Joias Brutas e o conto moral moderno

As degradantes minas de joias africanas que dão lugar para o interior de uma opala colorida que dá lugar para o interior do sistema digestivo do protagonista. É assim que somos apresentados a Joias Brutas (2019), novo filme dos irmãos Josh e Benny Safdie que vinham em uma curva ascendente com Amor, Drogas e Nova York (2014) e Bom Comportamento (2017). E, como nos outros filmes, logo vamos descobrir a interessante abordagem da dupla e seu cinema estranho no ninho, estilística e narrativamente um cinema de despojos estéticos que retrata protagonistas sumariamente dissonantes de seu meio.

Desde a primeira cena, em que um dos garimpeiros sofre uma fratura exposta, fica claro o tom de conto moral de Joias Brutas. As peças de moralidade surgiram na Idade Média, com o exemplar mais famoso na literatura portuguesa sendo O Auto da Barca do Inferno (1517), de Gil Vicente, e posteriormente influenciando obras importantes como Fausto (1808). O princípio desse tipo de obra, como aponta Ricardo Sérgio em O Teatro das Moralidades, é “o homem é destinado a morrer em pecado, a menos que seja salvo pela intervenção divina”. Mas como temos isso em um contexto contemporâneo como nesse suspense policial?

Ao centro de tudo, temos Adam Sandler, reconhecido por um grande número de comédias infames, mas também por elogiados e sazonais papéis dramáticos. Aqui, ele é Howard Ratner, um joalheiro viciado em apostas que deve até a alma – mas nunca perde a certeza de que em algum momento vai se dar bem. Os Safdie não renegam a faceta famosa de Sandler, porém, antes ressaltam o seu gosto tanto pelo personagem eminentemente urbano, quanto pelo grosso e o grotesco. A partir desse exagero marcado desde o início, pode-se dizer que o filme perderia grande parte da força sem essa performance principal.

A tragédia do malandro

O Memorando de Vogler (1998), de Christopher Vogler, faz uma leitura psicológica do monomito de Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces (1989), afirmando que o protagonista de uma história “representa a busca de identidade e totalidade do ego” e que “a tarefa psicológica que todos enfrentamos é integrar essas partes separadas em uma entidade completa e equilibrada”. Para Campbell, tal tipo de história remetia a todas as religiões e culturas, e aqui não é diferente.

Ratner importa uma pedra da África pois sonha com a estabilidade financeira. Sonha com uma família integrada, em dar uma boa vida para a amante, em parecer bem na frente da família. Mas tal sonho tropeça em provações externas e internas ao personagem; ele é cercado de parceiros de golpes, celebridades, aduladores e afins. Não consegue dizer não para nenhum deles, quer agradar a todos e não agrada a nenhum, pois aposta alto o dinheiro que deve em jogos de basquete por uma certeza de superioridade moral, tal como no romance O Jogador (1866) de Dostoiévski, no qual o personagem que prega sua superioridade em relação aos outros também é condenado pela própria culpa de sua situação irremediável.

Desta forma, para reforçar o aspecto moral, Joias Brutas é circular na farsa de seu protagonista que promete sanar as dívidas enquanto pensa no próximo esquema: Ricardo Sérgio diz: “O esquema alegórico da Moralidade aproxima-se, por vezes, da farsa, proporcionando a representação de caricaturas ou sátiras que visam a corrigir os costumes”. Ou seja, a decadência moral do protagonista é necessariamente externalizada através de caricaturas como o agiota implacável, a esposa ranzinza, o agenciador espalhafatoso. Mas, ao contrário das peças de moralidade, a queda de Howard é antes de redentora, trágica.

A tragédia de “Howie” é vencer essas pessoas continuamente – mas apenas por um curto período de tempo. Ele é um personagem maior que a vida, destinado a sofrer um grande ocaso das suas paixões. Daniela Diana, ao escrever sobre Tragédia Grega para o Toda Matéria, aponta que as características comuns de obras do gênero são “a tensão permanente e o final infeliz e trágico”, final este vindo durante um momento de catarse, que Aristóteles define em A Poética (de 335 a.C. a 323 a.C) como “uma grande descarga de sentimentos e emoções”, “exorcizando” as próprias angústias. Dessa forma, Howard é uma espécie de Sísifo contemporâneo, que tenta arduamente desafiar os deuses para falhar miseravelmente, sofrendo a humilhação. Para o homem orgulhoso, o castigo é a vergonha. Ou, como diz a sabedoria popular, em jogos de azar, “a casa sempre ganha no final”.

Uma estética de despojos

Por seu retrato sobre a ganância no século XXI, muitos chegaram a apontar Joias Brutas como uma espécie de versão moderna do clássico de John Huston O Tesouro de Sierra Madre (1948), no qual objetos materiais causam a ruína de almas. Em certo nível procede, mas a modulação trabalhada é um cinema “filho de tudo”, de velhas referências e novas estéticas.

Por meio de diálogos sobrepostos e entrecortados, lentes objetivas praticamente sem profundidade de campo, cortes secos e ríspidos, a trilha sonora experimental feita com base em sintetizadores de Daniel Lopatin e cenários e figurinos que propõem informações visuais confusas, há algo de Joias Brutas que alude ao cinema policial feito entre os anos 70 e 90 – Sidney Lumet em Um Dia de Cão (1975), John Cassavetes em A Morte de um Bookmaker Chinês (1976), Scorsese em Caminhos Perigosos (1973), Abel Ferrara em Vício Frenético (1992), entre outros. Filmes maduros e sombrios sobre homens atormentados, muito famosos em séries de TV recentes como Família Soprano (1999—2007) e Breaking Bad (2008—2013), mas que atualmente sobrevivia de poucos exemplos nas salas de cinema.

Josh e Benny, com o uso monocromático do neon, dos sintetizadores dissonantes e das combinações esdrúxulas de cores e joias alude em algum nível à estética vaporwave, corrente surgida na internet fascinada pela evocação do sentimento de “geração perdida” entre as décadas de 80 e 90. Ao descrever o trabalho do compositor Lopatin para o projeto Chuck Person, o crítico Simon Reynolds escreveu em Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past (2010) que o vaporwave é “relacionado à memória cultural e ao utopismo enterrado dentro das comodidades capitalistas”, ou seja, uma evocação nostálgica que satiriza a falência das ideologias.

Mesmo a apropriação da estética por grupos conhecidos como alt-right (ou direita alternativa) não anula essa leitura crítica dos Safdie, que leem Howard como um vilão que se acha herói, crente no capitalismo neoliberal e no lucro acima de tudo como a salvação de sua alma. Dessa forma, os grotescos objetos em cena, as faces progressivamente arrebentadas e um mundo sensorial atordoante na massa informativa aludem a uma espécie de espelho de O Lobo de Wall Street (2013), filme de Scorsese sobre como o grotesco é socialmente recompensado; aqui há nitidamente uma narrativa de pecados a serem punidos como forma de tragédia, mas também a observação profunda de um contexto que incentiva homens como Howard a fazer o que fazem. Não há sutileza, mas exagero constante até que reflitamos sobre aquele mundo desconfortável.

A moral de um mundo amoral

Joias Brutas é um mundo sem deuses, onde a redenção é uma utopia ou vem inserida em contextos distorcidos. Nenhum personagem parece exibir característica positiva virtuosa; todos são vítimas de seus juízos, amores e orgulhos. E nenhum deles está satisfeito com sua vida.

Carolina Cunha, ao escrever sobre Zygmunt Bauman para o UOL, detalha como tal ansiedade nos governa: no mundo atual, se “o prazer é algo desejado e como ele é uma sensação passageira, requer um estímulo contínuo”, logo “temos acesso a tudo o que queremos e ao mesmo tempo as coisas se tornam rapidamente obsoletas”. O personagem pode pagar suas dívidas, mas o ato de vencer a qualquer custo é mais importante que legados ou consequências.

Em A Ética e moral na pós-modernidade, Gisele Leite detalha que para Bauman a ética pós-moderna “abandonou a ilusão da universalidade para leis morais” e que “se não houver essa força e essa autoridade, os seres humanos estarão abandonados ao seu próprio juízo e à sua própria vontade”. Howard acredita que o que faz é o correto, e luta contra o mundo para provar sua tese.

Dessa forma, procurarmos a tal moral catártica de Joias Brutas é uma tarefa exaustiva como assistir ao filme em si. Se há, é um escárnio sobre a futilidade da vida e das relações humanas, em que tudo orbita ao redor do brilho e do sangue, onde o glamour alimenta a violência e vice-versa. Justamente por isso, já nasce como um dos filmes mais poderosos de sua época.

Obras citadas:

Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), Benny Safdie, Josh Safdie; Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What, 2014), Benny Safdie, Josh Safdie; Bom Comportamento (Good Time, 2017), Benny Safdie, Josh Safdie; O Auto da Barca do Inferno (1517), Gil Vicente; Fausto (Faust, 1808), Johann Wolfgang von Goethe; Memorando de Vogler (The Writer’s Journey: Mythic Structure For Writers, 1998), Christopher Vogler; O Herói de Mil Faces (The Hero with a Thousand Faces, 1949), Joseph Campbell; O Jogador (Igrok,1866), Fiódor Dostoiévski; A Poética (Poiétikés, cerca de 335 a.C. a 323 a.C), Aristóteles; O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre, 1948), John Huston; Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), Sidney Lumet; A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, 1976), John Cassavetes; Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), Martin Scorsese; Vício Frenético (Bad Lieutenant, 1992), Abel Ferrara; Família Soprano (The Sopranos, 1999—2007), David Chase; Breaking Bad (2008—2013), Vince Gilligan.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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