Halloween: a mitificação mascarada do monstro em perspectiva

Mais uma linha temporal duma saga demasiadamente modificada. Pelo menos 4 linhas definidas. Este material mais recente recebe o crédito por ter o envolvimento do criador da obra original John Carpenter – que neste entra como produtor executivo e compositor da trilha sonora, este último crédito em parceria com Cody Carpenter (filho do mestre) e Daniel A. Davies. A intenção de Halloween (2018) é dar um novo respiro à saga após tantos reveses, principalmente pelo revisionismo grosso dado pelo Rob Zombie, o qual grande parte dos fãs (e críticos) execra. Eu particularmente curto o material do Zombie, mas este não é o ponto. Diante disso, coube à Blumhouse buscar desenrolar o esquema novo. Inclusive quando o dono Jason Blum esculhambou o Carpenter de reclamão pra fazê-lo ajudar no filme. Palavras do próprio Carpenter.

Ditas as informações iniciais, vamos a essa releitura que vincula um misto de respeito ao original Halloween – A Noite do Terror (1978), e remetendo a outros slashers e seus vícios, com uma busca por novos públicos. Principalmente no campo da violência e na renovação dalgumas características dos personagens frente a novos tempos. E nada mais justo que dois dos nomes principais do elenco original voltarem à luta. Jamie Lee Curtis como Laurie e Nick Castle como Michael Myers.

O retorno dum mito. O direcionamento para tal intenção tanto no trato com câmera e personagens quanto na trilha. Impor a presença do monstro, do mal, do mito. Por isso o início no manicômio numa busca de jornalistas por uma história ainda vívida. A busca por Michael Myers. O mito vive. A abertura dos letreiros esperta fazendo uma releitura da original, com uma abóbora – mais conhecido aqui no Ceará como jerimum – ressuscitando. É a volta desse anormal. Bom acerto ao mostrar visualmente como estão seus personagens após estes 40 anos.

O isolamento de aberração e vítima e as consequências que permaneceram em ambos, e aquilo que mudara neles. Nisso constrói-se uma insistência narrativa por este encontro. Algo altamente óbvio, mas que o diretor David Gordon Green e equipe foram marotos metendo estratagemas de inversão na mitificação vagarosa de seus personagens. Se os detalhes ao longe que remetem ao primeiro filme mostram o vilão sempre presente, Laurie também entra no mesmo esquema de perspectivas e sumidas, além de momentos dos personagens em primeira pessoa. No original, somente Myers perscrutava as figuras, agora, Laurie também o faz. Com outros intuitos, mas mantém uma rima dialética interessante com o primeirão de 1978.

Myers no manicômio

O que diabos é um mito?

O mito é o somatório de elementos que conurbam numa situação fantástica protagonizada por figuras extraordinárias. A mitificação é usada para explicar aquilo considerado inexplicável. Antes, em antigas civilizações, buscava-se impor ordem social mínima por meio de explicações míticas de religião e punição, assim como explanar acerca daquilo que era natural e que não continha explicação tácita. Como afirmar, por exemplo, que o Sol era um Deus. A invenção maniqueísta punitiva entre bem e mal vem daí. Em materiais de reza hoje eminentemente difundidos nas religiões ocidentais embalsamadas no seio europeu. O punitivismo controlador da vida eterna através do castigo frente aos desrespeitos de deidades estabelecidas viria com ajuda peremptória de mitos e lendas. Ou seja, o ser humano inventa controlos para si na busca por uma condição de existência social coletiva. Coibindo instintos animais. Antes de existir a história e a filosofia como ciências, eram os mitos que propunham um entendimento social, histórico e filosófico que permeava a vivência da localidade na qual esses mitos eram divulgados e aplicados. A modernização dos mitos viria através do extraordinário dalgumas figuras. Como quando um grande artista chocava sua realidade com uma obra considerada por muitos à frente do seu tempo – algo que a história como ciência abomina a terminologia – e não vista em comparação a outros trabalhos. Uma linha tênue entre realidade e exagero, que para ser explicado chegava junto no campo simbólico. Quer um exemplo? Como se explicita que o grande bluesman dos anos 20, Robert Johnson, teria vendido sua alma ao demônio numa encruzilhada para a obtenção de sucesso, e, assim, sua alma teria sido coletada logo após o mesmo começar a divulgar seu dom. E aqui mora o mal do Michael Myers, nesta linha entre o real do serial killer mascarado e o mítico dum mal encarnado a atemorizar uma cidade, que para ser explicado necessitaria da mitificação. E dentro dum aspecto de recorte específico na data, o mito se precipita. Outro acerto da construção do personagem lá atrás, no 31 de outubro de 1978. A vinculação dum escroto a um acontecimento cultural histórico que se repete. Ritualisticamente. O horror como brincadeira vira realidade diegética e desespero para aqueles personagens. A presença do mal. Mito.

