O Atalho, a fronteira e a América: expansionismo como identidade

Em um episódio de Mad Men, os personagens – funcionários de uma firma de publicidade – se preparam para um pitch delicado: vão atrás dos negócios da American Airlines, algumas semanas após um dos aviões da companhia ter sofrido um fatal acidente. Naturalmente, a empresa enfrentaria nos meses subsequentes um pesadelo de relações públicas, mas após bater a cabeça contra a parede por muito tempo, Don Draper, o diretor criativo da firma, chega a uma solução:

“A American Airlines não é sobre o passado tão quanto a própria América. Não pergunte sobre Cuba, não pergunte sobre a bomba. Nós vamos para a lua. Não existe uma coisa chamada ‘história americana’, apenas uma fronteira.”

Com certeza o que há de mais latente nesse breve discurso é esse esforço em deixar o passado para trás, olhando apenas para o futuro. Mas a parte sobre a fronteira e a história americana é intrigante, até porque a série, criada por Mathew Weiner em 2007, não se preocupa em explicá-la.

Se existe uma coisa que cem anos de indústria cinematográfica estadunidense nos mostraram, é que existe uma história americana. Uma história que, embora relativamente breve, é rica e volátil. Das revoluções que culminaram na independência do império britânico até o prolífico e próspero século XX, os Estados Unidos da América fizeram-se, para o bem ou para o mal, intimamente conhecidos no mundo todo.

Mas existe um enigma decifrável no discurso de Draper. Algo que talvez já tenhamos percebido, mas que nem sempre fica claro a todo momento. E para entendê-lo, é necessário retornar ao século XIX, quando Frederick Jackson Turner apresentou seu ensaio “O significado da fronteira na História americana”.

Frederick Jackson Turner
À esq: o historiador Frederick J. Turner, autor da tese da fronteira; à dir: A pintura Progresso Americano, de John Gast (1872), representação do “destino manifesto”

A tese da fronteira

O ensaio, que posteriormente ficou conhecido como “tese da fronteira”, argumenta que durante séculos, os Estados Unidos, mesmo após a independência em 1776, carregavam dentro de si o “germe” europeu. Era germe britânico ali, germe germânico acolá. E que a partir do encontro do homem europeu com a fronteira, a coisa americana florescia.

Turner defende que a fronteira proporciona a mais rápida e efetiva americanização através do encontro entre as noções de civilidade europeia e selvageria do continente ainda-não-explorado. Embora o “selvagem” dentro do contexto expansionista costume referenciar os nativos, não é sobre isso que o autor fala aqui. É muito mais sobre o caráter inexorável e dominante da natureza. “A selva domina o colonizador,” Turner diz, “encontra-o como um europeu em vestimentas, ferramentas e modos de pensar. (…) Despe-o das roupas da civilização, colocando-o numa camisa de caça e mocassim.”

Segundo essa ideia, pouco a pouco o homem civilizado se transforma em alguém melhor preparado para enfrentar as intempéries naturais da fronteira. Ao mesmo tempo, a partir dessa mudança íntima, esse homem também é capaz de transformar a selva que o cerca. O cruzamento entre essas transformações de dentro e de fora gera o produto americano.

Portanto, nós temos aqui a ideia da fronteira como esse lugar espiritual de concepção e nascimento do caráter e, por que não, do mito americano. Dessa forma, a expansão para o oeste não se torna apenas um processo de conquista, mas também um processo de formação nacional. Não é nunca um lugar geograficamente específico, mas uma série de lugares e de tempos, já que a expansão continental estadunidense durou várias décadas.

Red River e Bend of the River
À esq: Montgomery Clift e dez mil cabeças de gado em Rio Vermelho; à dir: James Stewart em E O Sangue Semeou A Terra.

A expansão enquanto divina providência

Embora a expensão tenha sido acima de tudo um projeto político, especificamente ela se pautou por um desejo de melhores condições de vida. Enquanto Turner define isso como uma “demanda por terra e amor pelo lugar selvagem”, há de se considerar que muitos migrantes saíam de suas terras simplesmente pela insustentabilidade de suas existências naquele espaço.

Em Rio Vermelho (Howard Hawks, 1948), por exemplo, vemos a tour-de-force dos personagens de Wayne e Clift em cavalgar quase dois mil quilômetros com dez mil cabeças de gado, pois os recursos naturais de sua terra – no Texas – haviam se esgotado. Em E o Sangue Semeou a Terra (Anthony Mann, 1952), James Stewert faz ainda mais: acompanha um grupo de pioneiros numa jornada de mais de três mil quilômetros entre Missouri e Oregon.

Essas histórias se passaram no século XIX e obviamente não haviam meios de comunicação tão eficientes quanto à posteriori. Essas jornadas, como os próprios filmes muitas vezes mostram, eram realizadas com base em pura crença e boatos. Na perspectiva da crença, o oeste se estabelece, portanto, como esse lugar paradisíaco, repleto de novas oportunidades.

Tal como os israelitas seguindo o profeta Moisés para uma terra de abundante leite e mel, os pioneiros norteamericanos arriscavam suas vidas e de suas famílias, deixando para trás a devastidão da fome e da miséria. Suas jornadas duravam meses. Seus animais definhavam pelo caminho. Suas crianças e seus velhos eram acometidos por doenças. As trilhas pelas quais seguiam muitas vezes tinham sido abertas apenas uma vez, por comerciantes de peles que ali passaram alguns anos antes.

Pela inevitabilidade dos perigos, que eram conhecidos, temos a dimensão do desamparo dessas pessoas em suas terras de origem. Seria necessário um paraíso de fato para que se arriscassem a fazer uma viagem tão custosa. O governo estadunidense incentivava a expensão, através de leis aprovadas Washington que concediam territórios gratuitamente para quem desejasse produzir neles. Foram os chamados Homestead Acts.

Um dos motivos dessas concessões está ligado ao fato de muitas terras ao oeste não serem reconhecidamente parte do território americano. Havia disputa de terras principalmente entre França, Espanha, Rússia e Estados Unidos. O governo americano acreditava, portanto, que a maneira mais fácil de anexar esses territórios era colocando famílias americanas naquele espaço. Essa disputa foi ainda mais acirrada no território de Oregon (região da costa oeste que faz divisa com o Canadá), cuja concessão de territórios começou ainda antes dos Homestead Acts dos anos 1860.

Dessa forma, entre os anos 1840 e 1860, houve uma migração em massa para Oregon. Além das concessões de terra, havia uma trilha que ligava o centro-oeste à costa do pacífico, o que proporcionava a viagem de vagões. Estima-se que 400 mil pessoas tenham percorrido esse caminho, em busca das mais de 7 mil concessões realizadas naquele território. A trilha apenas caiu em desuso com o advento da ferrovia, que costumeiramente representada como símbolo para o fim do velho oeste.

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À esq: mapa representando o caminho percorrido pela trilha, pontilhado de azul; à dir: o Rio Snake, usado pelos viajantes da trilha.

A trilha de Oregon

A história da trilha de Oregon costuma começar com a expedição do general Montgomery Pike para a região de Louisiana, recém-comprada por Thomas Jefferson dos franceses. Boa parte do território foi cedido pela Espanha para Napoleão alguns anos antes. O Império Francês, então, negociou os quase um milhão de km² pela bagatela de 15 milhões de dólares ($309mi em valores ajustados).

Inicialmente, Pike definiu as regiões das Grande Planícies (uma faixa de território extensa que cruza o centro dos Estados Unidos) como um deserto. Isso fez com que durante os anos seguintes, poucos ousassem cruzá-las. Anos depois, relatos de comerciantes de peles vindo do Oeste começavam a narrar as maravilhas da costa do pacífico.

