First Cow e as marcas de Kelly Reichardt

Considero um desafio e tanto falar de First Cow (2019), o trabalho mais recente de Kelly Reichardt. Assim como outros trabalhos da diretora, a história é mínima, escassa em grandes acontecimentos. Os personagens são contidos e muitas vezes inexpressivos verbalmente. Mas de alguma forma, o filme ressoa em você e permanece, muito tempo depois de ter terminado. Reichardt sempre retratou personagens marginalizados e solitários (River of Grass, 1994; Antiga Alegria, 2006; Wendy e Lucy, 2008), e talvez por consequência disso seus filmes são focados em histórias simples e gestos sutis. Qualquer desvio de olhar deve dar conta de verbalizar aquilo que seus personagens não são capazes de fazê-lo.

Não é difícil entender o apelo de First Cow. Seguindo um caminho que Reichardt começou a trilhar em O Atalho (2010), o filme pretende realizar um olhar ressignificado do western. A transformação de arquétipos é quase radical: a mitologia heroica, os papéis de gênero e a própria organização espacial são remodulados pela cineasta, possivelmente não apenas para se encaixarem em suas marcas autorais, mas também como ação de resgate de alguma espécie de realismo. A cineasta declarou em algumas entrevistas que uma grande inquietação durante a realização do filme era a de entender “como era o oeste”.

Como em O Atalho, Reichardt novamente enquadra seu filme no aspect ratio 1.33:1, quase quadrado. Trata-se, certa maneira, de uma subversão, pois nos acostumamos aos faroestes com suas paisagens amplas e panorâmicas. Existe também uma espécie de resgate aqui. Reichardt e Christopher Blauvelt, seu diretor de fotografia, parecem referenciar Carleton Watkins, notório fotografo de paisagens que viveu durante o final do século XIX. Muitas de suas paisagens também são apresentadas dentro de um frame quadrado e geralmente retratavam grandes montanhas e árvores, enquanto rios, edifícios e trilhos de trem cortavam diagonalmente o enquadramento.

Por outro lado, Reichardt disse em uma entrevista que grandes inspirações para o que realizou no filme vieram de Robert Adams e Stephen Shore, dois fotógrafos que produzem desde a segunda metade do século XX. Segundo a diretora, a obra desses dois fotógrafos é baseada na ideia de se retratar a transformação da paisagem americana, “a pegada humana na natureza.” Em First Cow, a ação parece muito mais concentrada nos personagens do que nos cenários, para ser sincero. Ainda assim, existe um trabalho sendo feito ao longo do filme a fim de dar conta dessa transformação.

Existe o exuberante pano de fundo natural, quase que intocado pelo Homem. Existe o imundo e decadente cenário do forte, tomado pela lama e pela desordem. E existe a casa do Chief Factor. É como se o espaço da fronteira estivesse ali representando, ao mesmo tempo, três estágios diferentes da intervenção humana na natureza. Contudo, sem deixar de expressar também as condições e relações fundamentalmente desiguais trazidas pelo capitalismo, que veio junto com a civilização.

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No filme, acompanhamos Cookie, que viaja com um grupo de comerciantes de pele para o Fort Tillikum, um assentamento colonizador no extremo noroeste do continente americano. Não me parece claro que tal assentamento tenha existido, é provável que não. De qualquer forma, possivelmente ele está localizado na região onde hoje é o estado de Oregon1, ou talvez um pouco mais acima, em Washington ou em British Columbia, onde hoje é o Canadá.

Cookie não trabalha com peles, mas acompanha os parrudos comerciantes como cozinheiro do grupo. Somos apresentados ao personagem enquanto ele caminha pela floresta recolhendo cogumelos. Logo, durante uma de suas caminhadas em busca de matéria-prima para cozinhar, ele encontra King-Lu, um imigrante chinês, que está completamente nu após ter despejado suas roupas na mata e jogado seu revólver no rio. Lu está em fuga pois assassinou um russo após o mesmo ter torturado e matado seu amigo.