O bluesman Robert Johnson com seu violão em busca de um pacto com o Diabo

Vigilância e violência

Dentro desta perspectiva mítica, a fita se interessa pelos personagens principais e em como tratá-los na narrativa, o que acaba por descartar uma possível sonhada imprevisibilidade das vítimas. Mas o objetivo é coerente. Sem interesse no incomum. A perambulação de Myers e a sisudez paranoica de Laurie importam mais do que isto. Mas não falta truculência e violência. Esta última até vem com certo capricho, com os corpos sendo fortemente tratados como nada para a trajetória imparável de Michael. O que interessa é o percurso seguido por ele, com sangue e vísceras com boa dose de grosseria até. Os olhares do Myers perscrutam aqueles que executa num misto de estranhamento e total indiferença para com os mortos. A câmera mostra isso direitinho.

E que trilha sonora foda. Se a narrativa mitifica Myers, o som assim também o faz, desde sua abertura. Melhor coisa da fita, para apontar na lata. Encaixa com o clima proposto e com a dinâmica que o filme exige nos mais diversos momentos. Do silêncio triste e sepulcral de lembranças passadas por Laurie (nas quais o piano persiste lentamente e num volume baixo acompanhando o drama central dela) ao auge da tensão causada por um gigante no encalço da morte alheia – acelerando e desacelerando na proporção que a imagens pedem, conforme Myers vai comparecendo na brutalidade. Tudo cheira a este mito. Esta espécie de vaca sagrada do terror.

Homenageia o material original e até usa bem dos clichês do slasher, mas acaba por vacilar nos irritantes personagens adolescentes e nas suas possíveis trajetórias. O que causa um aborrecimento constante. Um cacoete slasher. Foi proposital? Não. Pelo menos foi rápido com eles. Papocam ou somem rapidamente. A intenção é preparar o terreno para o destroço. E teve a boa ideia de tirar uma onda com aquilo que realmente choca hoje. Na era da banalização da violência, um sujeito que matou algumas pessoas a facadas não parece muita coisa.

Laurie “Monstra” Strode

O trauma e força das Strode

Os vínculos dos adolescentes entre si servem para duas coisas: serem massas de carne para o abate; e serem úteis para dar mais camadas à personagem da neta de Laurie, Allyson (Andi Matichak). Assim como o passado da mãe e da avó as assombra. Tem um tom besta e medíocre que se perde alguns minutos nesta conversa mole. A trajetória da mãe Karen Strode (Judy Greer) é mais traumática e ligada diretamente na avó, quando esta última criou a primeira na base da paranoia vinculada à sua experiência empírica de morticínio quando manceba. Então a mãe passa a vida toda tentando se desvencilhar da loucura da avó, enquanto esta última parece um fantasma num primeiro olhar, para revelar-se uma guerreira em dado ponto, e até a herdar características do Michael Myers.

São as três mulheres combatendo o mito do Michael Myers. Unindo-se pelo âmbito da sobrevivência da família. A avó Laurie Strode de Jamie Lee Curtis (mostrando a grande atriz que sempre foi e tendo que demonstrar tanto sapiência e experiência quanto certo vigor físico) passa por um processo de saraconnização da scream queen no original para uma vingadora preparada para o apocalipse nesse novo. Uma escolha acertada — não original claro — da equipe criativa ao pôr as gerações da família Strode contra o perverso, principalmente pelas consequências do tempo, que Michael ajudou a formatar lá atrás.

Eu já falei que o filme mitifica o Michael Myers? Obviamente, a câmera assim o perscruta inadiavelmente. Desde o acerto no início ao tratá-lo na solitude da falta de reação. Desde o chão xadrez tétrico aos grunhidos proferidos pelos loucos ao redor de Michael quando lhes mostra a sua máscara. O mito influencia aqueles que estão ao seu redor. A máscara sendo colocada mostra o poder do símbolo, como se faltasse ainda algo para completar a transformação.

O mascarado e mítico Michael Myers

O mito de Michael Myers

E o personagem do médico Sartain (Haluk Bilginer)? A reviravolta dele. Desde o começo, o seu interesse pelo paciente é objetificado na tela. Seja pela curiosidade médica, ou pelo afã de descobrir realmente a origem daquela figura. De onde vem este mal. Acabamos por descobrir que este escroto é mais um influenciado pelo mito Michael Myers. Querendo sentir o que ele sente através da percepção da morte. A antítese do Loomis de Donald Pleasence, e díspare do oportunista e despirocado Loomis do Halloween II (2009) do Rob Zombie, feito pelo Malcolm McDowell, que buscara lucrar com a história de morticínio. Sartain absorve a psicopatia do Myers. A herança maldita do mito. A máscara chega a servi-lo num determinado momento de insanidade e teste. Como se a mesma servisse de chave deste tesão. A caracterização da serventia do destroço. Uma das boas surpresas que, infelizmente, se finda um tanto rápido. O filme tem estes problemas exatamente por abordar personagens ruins e perder tempo com estes, enquanto outros tantos mereciam um tratamento mais aprofundado.

A perspectiva do caçador. A câmera o segue em busca do retorno ao sentimento de 1978. É o que deseja a equipe criativa. À sua maneira. Ele arrodeia a câmera mostrando a movimentação sorrateira do carrasco, que se mantém a caminhar. Aqui um aceno não só ao Halloween primeiro, mas às mais variadas sagas com seus vilões truculentos, com outro exemplo-mor em Jason Vorhees (da saga Sexta-Feira 13, 1980-), que nos filmes posteriores viraria uma fera deste porte. O bicho-papão aqui fica perambulando. O tensionamento desta mitificação, como quando as lentes o seguem curiosas e chegam pro lado captando a reação das pessoas, que, mesmo fantasiadas para o Dia das Bruxas, se assustam com a figura mascarada à sua frente. Nisto a câmera vira e para, denotando Myers a observar uma casa. Em seguida ele se movimenta, entra na casa e trucida a mulher que lá estava. Isto e mais um plano-sequência do próprio numa caçada atestam o argumento maroto do vilão que caminha e faz esculhambações possíveis quando quer. Boa homenagem.

As mortes vão se acumulando. Frontais. Sem invenções. Como já afirmei, o desinteresse aqui é completo pelos personagens. Interessando mesmo, Michael Myers e Laurie Strode. Tanto que as mortes não causam impacto pelas vítimas, mas sim pelo prazer de se ver isto no terror. Não há aqui o desespero genuíno dos personagens que serve para crescer a tensão e aloprar camadas a mais na fita. O terror claustrofóbico ao final é resolvido com as três mulheres armando para Michael. O encontro se findara até então. Myers some e permanece como mito dentro e fora das telas. O mal sem explicação, que precisa de mitos para ser contado, que escapa da realidade. Quando não entendemos o que está diante de nós, o temor nos apavora ou nos corrompe com a ira. Por isso o limbo sem origem do mal encarnado de Myers é tão funcional, de modo que basta saber focar no serviço do monstro que a obra funciona. Por sorte, este aqui ainda consegue meter uma Laurie Strode à altura. Laurie monstra. 40 anos. O fogo purificador? Do inferno? Halloween Kills. O mal. O mal. O mal.

Obras citadas:

Halloween: A Noite do Terror (Halloween, 1978), John Carpenter; H2: Halloween 2 (Halloween II, 2009), Rob Zombie; Halloween (2018), David Gordon Green; Sexta-Feira 13 (Friday The 13th, 1980), Sean S. Cunningham.

Ted Rafael

Pesquiso cinema marginal utilizando-me da minha paixão e mote acadêmico pelo banditismo urbano. E ainda produzo, dirijo e monto umas bagaceiras. Gosto de cinema sem muita frescura. E como frescuras outras não são comigo, paro por aqui. Cinema. CINEMA.

2 thoughts on “Halloween: a mitificação mascarada do monstro em perspectiva

  • November 3, 2020 at 2:42 pm
    Permalink

    Hey! Would you mind if I share your blog with my facebook
    group? There’s a lot of people that I think would really appreciate your content.
    Please let me know. Many thanks

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *