)

Apocalypse Now e a Guerra da Vergonha

“Esse país está desintegrando. O que aconteceu com a América? O que houve com o Sonho Americano?”
“Se tornou verdade. Você está olhando para ele.”
– Diálogo entre Coruja e Comediante, Watchmen (1986-1987)

O Estado Livre do Congo foi uma tragédia humanitária. O país africano havia se tornado propriedade privada de Leopoldo II da Bélgica. A colonização brutal assassinou e mutilou até 15 milhões de vítimas até ser exposta pela imprensa internacional em 1908. Durante esse brutal regime, Joseph Conrad escreveu O Coração das Trevas (1902), história sobre um homem que recebe o encargo de encontrar Kurtz, um comerciante de marfim que teria enlouquecido.

Mas o que isso tem a ver com os Estados Unidos?

Novos conflitos

Cinco anos após o fim da Segunda Guerra, os EUA já enfrentam um novo conflito: a Guerra da Coreia. O conflito divide o país entre Norte e Sul, em divisão que dura até hoje. Ao mesmo tempo estourou a Segunda Guerra Indochinesa; o Vietnã, o Laos e o Camboja lutam para livrar-se das forças coloniais francesas, com apoio da União Soviética e China.

A introdução americana no conflito, visando apoiar o Vietnã do Sul contra o socialista Vietnã do Norte, foi a mais famosa guerra por procuração (proxy war) da Guerra Fria. Entre 1955 e 1979, quatro presidentes e meio milhão de soldados americanos ocupariam o Vietnã em intensidade crescente. Toneladas de bombas foram lançadas contra o país. O massacre de My Lai, onde soldados americanos executaram sumariamente sul-vietnamitas desarmados (mulheres grávidas e crianças incluso) chocaram a comunidade internacional.

John Lennon e Yoko Ono
O ex-beatle John Lennon e a artista Yoko Ono protestam pela paz

 Como pode-se ver em Os Sete de Chicago (2020), a partir da aliança entre estudantes, ativistas e radicais, estoura o movimento anti-guerra, onde jovens se recusaram a servir e tomavam as ruas. A cultura se tornou política por um período. É época de canções como Blowin’ In The Wind, de Bob Dylan, For What It’s Worth, do Buffalo Springfield, Give Peace a Chance, de John Lennon, Fortunate Son, do Creedence Clearwater Revival e What’s Goin’ On de Marvin Gaye. Todas com um forte sentimento antibelicista. 

Na mentalidade da geração baby boom, a Guerra do Vietnã se tornou uma guerra sem glória nem honra, onde os soldados americanos embarcavam para matar e morrer. Em débito com o passado, de terem sido libertos do nazismo pela Greatest Generation, os boomers se desiludiam com o sonho americano, que parecia degenerado, corrompido. 

Corações e Mentes / Hearts and Minds
O horror real documentado em Corações e Mentes (1974)

Cinema de contestação

O cinema da época, embebido da contracultura do nascente rock & roll e conquistando uma geração com ideias vanguardistas, refletiu em parte o sentimento da população na época. Entre opositores ruidosos e uma minoria silenciosa, o Vietnã crescia em impopularidade. Os horrores reais vistos no documentário Corações e Mentes (1974) detonou uma leva de obras sobre o período.

Entre os mais destacados, o ex-combatente Oliver Stone lançou os dramas Platoon (1986) e Nascido em 4 de Julho (1989). No primeiro, soldados se desentendem sobre qual o propósito americano naquela guerra. No segundo, um sobrevivente devastado pela Guerra se torna um opositor. Em uma das cenas de maior impacto, o personagem de Tom Cruise, aleijado no serviço, é chamado de “comunista” por um ativista pró-guerra cheirando a burguesia.

Brian De Palma talvez comandou a iteração mais chocante: Pecados de Guerra (1989) nem é o mais popular filme sobre o conflito, mas é talvez o mais sombrio. Liderados pelo personagem de Sean Penn, soldados americanos matam, torturam e estupram. Um soldado ingênuo (Michael J. Fox) logo vê que seu país entrou no conflito não para lutar pelo certo, mas para devassar um país. 

cinema de guerra
Os helicópteros são as Valquírias motorizadas de Coppola

A guerra e o horror 

E há, como não é possível deixar de mencionar, Apocalypse Now (1979), onde o cinema cruza o caminho de O Coração das Trevas. Francis Ford Coppola, então duas vezes vencedor do Oscar por O Poderoso Chefão (1972) e O Poderoso Chefão Parte II (1974), adapta o romance e o contextualiza para a guerra do Vietnã.

Coppola organiza uma ópera barroca introduzida pela sombria The End, canção-poema gravada pela banda The Doors. Em sobreposição, as florestas queimam e assombram o inconsciente do Capitão Willard (Martin Sheen). “Saigon. Merda. Ainda estou em Saigon.”, reclama. Em uma dança bêbada em câmera lenta, destrói o espelho. Um ato simbólico clássico de quem deixa de se reconhecer. 

Pelo resto do filme, o soldado percorre um rio em direção às profundezas de Camboja, onde está refugiado Comandante Kurtz (Marlon Brando), enlouquecido e liderando um exército de camponeses fanáticas, de forma messiânica. 

Como era típico de um cinema mais alegórico (dos quais podemos incluir cinemas tão díspares ainda que mais ou menos contemporâneos como Godard, Pasolini, Glauber, Scorsese), Apocalypse Now tem um tom inflamado, declamatório, exagerado. 

“Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz um tenente (Robert Duvall), pouco antes de sair para surfar com um comandado. Próximo à praia, uma floresta é consumida por fogo e o terrível herbicida conhecido como Agente Laranja. Tudo ao som de A Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner.

Em meio a isso, adolescentes são massacrados, como o soldado raso interpretado por Lawrence Fishburne e coelhinhas da Playboy aterrisam para divertir os soldados. Sem dúvida, retrato de um mundo que saiu dos eixos – pelos próprios poderes que dizem a moral, a justiça, a instituição.

O delírio psicodélico de Coppola, – mais abstrato a cada minuto, cortesia das cores do fotógrafo de Vitorio Storaro – parece questionar: será mesmo Kutz o insano? Que direito um ser humano tem de fazer aquilo com o outro? É  o ponto dos discursos do comandante enlouquecido, que critica: “treinam garotos para jogar fogo nas pessoas, mas não deixam escrever foda-se nos aviões pois seria obsceno”. A mente que quebrou por não suportar “o horror”, nas palavras do próprio, parece ser a voz mais sensata que Willard encontrou até então.

Produzido na esteira do conflito, Apocalypse Now foi o cimento definitivo do sonho hippie, “faça amor, não faça guerra”. As sombras no coração do homem são transformadas em loucura bélica, longas tomadas de intensa movimentação de extras, maquinaria pesada formando um Fellini com explosivos. A loucura exagerada do mestre italiano era versada em um circo de horror. De vez em quando hilário e inacreditável – mas sempre horrível.

Os Estados Unidos viveram uma época de vergonha. É o que opinaram em 2018, em carta ao The Morning Call o veterano Richard Cortright e Moore Township, protestando pelo silêncio midiático acerca do aniversário do acordo de paz de 1973: “Como em nome de Deus um país pode mandar a flor de sua juventude para batalhar em um conflito político sem objetivo, propósito, estratégia ou fim?”.Em Kill Anything That Moves: The Real American War in Vietnam, Nick Turse escreve que “essas mortes e casualidades eram o desfecho inevitável de políticas deliberadas ditadas no nível mais alto do exército”.

O horror da Guerra do Vietnã seria sucedido por uma década mais conservadora – o republicano Ronald Reagan e as políticas neoliberais ascendem ao poder, bem como os hippies dão lugar aos yuppies. Calças bocas de sino dão lugar aos ternos, o LSD substituído pela cocaína. 

O “machão” Reagan e sua personalidade provocante arma ainda mais os EUA, lança uma “Guerra nas Estrelas” e a cultura reacionária da época o segue – é época de filmes que oscilam entre a paranoia dos inimigos “exóticos” (soviéticos, árabes, vietnamitas) como Rambo e Braddock, ou o puro ufanismo de recrutamento, como Top Gun – Ases Indomáveis (1986). Logo nesse período, o principal rival estadunidense, a União Soviética é desmantelada. Principal divisória ideológica do mundo, o Muro de Berlim cai. 