Por volta de 1935, um grupo de missionários liderados por Marcus e Narcissa Whitman ruma para o Oeste, na companhia de homens das montanhas (como eram chamados os guias da época), com o objetivo de converter os nativos para a religião protestante. Após estabelecerem uma missão em Oregon, o grupo manda notícias em direção ao leste, instando que famílias brancas e protestantes fizessem a jornada e se instalassem no território.

A partir daí, grupos progressivamente maiores de pessoas passam a fazer a viagem. Em 1841, poucas dezenas de pioneiros se aventuram pela trilha. No ano seguinte, mais de 100 pessoas foram pela mesma rota, tendo inclusive encontrado Whitman durante o trajeto.

Vale observar que a trilha de Oregon é o caminho que conecta o rio Missouri, no centro do continente, em direção noroeste até a costa do pacífico, fronteiriça com a região do Canadá. Mas grande parte do mesmo trajeto foi utilizado por exploradores e pioneiros que rumavam em direção a costa sudoeste, na California. Portanto, a trilha proporcionou o acontecimento de vários movimentos migratórios norteamericanos, inclusive tendo desempenhado papel importante na corrida do ouro californiana.

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Letreiros iniciais de O Atalho, que indicam o lugar e o tempo em que a história passa.

Stephen Meek

Por volta dessa época a família Whitman teria encontrado também Stephen Meek, um notório comerciante de peles que estabeleceu residência em Oregon naquele tempo, e teria sido um dos primeiros a explorar aquela região. Em 1845, um grupo de pioneiros, prestes a realizar a trilha de Oregon, foi informado que nativos das tribos Walla Walla e Cayuse poderiam atacar colonos próximo das Montanhas Blue. A cordilheira era o último obstáculo a ser cruzado antes do destino final.

Em razão desses boatos, o grupo decide contratar Stephen Meek, cuja fama de conhecedor daquela região era notória entre os viajantes. Em dado momento da viagem, cerca de 200 vagões contendo mais de 1000 pessoas deixam a trilha principal e partem com Meek para o deserto de Oregon, onde o guia indicou a existência de um atalho para chegar a cidade de The Dalles, que marcava o fim da trilha.

Segundo o que se sabe, o caminho ainda não havia sido percorrido por vagões. Na medida em a trilha se tornava mais tortuosa, os já conhecidos infortúnios caíam sobre os viajantes. Enquanto pessoas eram acometidas por febre e exaustão, a comitiva era obrigada a percorrer caminhos absurdos, como quando tiveram de mover mais de mil pedras a fim de percorrer uma subida de 300 metros pelas montanhas, em direção ao coração do deserto de Oregon.

Lá chegando, de acordo com diários dos pioneiros, alguns integrantes da comitiva viram, na expressão de Meek, um olhar de perplexidade, como se ele tivesse vendo aquelas terras pela primeira vez. Por desconfiança de seu guia, pelas adversidades encontradas pelo caminho e especialmente por causa dos mortos que tiveram de deixar para trás, a comitiva foi afligida por conflitos internos, que culminaram na separação dos dois grupos em algum ponto do caminho.

Já visto com extrema desconfiança, Stephen Meek viajou com o grupo menor, que continuou a rumar em direção ao oeste.

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À esq: a comitiva que seguiu com Meek; à dir: Thomas escreve no tronco de árvore a palavra “perdidos”

O Atalho

Como vimos, a história de O Atalho é baseada em acontecimentos reais. “O Atalho de Meek”, em tradução literal do título original, é um fato histórico mais ou menos conhecido para os estadunidenses. Com o material à minha disposição, não me foi possível confirmar se o filme é fiel na quantidade de pessoas que seguiu junto de Meek após a separação da comitiva. De qualquer forma, no filme, somos colocados de forma abrupta na ação, acompanhando o pequeno grupo, formado de três vagões e oito pessoas, enquanto cruzam um rio.

Kelly Reichardt faz valer o rótulo de slow cinema que lhe foi diversas vezes conferido. Durante os primeiros cinco minutos, vemos, com câmeras estáticas, uma série de sequências que narram a travessia. Antes que os personagens reiniciem a caminhada, Thomas Gately (interpretado por Paul Dano) entalha num tronco seco de árvore a palavra “lost”. No prólogo, a cineasta além de apresentar o ritmo do filme, contextualiza-o narrativamente.

Na verdade, apesar de sentirem-se perdidos, os personagens parecem estar no caminho correto. Na esmagadora maioria dos momentos em que caminham, o fazem da direita para a esquerda. Movimento claro e direto que representa a direção literal para onde vão, mas também a manifestação simbólica do papel político que desempenham: qualquer comitiva de estadunidense que ruma ao oeste contribuí para a expensão continental dos Estados Unidos.

Mas apesar de estarem apoiados pelo projeto expansionista norteamericano, fato é que os pioneiros tinham que realizar essa migração muitas vezes sozinhos. Interessa a Reichardt buscar, de alguma forma, registrar o espírito de seus personagens, quebrantados cada vez mais na medida em que o horizonte não termina em se ilimitar. Como mencionei, a própria configuração da grande comitiva de milhares de pessoas nesse pequeno grupo de apenas oito se deu através de conflitos internos. Dentro do pequeno grupo, os conflitos permanecem.

O principal deles diz respeito a Meek. Os colonos definitivamente não creem mais na capacidade do velho comerciante de peles em levá-los até o fim da trilha de Oregon. De noite, conspiram em enforcá-lo. Ao mesmo tempo, mesmo com extrema desconfiança, sabem que o guia pode ser a única esperança de sobrevivência.

Enquanto os colonos viram-se contra Meek, a natureza vira-se contra eles todos. Existe uma materialidade evidente quando as carroças percorrem o chão. O design sonoro e trepidação dos carros demonstram a tremenda dificuldade que uma ação tão simples quanto seguir em frente pode carregar. Numa das cenas, o pequeno Jimmy vai na frente da comitiva, retirando as pedras do caminho. Em outra, lá pelo início do filme, Emily Tetherow (Michelle Williams, frequente colaboradora de Reichardt) joga da carroça, por ordem do marido, um relógio e uma cadeira, a fim de liberar peso do veículo.

Mais uma vez, a visualidade construída pelo filme dá conta do aspecto narrativo (pois largar coisas – até mesmo cadáveres – pelo caminho era atitude comum na trilha de Oregon) e ao mesmo tempo denota o caráter simbólico da cena. A câmera estática enquadra Emily de frente, com o fundo da carroça em segundo plano. Quando ela joga os objetos, eles desaparecem do quadro. Depois, ela mesmo desaparece, indo para a frente do veículo – e fora, portanto, do enquadramento. Na medida em que o carro anda, os objetos voltam a aparecer, despejados pelo chão.

Dessa forma, Reichardt e Christopher Blauvelt (diretor de fotografia que assina todos os filmes de Reichardt desde aqui) conseguem potencializar essa ação essencialmente imigrante de abandonar a vida anterior durante a jornada. Mostram que uma trilha não é apenas um caminho que se percorre para chegar a um lugar, mas os rastros que se formam daquilo que é deixado para trás.

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As mulheres de O Atalho, isoladas das decisões.

O Atalho e o feminino

Uma outra questão de contundência em O Atalho está na deslocação de protagonismo. Reichardt e Jonathan Raymond (roteirista, que escreveu 5 dos 7 filmes da diretora), abalam o arquétipo de masculinidade dos westerns, investindo a personagem de Michelle Williams com algumas de suas qualidades. Emily Tetherow é impávida, silenciosa e decidida. Ao mesmo tempo, Emily vive em 1845, e parece forjar, em parceria com o esposo, uma espécie de farsa a fim de manter as aparências. Em público, Emily é devota e submissa. De noite, Soloman Tetherow reporta a ela tudo que se passou durante o dia, e quais decisões foram ou não tomadas.

Isso porque o processo de decisão em O Atalho é essencial e exclusivamente masculino. Quando ponderam sobre continuar viajando por mais algumas horas, ou para qual direção seguir após encontrarem água não potável, todos os homens se juntam e debatem sobre qual decisão tomar. As mulheres não participam das negociações e, por vezes, estão bem distantes, de maneira que não podem nem sequer ouvir o que está sendo conversado.

É aí que uma dimensão quase mágica se manifesta na história: de longe, no topo de um desfiladeiro, é Emily quem vê pela primeira vez o índio. Depois, enquanto as mulheres estão sozinhas no acampamento, Emily encontra o índio mais uma vez, dessa vez de perto. Existe um magnetismo que atraí esses dois personagens um ao outro, a despeito de qualquer animosidade e preconceito. Reichardt parece querer estabelecer alguma relação entre cada um desses papéis – o índio e a mulher – na expansão ou na formação do Estado americano.

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Emily enxerga o índio pela primeira vez.

Essa relação que se estabelece entre Emily e o índio é a grande disrupção do filme. No início, a desconfiança era relegada a Meek, ao ponto dele ter estado próximo de ser enforcado pelos homens do grupo. Após sua chegada, o índio absorve para si os equívocos do guia e torna-se ele mesmo o novo motivo de dúvida: ainda que tenha celebrado um contrato com os colonos (levá-los até a água em troca de um cobertor), ele cumprirá o acordo ou os guiará até uma emboscada?

Ao longo do trajeto, Emily demonstra compaixão pelo índio. Dá o que comer, costura suas botas. Diz que o faz para que o índio esteja lhe devendo alguma coisa, indicando temê-lo de alguma maneira. Mas a todo momento o filme os dispõe frente a frente. Enquanto o índio é confrontado por qualquer coisa, ele sempre olha para Emily e Emily sempre olha para ele. Se antes de se encontrarem, parecia haver curiosidade, agora o sentimento se tornou o da cumplicidade.

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O índio olha para Emily; Emily olha para o índio. A atração quase magnética de um pelo outro.

Pouco a pouco, os integrantes do grupo passam para o lado de Meek, exigindo o assassinato do índio. Solomon mantém-se inflexível. Quando chegam de frente a um morro, o índio começa a gesticular e falar em sua língua nativa. Todos olham atônitos, mas Emily atesta: o índio está dizendo que a água está logo depois do morro. Aqui, a cumplicidade proporciona o entendimento do outro.

Quando logo depois disso um dos vagões se parte, o índio sorri discretamente. Existe uma dimensão de personagem aqui, junto de outras tantas ao longo do trajeto – a religiosidade desenhada nas pedras, a reza quando William White fica doente de exaustão – que conferem humanidade ao personagem, ainda que do ponto de vista da alteridade. Não teremos como compreender o índio totalmente, pois não somos ele. Ao fuçar nos objetos que pertenciam aos Tetherow, Meek perde a paciência e fica prestes a matá-lo. Reconhece, no medo do índio de morrer, a humanidade dele pela primeira vez, embora ela sempre tenha estado lá.

É aí que Emily se rebela definitivamente, e aponta sua espingarda na direção de Meek. Reichardt claramente emula um clichê dos faroestes aqui (mais notoriamente, talvez, Três Homens em Conflito, de Sergio Leone (1966). Porém, com a potência que ela mesma trabalhou pra consolidar seu próprio universo dentro dessa esfera de gênero, esse duelo está investido de certa modulação. Ele vem acompanhado de algo de ultrajante, algo de revelia. Uma mulher aponta uma arma contra um homem branco, para defender a vida de um índio. Mesmo Solomon, que fora compreensivo dentro dos limites aos quais estava acostumado, foi obrigado a reconhecer a ousadia na esposa. “Mas você está colocando sua confiança nele [no índio]”, ele diz para a esposa, a sós, com indignação. Mesmo o benfeitor passa agora a questionar as boas intenções do índio, embora esteja de mãos atadas pelo compromisso com as aparências que firmou com a mulher.

No momento do conflito, o mais próximo que O Atalho chega de um clímax, Meek sorri amarelo e diz a Solomon que Emily tem “um pouco de sangue indígena nela”. O que era cumplicidade passa agora a uma intimidade de carne, de sangue, de corpos. Como se o constante atrito que Emily desenvolveu com Meek tivesse forçado a mulher a se aproximar, a entender e finalmente a pertencer ao índio, não por paixão, mas pela mais mancomunada das empatias.

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À esq: o duelo entre Emily e Stephen; à dir: a árvore da vida – a comitiva encontra-se próxima de seu destino.

O Atalho e fronteira como religiosidade

Como mencionei anteriormente, a ideia de migrar para o oeste, por causa do significado dessa migração, costuma estar acompanhada da ideia de terra prometida. Os próprios signos visuais geralmente associados com o território de Oregon ajudam a consolidar essa dimensão paradisíaca da região. Mesmo em O Atalho, Meek faz referência a essa questão quando diz: “A terra para onde vão é um verdadeiro segundo Éden”, fazendo menção ao jardim bíblico onde vivia a humanidade antes da corrupção do Homem.

Por esse motivo, a jornada se estabelece como uma provação. Uma jornada como a retratada pelo filme de Reichardt, por sua vez, um verdadeiro purgatório. Por estarem perdidos no meio do deserto, com essa bagagem sentimental voluptuosa que incluí esperança (de chegar ao destino), arrependimento (“nós nunca deveríamos ter deixado o caminho principal”, “nós deveríamos ter pego mais água”, Emily se lamenta pelo caminho) e desprezo (por Meek), os personagens têm a impressão de estarem presos naquele lugar.

A jornada, que naquele ponto deveria durar duas semanas, tornou-se cinco, sem que eles tivessem cruzado por nenhuma montanha. Possivelmente, para retratar a contradição de se estar preso num deserto, Reichardt tenha optado por filmar em 1.33, a tela quadrada. Dessa maneira, os personagens são constantemente sufocados pela limitação do quadro. Tampouco interessa as paisagens, ainda que bonitas e amplas. Ela não causa admiração naquelas pessoas, apenas as oprime.

Depois de cruzar a montanha, temerosos de encontrarem uma emboscada arquitetada pelo índio, a comitiva se depara com uma árvore. A associação livre com a árvore da vida parece óbvia, direta. Mesmo com a descrença dos presentes, aparentemente a terra prometida está muito próxima, logo depois de um morro. Enquanto a comitiva pondera se continua em frente ou não, dessa vez e pela primeira, com participação das mulheres, o índio encontra-se distante. Quando todos se viram para Meek a fim de que ele tome a decisão, o guia delega a responsabilidade a Emily.

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Cena final de O Atalho: Emily olha uma última vez para o índio, enquanto ele se afasta.

Ao final de O Atalho, Emily, cercada pelos galhos da árvore que lhe indicam que a prosperidade está muito próxima, olha para o índio. Ele, por sua vez, encontra-se isolado no quadro, cercado apenas pelo vazio das terras que muito em breve deixarão de ser suas. Quando Emily olha de novo, o índio começa a se afastar. As portas da terra prometida fecham para ele com a mesma velocidade que abrem-se para os colonizadores. A alteridade entre Emily e o índio ergue-se novamente entre os dois. O pertencimento mútuo é mais uma daquelas coisas, dentre tantas, que ficaram pelo caminho. Assim como o homem original bíblico, o índio é condenado a vagar pelo mundo, expiando pecados que não são seus. Enquanto ao homem branco fica a glória da herança do paraíso na terra, forjada pelo sangue e pela lágrima de quem já havia herdado aquele lugar muito antes.

Obras citadas

Mad Men (2007), Mathew Weiner; The Significance of Frontier in American History (1893), Frederick Jackson Turner; Rio Vermelho (Red River, 1948), Howard Hawks; E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River, 1952), Anthony Mann; Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966), Sergio Leone.

Guilherme Bakunin

Cinéfilo desde os dezesseis anos, graduado em Artes e Cinema desde os vinte e quatro. Não sei se estou vivendo ou apenas lamentando constantemente o falecimento de Edward Yang.

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