A amizade que se forma entre os dois personagens é, certamente, o cerne principal do filme. A citação de William Blake após os créditos iniciais já entrega o tema principal da obra: “O pássaro constrói um ninho, a aranha, uma teia, o homem, a amizade”. Muito do que possivelmente aproxima Cookie e Lu pode estar relacionado com suas personalidades. Ambos carregam um anacronismo latente dentro de si e contrariam a expectativa de sujeitos naquele espaço. Não se trata apenas de uma subversão metalinguística (isto é, numa relação que se estabelece com o gênero faroeste), mas parece existir uma desarmonia na relação desses personagens com o próprio espaço diegético.

Lu ainda carrega certa ambição e certa malícia, definitivamente necessários para que o personagem cruzasse oceanos e chegasse vivo até ali. Cookie, por sua vez, é sensível, introvertido e desajeitado. Que ele tenha atravessado o continente, de Maryland até o território de Oregon, e sobrevivido, é um verdadeiro milagre. Como a própria existência desses indivíduos contradiz a dureza do espaço que eles habitam, não surpreende que um encontre no outro o acalento do pertencimento.

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Cookie prepara com esmero um bolinho para o Chief Factor

Enquanto um compartilha seus sonhos e desejos com o outro, o plano de roubar leite da única vaca do território para fazer bolinhos surge. Obviamenteo plano é arquitetado por Lu, mas foi Cookie quem, através de sua ânsia, o deflagrou. E é interessante como o leite, e a vaca, e o plano parecem carregados de sentido na história. A vaca aparece antes de tudo como deslumbramento, como alteridade. Vem de outro lugar para gerar novas possibilidades na fronteira. Depois, o leite aparece no filme de maneira mágica, como o coelho branco de Alice, guiando Cookie para o saloon que marcará o reencontro com Lu.

Por último, o plano é investido de um desacordo que se reflete nos personagens. Ele é, ao mesmo tempo, a coisa que finalmente dá sentido e a coisa que os condena. Cookie e Lu viciam-se naquilo, e apesar dos claros sinais que lhe são dados da necessidade de se parar ou de se partir para outro lugar, agarram-se ao plano até as últimas consequências, em busca de uma prosperidade que nunca chegará. Tornam-se assim a própria encarnação da tragédia avarenta americana.

Existem algumas escolhas que potencializam a experiência de First Cow. Muita da força desse filme vem da leveza em se explorar aquela história. Na fronteira ainda não assentada da costa leste, somos apresentados a uma amizade desinteressada entre dois homens, em desconformidade com padrões de gênero estabelecidos até hoje. Quando chegam a cabana de Lu, este pede que Cookie fique à vontade. Literalmente dois segundos depois, Cookie põe-se a varrer, organizar e enfeitar (com flores!) a humilde cabana. Enquanto isso, Lu desastrosamente tenta cortar lenhas com um machado do lado de fora.

Embora a intenção seja, em parte, de fazer graça disso, como uma maneira de questionar realmente os padrões e as expectativas em torno de um determinado gênero, existe um caráter de beleza na relação que se estabelece e nas ações que os dois homens desempenham. Lavar roupas, colher frutos e cogumelos, fritar bolinhos. O olhar atento da câmera nas mãos dos personagens enquanto elas fazem essas ações acontecer. O olhar atento na natureza. O tempo que se sente enquanto a experiência do filme acontece. A expressão do rude e maltrapilho senhor que muda quando ele dá a primeira mordida no bolinho. Toda uma coleção de momentos que, embora triviais separadamente, tornam-se gigantes pelo acumular ao longo do filme. E que expressam as marcas e o caráter cinematográfico de Kelly Reichardt, uma cineasta independente que se recusa a entrar pra indústria.

Obras citadas:

First Cow (2019), Kelly Reichardt; River of Grass (1994), Kelly Reichardt; Antiga Alegria (Old Joy, 2006), Kelly Reichardt; Wendy e Lucy (Wendy and Lucy, 2008), Kelly Reichardt; O Atalho (Meek’s Cutoff, 2010), Kelly Reichardt;

Notas

  1. Lu, em dado momento do filme, diz para Cookie que “a terra ao sul é ampla”. Pela breve descrição, e pela paisagem que serve de cenário ao filme, suponho que “a terra ao sul” refira-se a onde hoje é o estado de Oregon.

Guilherme Bakunin

Cinéfilo desde os dezesseis anos, graduado em Artes e Cinema desde os vinte e quatro. Não sei se estou vivendo ou apenas lamentando constantemente o falecimento de Edward Yang.

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