Nem França, Alemanha ou Inglaterra e, agora, nem União Soviética estão no caminho dos EUA agora. O que fará o país?

Continuará guerreando. 

Guerra ao Terror e o ultra-imperialismo

Eu não vou me desculpar por fazer o que é necessário para que os seus entes queridos durmam pacificamente à noite. Foi minha honra ser seu servo. Você me escolheu. E eu fiz o que você pediu.
– Dick Cheney (Christian Bale), Vice (2018)

O filósofo marxista Karl Kautsky cunhou o termo ultra-imperialismo em um artigo de 1914, previa que o mundo estaria chegando em um estágio onde “a competição entre estados seria desabilitada por sua relação de cartéis”. Jornalista e doutor em história social, José Arbex Jr. chamou em palestra de 2016 para a PUC-RS tal fenômeno de “super-imperialismo”. “O governo das grandes corporações” – em 2012, os 28 gigantes financeiros do mundo lucraram 50 trilhões – enquanto o PIB mundial está em 73.

Klautsky observou lá em 1914 que o Estado capitalista, para continuar funcionando, precisavam “introduzir medidas protecionistas e defender seus impérios militarmente”. Segundo o mesmo, era a causa primordial da Primeira Guerra Mundial. Na palestra de 2016, o economista Ladislau Dowbor chamou o predomínio das grandes corporações de “sistema sabonete”, onde as corporações vivem escapando de medidas estatais. 

Pois bem, como prenúncio de início do século e como análise posterior de outro, a estratificação social e a dominância do lucro tem efeitos bem claros. No início do século XXI, sobe ao poder George W. Bush, filho de um ex-presidente. Bush tem como vice Dick Cheney, ex-Secretário de Defesa de seu pai, que viria a se tornar um dos vice-presidentes mais influentes. 

George W. Bush
George W. Bush declarou Guerra ao Terror

Uma região conturbada

O Oriente Médio já influenciava o equilíbrio de poder desde a Revolução Iraniana de 1973 e a crise petrolífera de 1979, contemporânea à Guerra Afegã-Soviética (ou Vietnã soviético), que foi vista como a causadora do colapso econômico da URSS e alçou Osama Bin Laden ao protagonismo de líder da al-Qaeda, que mais tarde tornaria-se uma organização terrorista.

Em 11 de setembro de 2001, o ex-aliado Osama Bin Laden manda sequestrar dois aviões e jogá-los contra o World Trade Center, um dos símbolos do capitalismo americano. Em resposta, Cheney arquiteta a “Guerra ao Terror”, que tem como principais focos o Afeganistão e o Iraque, o segundo controlado pelo ditador Saddam Hussein.

Como Osama, que durante a guerra Afegã recebeu apoio logístico dos EUA, Saddam tinha uma relação ambivalente com o país, sendo apoiado pelo mesmo durante tentativas de golpe na década de 50 e na Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Na Guerra do Golfo (1990-1991), passou a ser um adversário e, na Guerra ao Terror de Cheney, foi derrubado. 

Se antes os EUA tinham inimigos circunstanciais e ideológicos, a impressão é que agora o país criava os adversário que usaria para expandir seu poder. A retaliação ao ataque às Torres Gêmeas nasceu de um ex-aliado, e até hoje, três presidentes depois, as conversas com o Talibã engatinham. E Cheney? Passou a controlar o petróleo iraquiano através da sua empresa Halliburton.

O sentimento de insegurança instaurado tem efeitos econômicos sentidos até hoje – enquanto as empresas Big Tech crescem com anuência governamental após a recessão de 2008. Com Hussein derrubado, um vácuo no poder iraquiano cria o ISIS, Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que assume boa parte dos ataques terroristas perpetrados hoje.

Nese contexto, em plena crise econômica, a superprodução Avatar, de James Cameron, é derrotada na disputa pelo Oscar de Melhor Filme pela produção muito mais modesta de sua ex-esposa, Kathryn Bigelow. O filme, um dos primeiros a lidar com os conflitos atuais, é lançado no Brasil como Guerra ao Terror

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Em Guerra ao Terror, parte do massacre é esperar

A guerra como um vício

Uma tônica é comum em muitos dos filmes do período – é que muitos desses homens e mulheres que vão lutar têm uma vida esvaziada. Retornam várias vezes aos campos de batalha, experimentando semanas de tédio entre um conflito e outro. A crise humanitária é acentuada na região – inicia-se a crise dos refugiados, sentida até hoje, produzindo imagens chocantes e deprimentes. Mas o conflito já dura vinte anos ainda assim. 

Portanto, enquanto a morte se acumula ao redor, aqueles homens esperam, esperam e esperam mais um pouco. De repente, um conflito explode – em alguns casos, literalmente. Vidas são perdidas. Os iraquianos são reprimidos. E os soldados americanos voltam a esperar. Com poder bélico superior, o território é tomado pouco a pouco. E em meio a isso, o personagem principal desarma bombas em ritmo contínuo. É o único suspense do filme – a bomba explodirá dessa vez ou não? Se não explodir, ele irá continuar. 

Como seu país, o soldado William James está em guerra eterna. Até mesmo o roteiro do filme é dividido em duas partes que se assemelham entre si; o homem chega para guerrar, vai embora e retorna. Pois a guerra pela supremacia é eterna. Após uma guerra, há a próxima. Em 2019, 35% dos gastos militares mundiais foram apenas dos Estados Unidos.

Os personagens que desarmam bombas no filme são tratados como viciados em adrenalina. Em vestir roupas antibomba e tentar desarmar explosivos plantados – sempre correndo risco de morrer. Uma maneira autodestrutiva, desapaixonada, cínica. Nesse filme cujo único suspense reside na próxima bomba a ser desarmada, as explosões também são a única estilização – impressionantes, em câmera lenta, em glória destrutiva. Um instante suspenso em meio à secura generalizada.

Muito por conta disso, as performances são apáticas, os diálogos envolvem um desapego pela vida e aceitação da morte. O personagem protagonista de Jeremy Renner, afirma sentenças como “à medida que você envelhece, há menos coisas que você ama” e “se morrer aqui, vou morrer confortável”. Se em Soldado Ryan um homem estrebucha em sangue gritando pela mãe, em Guerra ao Terror ele é um cadáver que anda, vivendo apenas pelo dever.

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Crimes de guerra em A Hora Mais Escura (2012)

O império apático

Bigelow voltaria ao tema com A Hora Mais Escura (2012), detalhando a caçada da CIA à Osama Bin Laden e detalhando a tortura da Agência de Segurança Nacional (NSA) para conseguir informação sensível. Tudo sob os auspícios do arquiteto da destruição Cheney, é claro.

Uma época confusa, perdida entre guerras por ganância e a destruição da economia durante a Grande Recessão de 2008 revelou-se um material interessante. O conservadorismo da Era W. Bush revelou-se reacionarismo. Sem avanço em causas sociais, tornou-se uma era de poder pelo poder. Nem a liderança carismática que a sucedeu, com Barack Obama e suas promessas progressistas, foi isenta. Na era Obama, Osama Bin Laden foi caçado e morto e as tropas continuaram no Oriente Médio. E o cinema retratou isso com filmes psicológicos e políticos que retrataram essa época de moral distorcida.

Em Vice (2018), o personagem Cheney ficcionalizado afirma em seu monólogo que serve de epígrafe a esse capítulo que não se arrepende de seus atos, pois foi escolhido para isso. É um fato: a guerra ao terror foi um clamor popular. Capitalizado por políticos que conseguiam ler a situação, é verdade, mas antes de tudo uma expressão de que a grande nação do mundo deveria continuar exibindo seu poderio. 

Cães de Guerra / War Dogs (2016)
A guerra é lucrativa em Cães de Guerra (2016)

Uma guerra das novas gerações

As novas gerações – convencionadas como millennials e geração Z já não parecem reproduzir, no cinema, qualquer paixão heroica como em O Resgate do Soldado Ryan ou expôr qualquer choque frente ao que é apresentado, como acontece com a espiral crescente de loucura de Apocalypse Now. Tudo é casual. Talvez inspirado nisso, De Palma volta com um novo filme sobre o tema: apesar de contar com uma premissa parecida com a de Pecados de Guerra, Guerra Sem Cortes (2007) é um exercício de estilo documental. Se antes a brutalidade era estilizada, aqui ela é crua. 

Além de crua, morosa. O filtro laranja da areia toma tudo. Agora, tudo parece repetitivo. Em Sniper Americano (2014), Chris Kyle deixa de funcionar no dia a dia e quer de qualquer forma voltar ao Iraque matar o lendário sniper local que o desafia. Em Na Mira do Atirador (2017), esse inimigo é invisível, sem rosto e com um discurso vingativo contra o soldado americano pelos pecados de seu país. Já em Castelo de Areia (2017), o protagonista tenta ir embora dali de qualquer maneira (chega a mutilar a mão), mas não consegue. Lidando com a frustração de não suceder em sua terra natal, têm de cumprir uma missão enquanto lida com ódio por todos os lados. 

Fora do campo de batalha, o conflito ainda ecoa em outros gêneros: Rede de Mentiras (2008) oferece uma trama espetacular de espionagem sobre o conflito, mas um que faz a questão de cutucar a ferida é Cães de Guerra (2016), onde dois traficantes de armas americanos fazem fortuna com o conflito. No filme de Philips, imoral que só à lá Scarface, a guerra é interessante porque rende. O que, talvez, seja o ponto mais sensível do filme.

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Na Mira do Atirador (2017): o inimigo invisível

A guerra eterna

São quase oito décadas de filmes que tratam sobre os envolvimentos bélicos dos Estados Unidos. Alguns glorificam o heroísmo que derrotaram o totalitarismo que garantem nosso lugar aqui. Outros criticam a sua loucura que traga o indivíduo (também é interessante nesse sentido ler o satírico Ardil 22). Outros, além da análise do indivíduo, constatam a necessidade constante de expansão e seus efeitos. 

É um exercício interessante ver como a arte de um império se auto examina à procura de heróis, de monstros e de razões e as respostas são as mais diversas possíveis. Em épocas de ideologias polarizadas, o cinema de guerra serve como um espelho do país naquele determinado momento – seja como lembrança emocionada, como desencanto com as instituições ou como a constatação de um pragmatismo que já não tem mais um ethos, apenas uma práxis. Com suas particularidades As guerras refletem um espírito de uma época. Mas com seu olhar incisivo, também os filmes.


Obras citadas:

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), Império do Sol (Empire of The Sun, 1987), A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), Irmãos de Guerra (Band of Brothers, 2001), Steven Spielberg; Os Melhores Anos das Nossas Vidas (The Best Years of Our Lives, 1946), William Wyler; Os Sete de Chicago (The Trial of  the Chicago 7, 2020), Aaron Sorkin; O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), O Poderoso Chefão II (The Godfather Part II, 1974), Apocalypse Now (1979), Francis Ford Coppola; Corações e Mentes (Hearts and Minds, 1974), Peter Davis; Top Gun – Ases Indomáveis (Top Gun, 1986), Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008), A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), Kathryn Bigelow; Pecados de Guerra (Casualties of War, 1989), Guerra Sem Cortes (Redacted, 2007), Brian de Palma; Vice (2018), Adam McKay; Castelo de Areia (Sand Castle, 2017), Fernando Coimbra; Na Mira do Atirador (The Wall, 2017), Doug Liman; Rede de Mentiras (Body of Lies, 2008), Ridley Scott; Cães de Guerra (War Dogs, 2016), Todd Philips.


Fontes:

Brasil Escola – História dos Estados Unidos
Administradores – Os Estados Unidos no Início do Século XX
Wikipedia – Guerra Por Procuração
The Morning Call – Shame of Vietnam still haunts veterans
The Global and Mail – America’s shameful history in Vietnam finally revealed
R7 – “Superimperialismo” é causa da pior crise dos refugiados das últimas décadas, diz especialista
El País – Empresa de Dick Cheney vai controlar petróleo no Iraque

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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