Mãe Solteira: ou como Ida Lupino tomou Hollywood de assalto

Oficialmente tido como o último filme de Elmer Clifton, Mãe Solteira (1949) é, na verdade, a estreia de Ida Lupino na direção. 3 dias após o início das filmagens, Clifton teve uma série de infartos e foi obrigado a afastar-se. Mãe Solteira é um filme independente, o primeiro da recém-criada Emerald Productions (que mais tarde passaria a se chamar The Filmakers), produtora fundada por Ida Lupino e seu então marido Collier Young. Como o orçamento era extremamente baixo (estimado em 150 mil dólares), a produção não podia parar. Lupino, que passou alguns anos afastada dos filmes por recursar papéis que considerava aquéns de sua capacidade, apropriando-se desse tempo para absorver conhecimentos técnicos ligados à produção cinematográfica, assumiu o comando da produção.

À primeira vista, salta aos olhos o fato do filme abordar um tema considerado tabu décadas atrás: o sexo antes do casamento. Todas as sinopses indicam que o filme acompanha uma jovem que engravida após um caso com um pianista e é obrigada a doar o bebê. Quem já o assistiu sabe, porém, que o parto só acontece a partir dos últimos vinte minutos de metragem. A entrega do bebê para adoção, a partir dos quinze minutos finais. A descoberta da gravidez, apenas com quase uma hora de filme. Antes de tudo, Mãe Solteira busca observar uma jovem a tomar decisões ruins que culminam em sua ruína moral.

Isso não quer dizer que não seja um filme provocante, pelo contrário. Sally Kelton, assim como grande parte dos personagens de Lupino, é inquietantemente indecifrável. Ela é ao mesmo tempo distraída e profundamente perspicaz, bastante ingênua, mas eloquente, inconsequente em muitas escolhas, mas ponderada em tantas outras. Ela trabalha num restaurante/casa noturna para ajudar os pais a pagar as contas, mas parece profundamente desajustada do convívio familiar. Se apaixona por um pianista errante como, se através dessa relação, pudesse escapar momentaneamente da sua comunidade, tão prosaica, tão recatada, tão interiorana. Mas Sally sente a paixão real de qualquer maneira, e se entrega de corpo e alma ao pianista, sem pesar as consequências.

not wanted ida lupino
O noir timidamente penetrando no melodrama Mãe Solteira.

Porém, o que mais estimula os sentidos em Mãe Solteira é seu conjunto cinematográfico, inventivo e profundamente eficaz. Ida Lupino nunca foi dada à prolixidade – curiosamente seu filme mais fraco é também o mais longo, Anjos Rebeldes (1966) – e por isso mesmo seus filmes são acelerados, mas sem prejuízos à história. A bagagem imagética da cineasta é riquíssima, desde o enquadramento escolhido nos planos e contraplanos mais básicos, até as cenas potentes em termos poéticos, por assim dizer. Quando Sally pergunta a Steve se ele sentirá sua falta, há uma longa pausa, enquanto ele passeia a mão sobre o rosto dela. Embora simples, o afago que precede o hesitante “sim” de Steve entrega que o garoto sempre esteve superficialmente interessado em Sally em razão de sua beleza.

Lupino e a expressão multi-gênero

Falando de cenas com potencialidades poéticas, há duas que se destacam. Quando Sally se entrega a Steve, naturalmente o filme não poderia exibir o ato sexual, mesmo que numa sugestão levemente evidente. Por isso, Lupino emprega uma série de planos para dar conta da mensagem. Steve se aproxima do rosto de Sally, em close, e estende o braço, pousando-o sobre o tronco de uma árvore. A câmera segue o movimento do pianista, e para, até quando ele joga o cigarro para longe. Então, corta para um plano do lago, onde o cigarro segue com a correnteza enquanto a câmera o acompanha. A imagem funde-se demoradamente com a de um relógio parcialmente encoberto por sombras, dentro da casa de Sally, onde as horas marcam além da cinco da manhã e finalmente corta para o rosto da mãe acordada e deitada na cama, com uma vultosa marca de suas lágrimas no travesseiro.

not wanted ida lupino
Frames retirados da cena em que Sally se entrega a Steve, em Mãe Solteira.

Interessa aqui algo que está muito além da mensagem – pois esta poderia ser perfeitamente entendida com a fusão do primeiro e do último plano. Existe, acima de tudo, um apego estético da diretora debutante, dignificando e potencializando vários momentos para apreciação visual do espectador. Algo tão impactante ocorre também na cena do parto, que começa com um plano muito aproximado do rosto aflito de Sally, justapondo-o a um longuíssimo plano subjetivo em travelling onde são enquadradas as paredes da maternidade, enquanto a maca anda até a sala de parto. Lá chegando, a câmera se afasta do corredor e da porta, que é imediatamente fechada por uma enfermeira. Finalmente, o parto é filmado todo com a visão subjetiva da personagem, observando o médico e enfermeiros à contra luz, enquanto a imagem desfoca-se continuamente através dos planos e da intensa fonte de luz.

Além de ser visualmente exuberante e de dar conta dessa profusão mental altamente aflita e confusa do parto solitário daquela jovem, a cena oferece tons de terror e/ou ficção científica, numa rara demonstração de genre bending dos anos 1940. Isso nos ajuda a começar a compreender o vanguardismo de Ida Lupino, cuja própria existência dentro de um contexto tão essencialmente masculino parece inexplicável. Ela, que começou como atriz relegada a personagens ingênuas e provocantes ainda com 14 anos de idade, buscou interpretar papéis sérios e substanciais, muitas vezes comprometendo sua própria carreira em função disso.

not wanted labor scene
Frames retirados da cena de parto de Mãe Solteira.

Mas suas qualidades performáticas eram grandiosas, tendo ela mesmo vindo de uma família que há séculos trabalhava com entretenimento. Aos poucos, galgou seus estrelato em Hollywood, tendo participado de filmes como Dentro da Noite (1940), de Raoul Walsh, um dos trabalhos que ajudou a popularizar o cinema noir em suas origens. Com o sucesso de Dentro da Noite, Ida Lupino conseguiu mais frequentemente papéis interessantes, especialmente junto à Warner Bros., com filmes como Seu Último Refúgio (1941) e É Difícil Ser Feliz (1943). Mesmo assim, o temperamento explosivo da atriz fazia com que ela entrasse em conflitos constantes com a produtora. Depois de sair da Warner em 1945 e divorciar-se de Louis Hayward no mesmo ano, Lupino permaneceu atuando, sem contrato, em diversas produções.

Lupino e o pioneirismo

Após o casamento com o produtor Collier Young, Lupino e o marido fundaram a Emerald Productions, que viria a produzir a maior parte de seus filmes. Ainda que sua atuação como diretora em Mãe Solteira tenha sido acidental, como ela mesmo disse em algumas entrevistas, seu talento por trás da câmera ficou evidente, e entre 1950 e 1953 ela iria dirigir cinco longas, além de participar da realização de um sexto1. Em 1950, Lupino se tornou apenas a segunda mulher a ser sindicalizada pelo Sindicato dos Diretores, a única a estar em atividade naquele momento. Mais do que mero pioneirismo, sua meteórica carreira como realizadora é marcada por uma inequívoca autoralidade.

Seu cinema, a exemplo de Mãe Solteira, se ocupa em retratar personagens complexos e ambíguos, busca protagonismo ou ao menos extrema relevância feminina, e contém temas sociais delicados para a época. Sob a perspectiva de suas marcas, sua obra-prima sem dúvidas é O Bígamo (1953), onde um homem possui relação matrimonial com duas mulheres em estados diferentes. O filme reúne todos os traços característicos de Lupino, modulando-as num melodrama ambíguo e desconcertante.

Nem por isso seus outros filmes não ficam à altura. Peguemos por exemplo Laços de Sangue (1951), seu quarto longa-metragem. Estrelado por Sally Forrest, a mesma de Mãe Solteira, o filme conta a história da prodígio do tênis Florence Farley, progressivamente oprimida pelas ambições projetadas da mãe, que busca afastá-la do convívio das outras pessoas fazendo-a focar apenas no esporte. Talvez o menos inventivo de seus primeiros longas, mas ainda sim repleto de cenas memoráveis. O tema orquestrado por Lupino aqui (com roteiro escrito por Martha Wilkerson) é a relação tóxica e abusiva da mãe com a filha, mais um ataque frontal da diretora ao conceito idealizado de família. Em Mãe Solteira, o berço familiar também se comporta como agente opressor sobre a vida da garota, embora neste a opressão seja bem mais moderada.

o bígamo e laços de sangue
À esq: O Bígamo, de 1953; à dir: Laços de Sangue, de 1951

Os dois filmes também refletem um aspecto de considerável importância no que tange a carreira de Lupino como diretora: sua juventude. Ela tinha apenas 29 anos quando lançou seu primeiro filme, 33 quando do lançamento de Laços de Sangue. Dessa forma, a condescendência relegada as suas heroínas pode ser vista como uma espécie de afago a si mesma, que ao longo dos seus 20 anos sofreu tanto nas mãos dos executivos de Hollywood, que buscavam encerrá-la em arquétipos que, para ela, não faziam sentido. Antes disso, durante sua pré-adolescência, era frequentemente escalada em papéis sensuais e provocantes. Até por isso, é edificante que, quando passou a produzir e dirigir filmes, Lupino criou personagens sérias e multifacetadas, dando oportunidades a atrizes que talvez, assim como ela, estivessem buscando tais papéis no cinema americano.

Em O Mundo Odeia-Me (1953), Lupino realiza uma espécie de transição. Seus filmes anteriores eram dramas intimistas protagonizados por uma personagem feminina. Aqui, não há personagens femininas e o drama dá espaço a um noir de estrada eletrizante, de apenas setenta minutos de duração. Baseado em casos reais, O Mundo Odeia-Me tem aquelas histórias fáceis de se introjetar no imaginário popular: um serial killer caroneiro. Filmado em locações reais na divisa com o México, o filme é extremamente sombrio durante as noites, com pontos intensos de luz iluminando apenas partes do quadro, e bastante sórdido durante o dia. Lupino consegue imprimir uma textura imunda e forte no filme, adequada para uma história que se passa num deserto, fazendo-o uma espécie de proto-versão-macabra de Frenesi (1972), de Alfred Hitchcock.

Sua frontalidade e objetividade demonstradas em O Mundo Odeia-Me seria comparada com seu posterior trabalho na televisão, onde Lupino permaneceria durante as décadas de 1950 e 1960, até sua aposentadoria do cinema. Antes disso, escreveu, produziu e dirigiu Quem Ama Não Teme (1950), narrando a história de uma dançarina que contraí poliomelite. Mantendo sua coesão filmográfica, Lupino cria aqui um melodrama pautado por uma questão social urgente, já que a vacina contra a doença só seria criada em 1955. Mais uma vez, a produção é encabeçada por Sally Forrest, que após uma atuação um tanto insegura em Mãe Solteira, parece mais amadurecida aqui. De maneira semelhante ao que fizera em seu filme de estreia, Lupino filma o cotidiano de uma instituição médica. Aqui, na verdade, há um tempo muito maior ao dia-a-dia da instituição, com Forrest interagindo com diversos pacientes, alguns dos quais eram realmente enfermos na vida real.2

quem ama não teme
À esq: cena gravada na instituição clínica em Quem Ama Não Teme; à dir: no mesmo filme, Carol Williams rompe com o noivo, por se considera um peso desnecessário em sua vida.

Lupino e a fragilidade da classe média americana

No entanto, não só há questão social une os melodramas da diretora. O grande ponto de convergência de seus quatro primeiros filmes é o tormento mental que as circunstâncias causam em suas heroínas. Feridas física e mentalmente, elas buscam se isolar daquilo que mais as conecta à sociedade. Em Mãe Solteira, por exemplo, após descobrir a gravidez, Sally abandona o noivo, pois não se vê como merecedora de seu amor. Em Quem Ama Não Teme, Carol Williams também busca desatar o noivado por motivos absolutamente altruístas, pois se considera um estorvo na vida pessoal e profissional de seu parceiro, Guy (coincidentemente, ambos os personagens são interpretados pelo mesmo ator, Keefe Brasselle). Essa noção de sacrifício pessoal está muito ligada à condição serviçal da mulher de classe média americana dos anos 1950. Qualquer elemento disruptivo ao roteiro tradicional para o qual elas foram criadas, por menor que seja, parece insuportável demais para ser lidado. Felizmente, as as heroínas de Lupino são recompensadas com ex-machinas no final, não sem antes completarem suas jornadas de maneira independente – pois para a diretora, antes do amor ao homem, deve-se encontrar o amor e o valor em si mesma.

Mas talvez, o filme de Lupino que mais ressoe para audiências contemporâneas seja O Mundo é Culpado (1950), uma obra concentrada no retrato de uma jovem antes e depois de um estupro. Martin Scorsese em A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995) o define como “o maior pesadelo de uma mulher, não como melodrama, mas como um discreto estudo de comportamento que capta a banalidade do mal numa pequena cidade comum.” Em uma das cenas após ser violada, Ann Walton (Mala Powers) é questionada sobre a fisicalidade do seu agressor e entra em desespero. A lembrança fere-lhe como facadas enquanto ela se agarra à cabeceira da cama, de grades negras, como as portas de uma prisão. O tormento mental é o seu castigo, e a lembrança perpétua do estupro é sua danação. O garota de classe média, bem educada, que estava prestes a se casar, vê seu mundo despencar quando a mais abominável das maldades lhe aflige.

Talvez o comentário de Scorsese passe por aí, por essa ideia dos filmes de Lupino de que as sociedades baseiam-se em noções profundamente frágeis e efêmeras, podendo ruir num piscar de olhos. Assim foi com a própria diretora. Depois de sucessos consideráveis atrás das câmeras, bastou um fracasso na bilheteria (com O Bígamo) para que sua vida profissional e pessoal descarrilhasse. Entre divórcios, idade e falências, Lupino encontrou refúgio na TV, onde dirigiu, de maneira prolífica, séries de bastante sucesso até sua aposentadoria, no final dos anos 1960. O encerramento de sua vida profissional foi melancólico, marcado pela depressão e pelo abuso de substâncias.

o mundo é culpado
A jovem Ann Walton, momentos antes de ser atacada, e depois, desfalecida na cama em O Mundo É Culpado.

Lupino e o apagar das luzes

Quando recebeu a oportunidade de dirigir a produção Anjos Rebeldes, um filme de grande orçamento para a época, Lupino sentiu que sua sorte poderia mudar. Apesar do sucesso nas bilheterias, a presença de Lupino na produção ficou mais marcada pelas fofocas que gerou. Boatos dizem que Rosalind Russell teria solicitado que a diretora fosse demitida, pois vivia se embriagando no set. William Frye, o produtor, insistiu em Lupino e segundo dizem, ela não voltou a beber até que as filmagens terminassem. É lastimável que a carreira da cineasta mais interessante do cinema americano até então terminasse dessa maneira. No entanto, é no mínimo compreensível. A intrepidez de Lupino poderia durar até certo ponto. Décadas e décadas sendo subjugada por executivos, que a exploravam quando adolescente e a menosprezavam quando adulta, casamentos falidos e a importunação constante da imprensa finalmente fizeram-lhe não suportar.

Independentemente disso, sua memória segue viva em seus sete longa-metragens, obras de qualidade singular, que apropriaram-se das trevas do cinema noir para observar atentamente chagas sociais cuja relevância permanecem até os dias de hoje. E que, mais do que isso, com seus dispositivos narrativos e suas inventividades imagéticas atestam o talento incomum de uma mulher que aos 14 anos de idade cruzou o oceano atlântico e foi parar nos Estados Unidos para aprender e viver de tudo sozinha.

ida lupino director
Ida Lupino dirigindo em dois momentos de sua carreira: nos anos 1950, à esquerda, e em Anjos Selvagens, em 1966, à direita.

Obras citadas

Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Elmer Clifton; Anjos Rebeldes (Trouble With Angels, 1966), Ida Lupino; Dentro da Noite (The Drive By Night, 1940), Raoul Walsh; Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941), Raoul Walsh; É Difícil Ser Feliz (The Hard Way, 1943), Vincent Sherman; Cinzas Que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), Nicholas Ray; O Bígamo (The Bigamist, 1953), Ida Lupino; Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful, 1951), Ida Lupino; O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953), Ida Lupino; Frenezi (Frenzy, 1972), Alfred Hitchcock; O Mundo é Culpado (Outrage, 1050), Ida Lupino; A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995), Martin Scorsese, Michael Henry Wilson.

Notas

  1. Dirigido por Nicholas Ray, Cinzas Que Queimam (1951) é uma espécie de díptico: sua primeira parte é um noir urbano sombrio, que segue as desventuras de Jim Wilson, um policial sem escrúpulos que começa a entrar numa espiral de loucura em razão dos crimes que encontra pela frente. Na segunda parte, o filme permanece cinzento, mas é bem mais cadenciado ao narrar o exílio de Wilson em uma casa de campo, onde o policial tem a companhia de Mary Malden, uma garota dócil e cega. Malden é interpretada por Lupino, que assumiu a direção da produção durante vários dias enquanto Ray esteve doente. Por esse motivo, ela é frequentemente citada como co-diretora do filme, embora oficialmente sua função tenha sido apenas a de atriz.
  2. Em diversos momentos de interação e convício coletivo entre pacientes, o filme lembra Paixões Que Alucinam (1963), obra-prima de Samuel Fuller. O filme de Fuller, no entanto, é um registro catártico e sombrio de instituições maniconiais, enquanto o olhar dado a Lupino à clínica de tratamento de pólio é bastante prosaico. As semelhanças, portanto, são pequenas.

Guilherme Bakunin

Cinéfilo desde os dezesseis anos, graduado em Artes e Cinema desde os vinte e quatro. Não sei se estou vivendo ou apenas lamentando constantemente o falecimento de Edward Yang.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *