M. Night Shyamalan e sua ressurreição na Blumhouse

Independentemente dos motivos, é inegável que a parceria de M. Night Shyamalan com a Blumhouse Productions reergueu, comercial e criticamente, a carreira do diretor indo-americano. Após três produções entre 2015 e 2019, Shyamalan se viu pronto para encerrar a próspera aliança, e já tem dois filmes engatilhados com a Universal.

De um ponto de vista particular, vejo a carreira de Shyamalan como sólida, arrojada e de altíssima qualidade. Com Sexto Sentido (1999), Corpo Fechado (2000) e Sinais (2002) temos a ascensão e estabelecimento desse cineasta comercialmente bem-sucedido, e que fez os corações e mentes dos críticos dispararem. A Vila (2004) é possivelmente a grande ruptura em sua filmografia, um filme quase radical. Faz romper os laços do diretor com a produção crítica dos Estados Unidos. Inicia, para alguns, a derrocada definitiva de sua carreira. Para outros, uma etapa onde vai explorar de maneira um tanto rebelde os alicerces de sua produção cinematográfica.

Se A Dama na Água (2006) e Fim dos Tempos (2008) parecem fracassos retumbantes para uns, para outros ajudaram a solidificar a persona de Shyamalan como essa figura maldita, ainda que benquista por críticos, especialmente os europeus (ver Dirigindo no Escuro, 2002). Em seu pior momento, realizou filmes por encomenda. O Último Mestre de Ar (2010) e Depois da Terra (2013) marcam aquilo que parecia o fim categórico do cineasta. Poucos críticos permanecem em sua defesa. Mesmo seus fãs mais apaixonados – dentre os quais seguramente me incluo – são obrigados a concordar que, embora carregado de boas ideias, esses dois filmes estão num território muito aquém da capacidade de seu realizador.

Dessa maneira, a colaboração entre Shyamalan e Jason Blum vem carregada de significado. Trabalhando aos moldes da produtora, o diretor investe em filmes de baixo (baixíssimo, no caso de A Visita, 2015) orçamento. Além disso, retoma para o espectro do terror/suspense, de onde saiu desde A Vila (embora Fim dos Tempos tenha elementos desses gêneros, é bom dizer). O resultado é um custo de produção acumulado de 34 milhões de dólares e uma arrecadação de 622 milhões. Além disso, uma reconciliação – ainda que tímida – com a crítica norteamericana.1

Ainda, podemos observar como o diretor parece se apropriar de alguns elementos estruturais dos filmes da Blumhouse: a questão do found footage em A Visita e Vidro (2019) são absolutamente fundamentais, por exemplo. E nos três filmes o espaço é praticamente único, explorado com diligência. Sigamos para cada filme e, então, faremos uma análise mais conjuntural desse momento na filmografia de Shyamalan.

a visita, m night shyamalan, 2015
a visitBecca entra no forno a pedido de sua nana em A Visita

A Visita

Shyamalan sempre foi um diretor bastante formalista e por isso o movimento feito aqui chama atenção: esse é um found footage e, portanto, todas as imagens que vemos são gravadas por um personagem dentro da ação. Quase que num processo de autoexpiação, o cineasta abre mão de suas qualidades formais, abraçando uma estética visual que é, na superfície, mais improvisada. É interessante porque, ao longo da curta história do subgênero terror found footage, não temos nenhum diretor do calibre de Shyamalan – um autor – se apropriando desse dispositivo.2

E o aspecto autoral faz toda diferença. Porque A Visita é tanto uma obra autoexpiatória de Shyamalan que seu alter ego na história (Becca) filma para curar a relação de sua mãe com seus avós. Indo mais além, Becca certamente também filma para curar a sua própria relação com seu pai. Dessa forma, o filme é tanto em processo (ato de filmar) quanto em resultado (o corte final) essa entidade de superação – uma questão absolutamente transversal a todos os filmes do diretor.

Essa questão é trabalhada em uma obra que é suspense e terror mas, acima de tudo, de comédia negra. Não apenas porque Tyler é esse personagem engraçado, mas porque mesmo as cenas mais assustadoras são permeadas por uma qualidade cômica, surpreendente à época. Pense na cena de esconde-esconde debaixo da casa. Nas duas ou três vezes em que Becca e Tyler abrem a porta apenas para ver a avó agindo como uma criatura animalesca. Ou na instantaneamente clássica cena Yahtzee. Em todos os casos, o humor é sequência imediata do terror, quando não está intercalado no mesmo.

Yahtzee!

Lembro-me que, em uma cena de Laranja Mecânica (1971), Alex passeia por um mercado de discos em que podemos ver uma edição em vinil da trilha-sonora de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968). Para muitos, essa cena indicava que Kubrick já não teria ninguém para referenciar a não ser a si mesmo. Exageros à parte, é interessante como o clímax de A Visita é tão claramente uma referência a Sinais, até pelos aspectos geográficos do espaço onde os filmes acontecem. Além disso, a história é conduzida da maneira semelhante, fazendo os personagens enfrentarem diretamente seus traumas para derrotar o iminente perigo.

Enquanto em Sinais essa condução é regida pelo divino, que vai fazer das características de Morgan e Bo veículos para a superação de Graham e Merrill, em A Visita parece ser uma outra coisa. Algo mais do que o acaso conveniente que faz as crianças se salvarem pelo espelho, no caso de Becca, e pelo desarme, no caso de Tyler. Talvez essa regência seja o próprio Shyamalan, que pela única vez em sua carreira (deixando de lado Olhos Abertos, 1998, e Praying with Anger, 1992) não faz uma aparição. Porque o filme parece permeado dessa farsa em ser o filme-dentro-do-filme.

Alguns planos não parecem diegéticos o bastante para terem sido realizados por Becca ou Tyler. Becca é vista editando um documentário ao longo do filme que acaba não sendo realizado. Naturalmente, o filme é e pretende ser um tradicional found footage. No entanto, parece carregado de um certo mistério, uma certa falsidade. Não se trata de algo irônico, pois ao longo dos últimos vinte anos o diretor foi frontalmente contra isso. É quase como que uma piscada, que embaralha um pouco a diegese do filme. E se há um tema central na colaboração entre Shyamalan e a Blumhouse, esse tema é a ficção versus realidade3.

Fragmentado

Fragmentado (2016) é o mais bem-sucedido dos três filmes dessa colaboração. Enquanto que A Visita exibia um pouco da noção “de volta às origens”, tão comentada na época, Fragmentado parece se encaixar melhor nessa descrição, pois Shyamalan abandona o found footage e volta a ter controle total dos elementos formais de seu filme. O que é ótimo, já que são poucos diretores por aí que sabem fazer o que ele faz.

O filme abre com um plano em efeito vertigo de Casey (Anya Taylor-Joy) numa festa de aniversário, indicando o quão dissociada a personagem está. Depois, temos um daqueles planos que se transformam de subjetivas para planos que enquadram o personagem (ou vice-versa) bem característicos do diretor: as três garotas e o pai de uma delas são enquadrados em travelling traseiro, até que, de uma hora para outra, a imagem torna-se a visão de Dannis (James McAvoy). Pouco tempo depois, as três garotas já se encontram em cativeiro. Pelas características do local e pelo fato de que Casey está em uma cama e as duas outras garotas em outra, de maneira bem clara elas encontram-se separadas, ainda que aparentemente juntas naquela situação.

Juntos, esses três planos somam 1 minuto e 1 segundo, mas carregam considerável significado narrativo e potência formal. Isso reverbera ao longo do filme, embora um pouco dessa potência se perca na medida em que a história progride. É um trabalho muito preocupado em causar sensações de incômodo e apreensão, utilizando-se de numerosa quantidade de ângulos, planos e jeitos de filmar para produzir essas sensações.

Por que você age como se não fosse uma de nós?

Em termos narrativos, a questão da bestialidade é óbvia, direta. Toda a ação se passa no porão de um zoológico. O grande vilão da história é uma entidade literalmente denominada A Besta. E o que ao longo da relação de Casey com suas amigas surge como sugestão, torna-se claro no final: ela também é uma fera. E como todas (no universo do filme), profundamente ferida por uma outra. Essa noção de duplo entre Kevin e Casey (em inglês pronuncia-se “KC”, que são as iniciais de Kevin Crumb) é o cerne da história, mas o fato de ambos os personagens terem flashbacks que ilustram a origem desse trauma é ainda mais significativo.

Igualmente importante, embora talvez um pouco menos central, é como Casey torna-se esse personagem que quebra com o clico do trauma. Pelo contrário: é salva pela sua chaga e apropria-se da experiência para libertar-se do cativeiro. Não o cativeiro físico em que permanece após a Besta deixá-la viva, mas o psicológico, pelo fato de morar com seu tio pedófilo abusador.

Ao final do filme, quando avisada por uma policial que seu tio havia chegado, Casey não responde, mas pondera: terá chegado a hora? Revelará finalmente a verdade, libertando-se do predador com quem é obrigada a conviver? Posteriormente, Vidro tornará a resposta óbvia, mas como na imagem imediatamente seguinte Shyamalan revela a escultura de uma fera sobre a outra, já poderíamos facilmente supor o que aconteceria.

fragmentado, m night shyamalan, 2016
As garotas olham Patricia por uma fresta em Fragmentado (2016)

Existe algo de religioso na Besta, como o diretor menciona em algumas entrevistas. Inicialmente, através das falas céticas da psicanalista, a Besta seria essa entidade ficcional, inventada por Patricia e Dennis para aterrorizar as outras personalidades. Quando finalmente aparece, é retratado em uma câmera subjetiva apenas em seu tórax, como se a pessoa que olha (no caso, a própria psicanalista) não ousasse encarar os seus olhos. Quando a Besta fala com Casey, diz: “regojize-se! Seu coração é puro.”, com pompa cerimonial. Casey entende, não se contém e derrama uma lágrima. Torna-se, ali, uma espécie de emissária dessa religião.

Como no filme anterior, existe algo de misterioso que ronda o filme. Logo antes de Patricia aparecer, enquanto as garotas a veem pela fresta, os planos nos remetem bastante a Psicose (1960). A obra-prima de Alfred Hitchcock lida com a depravação. Norman Bates ecoa em Kevin Wendell Crumb, curiosamente de um jeito ainda mais oculto que o filme sessentista. E ao longo de Fragmentado o personagem de James McAvoy vai desnudar cada vez mais as garotas, por motivos que não são plausivelmente explicados, mas que somam-se ao incômodo que o filme muitas vezes produz.

Posteriormente, a Horda deixa flores numa estação de trem, antes de entrar em um vagão vazio para dar lugar à Besta. Talvez em menos medida do que a situação descrita no parágrafo anterior, temos aqui um comportamento oculto, sugestivo, que o filme não faz questão de esclarecer.4

Vidro

Algo chama atenção em Fragmentado: como o filme brinca a todo momento com a ciência em volta da enfermidade mental do seu protagonista, buscando validá-la pelo viés do realismo. Com o advento da Besta, parece muito improvável que essa validação permaneça. Mas na cena pós-créditos, ao mostrar David Dunn, todo o universo da história é reconfigurado. Aquele torna-se retrospectivamente o universo de Corpo Fechado.

Inegavelmente, a proposta de Corpo Fechado é observar um super-herói sob o prisma do realismo. Mesmo assim, permanece a ideia de aquilo é, de alguma maneira, uma reverberação de histórias em quadrinho de super-herói. Parte desse reverberação pode ser observada no trabalho empenhado em desenvolver as ideias de herói e vilão enquanto figuras entrelaçadas que se retroalimentam – algo que, como Elijah Price diz no filme, é tão caro às HQs.

Vidro (2019), Shyamalan
Em Vidro (2019), Shyamalan referencia a Marvel

E então temos Vidro, que encerra a trilogia iniciada no ano 2000. Antes de tudo e diante do que aconteceu ao longo da carreira de Shyamalan, a mera existência desse filme é um milagre. Anos atrás, seria improvável pensar que o cineasta deflagraria não uma, mas duas continuações de um de seus filmes, e que as expectativas em torno do lançamento de cada uma delas fosse consideravelmente grande. De maneira que a chuva que se derrama no final de A Visita parece ter expurgado não só os personagens daquele filme, mas também a maldição que pairava sobre a cabeça de seu diretor.

No entanto, é curioso que Vidro se afaste um pouco da questão “de volta às origens” dos filmes anteriores e pareça mais próximo de um lugar fabuloso que Shyamalan explorou em A Dama na Água, por exemplo. Além de remeter, naturalmente, a Corpo Fechado. Apesar disso, é melhor resolvido que o filme estrelado por Bruce Dallas Howard. Não cede espaço a uma metalinguística autoindulgente que naquele caso atrapalha, em muito, a experiência.

Existe um jogo que ocorre entre o filme e o extrafilme. Vidro está contextualizado em um momento onde a indústria do cinema está completamente sequestrada por adaptações de HQs. Por esse motivo, muitas vezes vai brincar com isso. O showdown entre David Dunn e A Horda, por exemplo, vai acontecer nos primeiros 15 minutos. Depois, por mais de uma hora, o filme passa a estar confinado dentro de um hospital psiquiátrico. Uma clara subversão de expectativas criadas pelo espectador.

A doutora diz mentiras

No hospital, descortina-se um outro jogo: realidade versus ficção. A Dra. Ellie Staple assume o papel de convencer Dunn, Elijah e Kevin de que eles não possuem superpoderes, mas capacidades humanas elevadas. Esse suposto complexo de grandeza teria surgido a partir de acontecimentos traumáticos na vida de cada um dos personagens, aliado a uma enfermidade rara sobre a qual a Dra. Staple se especializou.

A sequência da acareação entre os três personagens e a doutora dura exatamente dez minutos. É uma cena emblemática, dentro de uma sala cor-de-rosa. As roupas da doutora mimetizam as cores das paredes. Sua voz é suave e seus argumentos, racionais. Um sentimento de delicadeza opressora atravessa toda a sequência. Ao final da mesma, espectador e personagens estão plenamente convencidos da banalidade daqueles superpoderes. Observe como Elijah cessa seus falsos tiques nervosos, indicando ele também ter sido seduzido pelas ideias da doutora.

Para além disso, a sequência coloca em diversas vezes os personagens em relação de frontalidade com a câmera. Grande parte dos planos são visões subjetivas de cada um dos quatro personagens. Em incontáveis outras oportunidades, por outro lado, a imagem não é frontalmente exposta ao espectador, mas através de reflexos, frestas, janelas, portas e transparências. Observe Dunn sentado no canto do quarto, cabisbaixo pois percebe-se ali como uma pessoa ordinária. Seu reflexo deformado na parede de metal impõe-se como extensão do seu estado mental. Ou quando a Besta se revela pela primeira vez a Elijah, através do reflexo no vidro do gabinete de remédios.

vidro, 2019
Reflexos e transparências em Vidro (2019)

Quando não é este o caso, tratam-se de imagens mediadas pelo dispositivo diegético da câmera de vigilância. Isso ocorre narrativamente porque elas são os olhos de Elijah, arma cabal que este usará para derrotar o inimigo comum aos três heróis. Mas somadas às outras imagens do filme, elas corroboram ainda mais para estabelecer essa visualidade complexa trabalhada por Shyamalan.

Ainda nesse ponto, remeto-me a Heller-Nicholas5 para comentar rapidamente a questão das imagens de vigilância. Sua aceitabilidade enquanto registro está intrinsecamente ligada à sua presunção de verdade. Mesmo aquelas de baixíssima resolução (o que não é o caso em Vidro) são aceitas, jornalisticamente por exemplo, porque supomos se tratarem de registros reais (a esse respeito nos extendemos um pouco mais no texto sobre Creep, também parte dessa edição). Além disso, como Bruno (2008)6 observa, essas imagens são inerentes à “dinâmica sócio-cultural contemporânea”. Nessa perspectiva, Vidro se estabelece enquanto esse comentário relativamente radical de Shyamalan sobre o momento atual, muito particular em relação à produção e consumo de imagens.

Isto ocorre não apenas porque o filme é constantemente mediado por essa qualidade específica de imagens, mas porque a conclusão do mesmo está intimamente ligado a elas. Tanto do ponto em que elas foram produzidas, quanto da questão delas terem sido sequestradas e subvertidas de seu propósito original (de vigiar e oprimir os heróis). Mais ainda: posteriormente elas foram divulgadas, sendo essa difusão o golpe final que entrega a vitória e redenção aos protagonistas do filme.

vidro, m night shyamalan, 2019
As câmeras de vigilância no clímax de Vidro (2019)

Considerações finais

Mais do que revisitar esses filmes, parecia-me interessante buscar entender como essa espécie de ressurgimento na carreira de Shyamalan ocorreu em perspectiva com sua parceria com a Blumhouse Productions (na figura de Jason Blum). Há pouquíssimo material crítico ou de bastidores, pelo menos que eu tenha encontrado, para ajudar a nortear essa investigação. No entanto, em uma entrevista Blum declara:

“Eu acho que A Visita é uma mistura. Há muita coisa ali que não há em nenhum de nossos filmes, e há muita coisa em A Visita que não há em nenhum filme do Night. Então, parece uma ótima mistura do que eu faço e do que ele faz, já que a gente faz coisas complementares, mas jamais iguais”.

Parece muito improvável que Jason Blum, com toda sua experiência na produção de found footages, não tenha tido grande influência em A Visita. Por outro lado, as maiores qualidades neste filme residem nos aspectos que atravessam o subgênero do terror found footage? Ou relacionam-se muito mais com as marcas autorais de Shyamalan?

Além disso, é mais ou menos evidente que Fragmentado e Vidro estão totalmente colados na tradição shyamalanica, chamemos assim, do que qualquer em outra coisa que Jason Blum tenha produzido. Como disse anteriormente, Vidro ressoa bastante com A Dama na Água, na medida em que exerce essa crença no sobrenatural, abraçando-a com sinceridade (sem ironia).

Ainda assim, existe um caminho sendo percorrido nas três obras. Primeiro, existe essa retomada de controle formal. Em A Visita ocorre a (aparente) completa abdicação desse formalismo, onde a filmagem é realizada pelas crianças dentro do filme. Em Fragmentado, o diretor volta a exibir suas qualidades visuais características. Alguns planos são estáticos, rígidos e encenados. Em outros, a câmera está mais solta, seguindo algum personagem, passeando pelo espaço. Nos momentos de maior tensão, os planos rapidamente variam entre subjetivas trêmulas, travellings rápidos, cortes velozes.

vidro, m night shyamalan 2019
Variedade formal em Vidro (2019)

Mas em Vidro a retomada está completa. Chega a ser impressionante o que Shyamalan realiza aqui em termos visuais. Há uma variação enorme de aproximações e ângulos sendo exercida. O requinte formal atinge seu maior momento no último showdown. O filme vai primeiro explorar aquele espaço, em planos gerais e panorâmicas rápidas. Pouco a pouco, a ação vai sendo deflagrada. Personagens constantemente estão ocultos por algum elemento no quadro e surgem a partir da encenação. Os momentos de embate físico intercalam em ritmo cadenciado (em oposição a um ritmo frenético, característico em filmes de ação e adaptações de HQs) close-ups e planos mais distantes, sem prejuízo coreográfico.

A despeito de sempre dizer que a derrocada na carreira de Shyamalan não chegou a ocorrer de fato, é difícil negar que após Fim dos Tempos seus filmes foram decepcionantes. Por esse motivo, refiro-me ao período entre 2015 e 2019 como um ressurgimento. Mais do que o valor específico de cada filme, a expectativa por um novo filme seu está de volta. A ideia de aguardar com empolgação ao invés de ressalva um novo trabalho. O que ressurge é, acima de tudo, a percepção mais ou menos generalizada do elevado valor que um filme de Shyamalam possui, principalmente em relação ao cenário da indústria cultural norteamericana. O prognóstico parece claro: após a parceria com a Blumhouse, Shya está definitivamente de volta. Resta-nos aguardar o que os próximos anos nos reservam.

Obras Citadas:

O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), M. Night Shyamalan; Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), M. Night Shyamalan; Sinais (Signs, 2002), M. Night Shyamalan; A Vila (The Village, 2004), M. Night Shyamalan; Dama na Água (Lady in the Water, 2006), M. Night Shyamalan; Fim dos Tempos (The Happening, 2008), M. Night Shyamalan; Dirigindo No Escuro (Hollywood Ending, 2002), Woody Allen; O Último Mestre de Ar (The Last Airbender, 2010), M. Night Shyamalan; Depois da Terra (After Earth, 2013), M. Night Shyamalan; A Visita (The Visit, 2015), M. Night Shyamalan; Vidro (Glass, 2019), M. Night Shyamalan; Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), Stanley Kubrick; 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), Stanley Kubrick; Olhos Abertos (Wide Awake, 1998), M. Night Shyamalan; Praying with Anger (1992), M. Night Shyamalan; Fragmentado (Split, 2016), M. Night Shyamalan; Psicose (Psycho, 1960), Alfred Hitchcock.

Notas

  1. Usando aqui como parâmetro o site Rotten Tomatoes, temos: A Dama da Água com 25% de aprovação dos críticos; Fim dos Tempos com 18% de aprovação; O Último Mestre do Ar com 5%; e Depois da Terra com 11%. Os números de de aprovação da audiência são sempre um pouco melhores, mas mantêm-se em torno dos 30%. A partir da parceria com a Blumhouse, temos: A Visita com 68% de aprovação dos críticos; Fragmentado com 77%; e Vidro com 37%. Os números de audiência são, respectivamente, 51, 79 e 68 por cento. Vale destacar já aqui que Vidro possuí um pouco do radicalismo de A Vila dentro dele e disso falaremos mais ao longo do texto.
  2. Dentro do found footage deslocado do território do horror, temos a ilustre presença de Brian de Palma que tem entre suas numorosas marcas pessoais, a utilização de câmeras de vigilância. Num destaque especial a esse respeito, podemos citar Guerra Sem Cortes (2007)
  3. Na verdade, definitivamente há temas centrais que perpassam pelos três filmes, sendo a ficção versus realidade apenas um deles. A questão do trauma é, possivelmente, tão relevante quanto.
  4. Fãs mais atentos, no entanto, rapidamente conectaram o fato com o a batida de trem de Corpo Fechado, criando a teoria de que o pai de Kevin morreu no fatídico acidente. Com o lançamento de Vidro, a teoria mostrou-se verdadeira. Ver em: https://www.reddit.com/r/FanTheories/comments/5p9b90/split_the_significance_of_the_amtrak_train/
  5. Found Footage Horror Films: Fear and the Appearance of Reality (Alexandra Heller-Nicholas, 2014)
  6. Estética do flagrante: controle e prazer nos dispositivos de vigilância contemporâneos. (Fernanda Bruno em Revista Cinética, 2008). Visto em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/fernanda_bruno.pdf

Guilherme Bakunin

Cinéfilo desde os dezesseis anos, graduado em Artes e Cinema desde os vinte e quatro. Não sei se estou vivendo ou apenas lamentando constantemente o falecimento de Edward Yang.

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