O Gótico Sulista e o lado proibido da América

Fé, sexo e morte: eis o Gótico Sulista.

A noite está quente. O som dos insetos deixa a todos inquietos. Atrás das portas dos casebres, mãos fervorosas pedem a uma Cruz redenção pelos pecados. Pouco se vê à luz de velas. Nos cantos recônditos dos celeiros, há um gemido exasperado, deliciado com o tabu do proibido. No interior dos quartos, após todos irem dormir, um plano de vingança se forma atrás de um par de olhos, o coração acelera ao desejar sangue escorrendo, punição bíblica tomando contornos pessoais. 

Mas como tal tradição surgiu?

gótico sulista
Capa de “Noite na Taverna”, de Álvares de Azevedo (1855)

Um mundo em desespero

Ouvi todas as coisas do céu e da terra. Ouvi muitas das coisas do inferno. Como posso, então, estar louco?

– Edgar Allan Poe, O Coração Delator

Antecedentes europeus

Dentre todos os subgêneros literários, o assim chamado southern gothic, ou gótico sulista, destaca-se como um dos mais únicos. Quando se fala dessa particular corrente, falamos de uma confluência de contextos e raízes literárias: o estilo literário gótico, que teve seu primeiro luminar no livro O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, uma história carregada de morte e desejo. “Gótico” é um nome com raízes na tribo bárbara que invadiu Roma que, séculos depois, deu nome primeiro ao  movimento arquitetônico que imaginava igrejas altas, vitrais coloridos e arcos quebrados que simbolizavam o homem de mãos em concha, tentando alcançar Deus em sua pequeneza. A obra de Walpole foi a primeira obra literária a receber tal alcunha e mola propulsora de uma vertente Romântica.

O nascente gótico se confunde com outras correntes românticas, como o desesperado movimento romântico alemão Sturm und Drang (tempestade e ímpeto, em tradução livre), cujo exemplar mais famoso é Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), e suas descrições desesperadas de um amor frustrado. Em O Iluminismo frente ao Romantismo no marco da subjetividade moderna (2016), Gonçal Mayos detecta que o movimento romântico veio como uma resposta do século XIX frente ao objetivismo cartesiano que intentava dominar o mundo através da razão. Enquanto a primeira geração se agarrou ao Medievalismo (e no Brasil, ao Indianismo), nostálgicos pelos mitos de formação idealizados, na segunda geração tivemos o surgimento de Lord Byron (1788-1824) e seus “Byronistas”, ou ainda ultrarromânticos, como o brasileiro Álvares de Azevedo e seu Noite na Taverna (1855)

A fascinação temática pelo sombrio e pela morte mostrou-se fundamental para o germinar e o amadurecimento da literatura moderna. O romântico da segunda geração mostra-se preocupado com o homem sombrio e obecado, desafiando as leis de Deus e da natureza. O gênero de terror, por exemplo, inicia-se com Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (1820), de Mary Shelley, e ganha um bestiário ao longo século, como em O Médico e o Monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, Drácula (1897), de Bram Stoker e A Outra Volta do Parafuso (1898), de Henry James. Em mais de uma história, homens da razão eram punidos por torcer as leis divinas, ou eram incapazes de lidar com ou acreditar no absurdo. 

The Reconstruction-Era Violence Lurking in the Southern Air | The Nation
O difícil período da Reconstrução

Desembarque americano

É no século XIX que os EUA ganha seus contornos definitivos. Em seu primeiro século após a independência conquistada em 1783, o país sangrou pela Guerra de Secessão entre 1861 e 1865 e, após isso, experimentou o período conhecido como a Reconstrução, que se estendeu até 1877. Décadas onde o Sul experimentou uma série de derrotas impostas pelo Norte pós-guerra, como outorgar o poder de voto à população negra, bem como a perda de direitos políticos de ex-soldados confederados. Uma era que filmes enviesados como O Nascimento de Uma Nação (1915) e …E o Vento Levou (1939) retrataram como uma grande humilhação.

Um período que coexiste com o amadurecimento e desdobramento do romantismo em sua segunda fase. Wieland (1798), de Charles Brockden Brown, é considerado talvez como o primeiro romance do assim chamado Gótico Americano, um termo controverso que muitos resistem em colocar categorização nacional, mas como aponta Thomas Ærvold Bjerre em Southern Gothic Literature (2017), “o que os críticos parecem concordar, entretanto, é a maneira na qual os textos do Gótico Americano em geral desafiaram a narrativa do Sonho Americano através de apontar com consistência as limitações e aberrações na crença progressiva na possibilidade e mobilidade”.

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“O Coração Delator”, de Edgar Allan Poe, ilustrado por Harry Clarke

Os pais do monstro

Bjerre identifica dois autores responsáveis pelo surgimento do southern gothic: Edgar Allan Poe (1809-1849) e William Faulkner (1897-1962). Aponta que Poe, “ainda que não localizado em um ambiente reconhecidamente sulista, exibe todos os elementos que viriam a identificar o Gótico Sulista” em contos sombrios e depressivos como Nunca aposte sua cabeça com o diabo (1841), O Coração Delator (1843) e O Gato Preto (1843).

Mario Praz, em A carne, a morte e o diabo na literatura romântica (1933) batiza tal período como o Romantismo Sombrio, onde também identificam autores variados, desde Byron e Mary Shelley até o vitoriano Bram Stoker, onde Poe foi identificado ao lado de Nathaniel Hawthorne (A Letra Escarlate, 1850) e Herman Melville (Moby Dick, 1851). Em Edgar Allan Poe’s short story ‘The Tell-Tale Heart – an analysis (2012), Tobias Nitschke aponta que “oposto às crenças perfeccionistas do Transcendentalismo, esses contemporâneos sombrios enfatizaram a falibilidade humana e a tendência ao pecado e à autodestruição, bem como as dificuldades inerentes às reformas sociais”. 

Enquanto isso, Faulkner, cujos romances mais conhecidos são O Som e a Fúria (1929) e Enquanto Agonizo (1930), empregou a técnica do fluxo de consciência influenciada por autores como James Joyce (Ulysses, 1922) e Virginia Woolf (Mrs. Dalloway, 1925) para contar histórias ambientadas na fictícia Yoknapatawpha, norte do Mississippi, uma cidade sulista em transformação. As obras do autor foram seminais para germinar o estilo, pois como escreve Bjerre, “as transformações e ansiedades sociais resultantes (…) marcam o trabalho de Faulkner como profundamente gótico”, bem como “a linguagem complexa, modernista, labiríntica de Faulkner criam nos leitores um senso Gótico similar de incerteza e alienação”. 

Dessa forma, o caminho para além do Iluminismo, das modernas repúblicas e democracias, o desdobramento das ciências e filosofias deram origem a um estilo artístico mais subjetivo, psicológico e atormentado, com uma atração mórbida pelo proibido e pela morte, popularizando narrativas sociais violentas e sombrias, com um senso de pessimismo imanente em suas atmosferas. Nascido na Europa, aportando na América litorânea, ela encontrava um solo fértil nas decadentes fazendas que se mantinham debilmente de pé após a guerra que constituiu um país. 

American Gothic, pintura de Grant Wood

A América Agoniza

Jamais se ganha batalha alguma. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

– William Faulkner, O Som e a Fúria


Como um gênero se configura em um novo país? Possuindo novos ícones. Bjerre percebe que
os Estados Unidos podem não ter castelos velhos onde os escritores possam colocar seus romances Góticos, mas após a Guerra Civil, as frequentemente devastadas ou decadentes plantações e mansões no Sul se tornaram locações inquietantes para histórias Góticas sobre pecados, segredos e a ‘história assustadora’ do Sul”.

Dentro desses ambientes perturbadores, há algumas características temáticas. Em Defining Southern Gothic (2013), Bridget Marshall aponta entre as características definidoras temáticas como pobreza, loucura e desespero, as “pressões do passado em cima do presente” envolvendo a decadência das antigas famílias, o medo do “mundo exterior”, o racismo e a escravidão. Já em The Rise of American Gothic (2002), Eric Savoy percebe que o Gótico Sulista é um tipo de produção cultural onde é notado que “o progresso gera uma ansiedade quase insustentável em seus custos, e onde um apetite insaciável por espetáculos de violência grotesca é parte da textura da vida cotidiana”.

Capa para Um Bom Homem é Difícil de Encontrar (1953), de Flannery O' Connor
Capa para Um Bom Homem é Difícil de Encontrar (1953), de Flannery O’ Connor

Batismo maldito

Foi Ellen Glasgow que cravou o termo no seu artigo Southern Gothic School (1935) para se referir aos trabalhos de Faulkner e Erskine Caldwell – e de maneira pejorativa, pois para ela os trabalhos eram cheios de “violência sem sentido” e “pesadelos fantásticos”. Mas se era usado como demérito, logo os autores passaram a praticar tal estilo como tradição literária e dramatúrgica nascidas em Poe e Faulkner. Caldwell, assim como Faulkner, escreveu sobre a decadência financeira e moral do Sul, como em A Estrada do Tabaco (1932), onde uma família torna-se miserável com a Grande Depressão e passa a dar vazão aos seus piores instintos.

O caráter de denúncia pode ser visto de maneira retratista em O coração é um caçador solitário (1940), de Carson McMullers, em que um surdo-mudo vê o melhor amigo enlouquecer e ser mandado para o asilo, bem como acompanha os esforços de vida das outras pessoas de sua cidade, como uma garota andrógina e um sindicalista alcoólatra, personagens deslocados que em nada combinam com a moral americana, em um verdadeiro painel de decadência.

Pós-Segunda Guerra e em plena Guerra Fria, não parecia haver muito lugar para a terra idílica do capitalismo. As dez histórias de Um Bom Homem é Difícil de Encontrar (1953) de Flannery O’Connor cozinham um caldeirão de denúncia e medo, com histórias às voltas com culpa, exploração e cobiça, onde patriarcas familiares e casas de campo assumem contornos racistas e violentos.

Com essa preocupação social, Bjerre chama o subgênero de um “retorno Freudiano dos reprimidos”, onde “as realidades históricas da região tomam formas concretas nos moldes de fantasmas que destacam tudo que não foi dito na versão oficial da história”. O Gótico Sulista conta a história dos desvalidos, dos aberrantes, dos que falharam em cumprir o sonho, evocando uma imagética de contrastes grotescos. Popularizando-se no século XX, durante o pico da indústria cultural americana, logo deixou de se limitar apenas às páginas e logo adentrou os palcos do teatro e a grande tela do cinema.

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Paul Newman e Elizabeth Taylor em Gata em Teto de ZInco Quente (1958), dirigido por Richard Brooks

Retratos de uma terra devastada

Eu não vivo com você. Nós ocupamos a mesma jaula.
– Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente 


1941 marca a gênese do Gótico Sulista no cinema. Chegava à tela grande Caminho Áspero (1941), adaptação de A Estrada do Tabaco. A adaptação de John Ford foi reescrita para burlar a censura cinematográfica, acrescentando doses de humor à dura história literária. O que seria um nascimento atrapalhado acabou tendo seu lugar ao sol (ou em meio às trevas) com O  Segredo do Pântano (1941)

O filme sobre um homem (Walter Brennan) condenado injustamente à morte que foge da prisão e se esconde em um pântano para caçar o verdadeiro assassino carregava as preocupações do seu diretor, Jean Renoir. O diretor francês, filho do pintor impressionista Pierre-Auguste, fez sucesso em seu país natal com histórias críticas como as obras-primas A Grande Ilusão e A Regra do Jogo.

Este seu primeiro filme nos EUA, foragido da guerra, não conquistou a crítica, mas a locação desolada, a trama de vingança e as imagens cruas chamaram a atenção – Dave Kehr no New York Times se impressionou com a “cruz de madeira rústica, plantada em um canal seco e encimada por um crânio humano” vista em certo momento como uma “imagem chocantemente mórbida para o normalmente caloroso e otimista Renoir”. 

O Segredo do Pântano fazia ponte com um lado mais naturalista de Renoir, visto em obras como A Cadela (1931), O Crime do Monsieur Lange (1936) e A Besta Humana (1938), o primeiro e o último adaptações de Émile Zola e que exploravam a degradação moral da França da virada do século. Naturalismo que descrito em estudos literários como ruptura com o romantismo, mas cuja crueza de sua ótica – o homem é resultado desse meio – deu origem a filmes impactaram muita gente, como Fritz Lang, que “adaptou as adaptações” de Renoir na forma dos noir Almas Perversas (1945) e Desejo Humano (1954), que você pode ler sobre nesse artigo.

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Vivien Leigh e Marlon Brando em cena de Um Bonde Chamado Desejo (1951)

O gótico sulista nos palcos

Começava a se destacar no teatro uma nova forma de expressão: a atuação de método. Tal modo de representação, baseado nos sistemas de atuação propostos pelo russo Constantin Stanislavski, baseava a atuação na memória afetiva do ator, que viveria a emoção dos personagens. O coletivo Group Theatre, que carregava consigo nomes fundamentais da dramaturgia americana no século XX, levou aos palcos da Broadway em 1947 Um Bonde Chamado Desejo, uma peça que logo de partida emplacou dois nomes: seu autor, Tennessee Williams e um de seus protagonistas, o ator Marlon Brando.

Natural do Mississippi, Williams venceu duas vezes o Prêmio Pullitzer de Teatro por duas peças que correspondem à temática a qual nos adereçamos aqui: com refinamento, era trabalhada a temática do deslocado aberrante em meio ao ambiente tradicional decadente, ou então do indivíduo tradicional e decadente não conseguindo adaptar-se a novos ambiente.

Isso gerou dois de seus protagonistas mais icônicos: em Um Bonde Chamado Desejo, a viúva sulista Blanche DuBois tem de morar de favor com a irmã e o cunhado em Nova Orleans. Seu passado às voltas com o suicídio do marido homossexual reprimido, o envolvimento escandaloso com um estudante menor de idade e um transtorno dissociativo nascido da ansiedade entre a imagem que apresenta e a realidade que vive a tornam a personagem arquetípica do Gótico Sulista. 

Enquanto isso, em Gata em Teto de Zinco Quente (1955), outra vencedora do Pullitzer, o autor evoca parte de sua própria vida na figura do protagonista Brick, um esportista em dúvidas com sua própria sexualidade, vivendo um casamento infeliz e atormentado pelo pai dominante e doente. Incapaz de exercer a profissão após um acidente, Brick afunda-se na bebida. De tão localizada, a dramaturgia da peça tinha grafia fora do padrão para representar sotaques. Causou escândalo assim várias outras peças de Williams pelo subtexto sexual fortíssimo representado em ambientes bem pouco liberais. 

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O Pequeno Rincão de Deus (1958), dirigido por Anthony Mann

Desejo e loucura na tela grande

O sucesso não tardou a chegar à máquina de Hollywood. Egresso do Group Theatre, Elia Kazan carregou quase todo o elenco do palco de Um Bonde Chamado Desejo para sua versão cinematográfica, Uma Rua Chamada Pecado (1951). O filme, apesar de criticado por “sanitizar” a questão sexual, localizando-a no subtexto entre atores, fez o nome da peça ao redor do mundo. Para o papel de Blanche, Kazan teve um toque de gênio ao escalar Vivien Leigh. Nas palavras de Bjerre, Blanche corporifica a “bela sulista presa no mundo moderno”, e quem era mais cristalizado no arquétipo que Leigh, a eterna e sofrida Scarlett O’Hara de …E o Vento Levou?

Williams seria levado às telas de novo em adaptação de Gata em Teto de Zinco Quente (1958) e Doce Pássaro da Juventude (1962), com Paul Newman estrelando as duas como um homem belo e desejado, mas rancoroso e vulnerável, incapaz de adaptar-se às tradições que o cercam. O sexo é tratado sem rodeios: em Doce Pássaro, Newman é perseguido por mafiosos por contaminar a filha de um figurão com doença venérea, ao mesmo tempo em que tenta uma carreira no cinema agradando uma atriz decadente.

Em Gata, entende-se que o melhor amigo de Brick era homossexual e que se suicidou após o protagonista resistir aos seus avanços. Culpado, o personagem de Newman quer beber até morrer. Mesmo cercado de belas mulheres que o desejam em ambos os filmes (Elizabeth Taylor, Geraldine Page, Shirley Knight), os erros do presente e demônios do passado se recusam a ir embora. 

O estilo começava a ser percebido; Kazan levaria ainda mais a intercessão entre decadência, violência e sexualidade em Boneca de Carne (1956). Enquanto isso, “distorcido” por Ford em Caminho Áspero, Erskine Caldwell teria uma nova chance ao ser adaptado por Anthony Mann em O Pequeno Rincão de Deus (1958), um filme às voltas com o quanto a pobreza e a loucura destroem as bases americanas.

Enquanto a família se envolve em relações de amor, ódio e sexo o patriarca de uma fazenda enlouquece e passa a cavar todo o seu terreno em busca de ouro. Atacado pela crítica à época, chama atenção pela faceta cômica usada para ressaltar o grotesco. O tom naturalista é ainda mais ressaltado, com o indivíduo arruinando o ambiente à sua volta e sendo arruinado por ele. No limiar do mau gosto, o ensandecido protagonista é capaz até mesmo de sequestrar um homem albino, acreditando em uma superstição que ele encontrará o ouro desejado. 

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O Sol é Para Todos (1962), dirigido por Robert Mulligan com base no best-seller de Harper Lee

Sombras populares

O pico máximo de popularidade foi com um livro de 1960 de Harper Lee e sua adaptação de dois anos depois estrelada por Gregory Peck: O Sol é Para todos (1962). Um filme cuja vivacidade esconde um lado mais sombrio, afinal de contas, trata-se de um livro sobre a morte da inocência, simbolizado no título original como “matar uma cotovia” (To Kill a Mockingbird). Uma criança acompanha como o pai, o advogado Atticus Finch, defende um negro acusado de estupro, enfrentando o sentimento racista da cidade. Vencedor de três Oscar de oito indicações, incluindo Roteiro e Ator, pode ser considerada a consagração de uma corrente. 

Outra articulação dramática pode ser vista em O Estranho que Nós Amamos (1971), uma das bem-sucedidas colaborações entre Don Siegel e Clint Eastwood, sobre um soldado do Norte tornando-se objeto de admiração, desejo e segredo entre mulheres do Sul. Explorando Norte e Sul, sexo e repressão, trata-se de uma obra sobre visões irreconciliáveis de mundo. No mesmo ano, Siegel e Clint estariam também entre as dez maiores bilheterias do país com Perseguidor Implacável (1971), o que ajudou este filme, que também conta com a presença estelar de Geraldine Page. Estaria o “maldito” Gótico Sulista caminhando para tornar-se respeitável?

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Noir e horror no sul de Coração Satânico (1987), dirigido por Alan Parker

A Era Moderna do Grotesco

Se você me insultar de novo, eu corto seu rosto fora e visto sobre o meu. Entendido?
Tracy Letts, Killer Joe


Para além do drama psicológico, também havia o carnaval de excessos do Gótico Sulista, que podem ser conferidos em algumas histórias: O Mensageiro do Diabo (1955), único filme dirigido pelo ator Charles Laughton, traz Robert Mitchum como um pastor que na verdade é um serial killer atrás do dinheiro de uma família sulista, onde o preto-e-branco marcado perverte imagens religiosas em ressignificações sombrias. Mitchum intimida com seu olhar profundo e as inscrições “AMOR” e “ÓDIO” nas falanges de seus dedos O sótão do filme é um arco quebrado gótico, uma masmorra renascentista onde habita um monstro. Laughton foi um dos que mais evocou por imagens a sensação da monstruosidade humana, mais terrível que qualquer fantasia.

Já em A Adolescente (1960), um dos únicos filmes americanos do mestre espanhol Luís Buñuel, o horror é social: acusado de um crime que não cometeu, um músico negro de jazz tem de fugir de linchadores racistas. Buñuel filma tudo com franqueza chocante, mas o pior está por vir. O protagonista acaba por aportar em uma ilha onde um guarda florestal abriga (ou mantém cativa) a neta do seu antecessor no cargo, por quem sente desejos pervertidos. Discriminado pelo homem que cuida da ilha, o protagonista conhece naquela noite infernal o lado feio da América: racista, abusiva e violenta. 

O gótico sulista também ressignificou gêneros como o noir ao aglutiná-lo, ajudando com sua vocação de contrastes monstruosos a dissipar ainda mais a linha entre bem e mal. O Círculo do Medo (1962) deixa de ser a típica história de bandido perseguindo a família quando entendemos a razão de Robert Mitchum perseguir Gregory Peck, trazendo o respeitável advogado ao seu baixo nível. A refilmagem Cabo do Medo (1991) de Scorsese repetiu o conceito de “atores estelares levados ao extremo”, mas nesse ocasião decuplicando a violência, além de um subtexto erótico perturbador.

Mas como apontado acima, o Gótico Sulista tem uma vocação inequívoca para retratar os horrores da carne do espírito, e essa era uma tendência que seria acentuada já a partir na década passada. Já citamos o filme de Buñuel, mas talvez as atenções mainstream para o “gótico grotesco” começariam a ser voltadas quando Robert Aldrich repetiu a parceria com Bette Davis e fez Com a Maldade na Alma (1964). Davis repetiu o papel de “hag”, ou “velha maluca” tornado arquétipo com O Que Terá Acontecido com Baby Jane? (1962), dessa vez dando vida a uma rica herdeira do Sul que resiste ser desapropriada de sua mansão. Seu estado mental degradado e talvez homicida, como sugere a história, é o principal ponto nevrálgico de tensão da história.  

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O Massacre da Serra Elétrica: o filme que inaugurou o slasher

O gótico sulista e o horror

Os desdobramentos do Gótico Sulista a partir daí guardariam profunda intimidade com o cinema de horror: em Amargo Pesadelo (1972) os personagens não encontram nobres famílias ao viajarem para o Sul, mas predadores sexuais e fúria natural os expulsando dali, obrigando-os a responder de acordo: com violência proporcional ou maior. Não há escapatória: a casa sulista de O Massacre da Serra Elétrica (1974) abriga assassinos canibais e incestuosos, em um filme que inaugurou um gênero de terror (o slasher) e o mais perturbador de tudo: inspirado na história verdadeira de Ed Gein.

Também Terror nas Trevas (1981), ainda que de produção italiana, ambienta sua história de desintegração da realidade a partir de antigas maldições da Louisiana. Já Quando Chega a Escuridão (1987) tira os vampiros dos castelos da Transilvânia e os enfia em uma van no Oklahoma.

O thriller sobrenatural Coração Satânico (1987) funde horror ocultista e policial noir na história ambientada no Sul. Mickey Rourke aparece como um detetive atormentado que mergulha em um Sul destruído e contaminado pelo mal nas figuras enigmáticas e poderosas de homens ricos, como o cliente interpretado por Robert De Niro. A alma humana parece estar em jogo aqui – e a um passo de ser tomada pelo diabo. Um filme quente, que sua pela película, pura expressão do desespero de se contemplar um ambiente destruído . 

É claro que ainda teríamos iterações, digamos, mais sofisticadas do gênero – Clint Eastwood dirigiu Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (1997) e Tim Burton carregou no colorido e flertou de leve com o Gótico Sulista em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), mas é possível verificar o quanto a ambientação do Gótico Sulista se articula com narrativas de gênero. 

Isso já era capaz de ser verificado quando Anne Rice já contava o drama da imortalidade no Sul profundo em Entrevista com o Vampiro (1976), que daria origem ao filme premiado de 1994, mas a produção cultural relativa ao Gótico Sulista acabou se modernizando dentro de modulações de arquétipo: o fanatismo religioso em A Mão do Diabo (2001), o horror sobrenatural de A Chave Mestra (2005), o clima quente e digno de pulp fiction de Entre o Céu e o Inferno (2006) e o suspense de mistério às voltas com tráfico de drogas em Inverno da Alma (2011).

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Um cinema de excessos em Killer Joe – Matador de Aluguel (2011)

Uma longa estrada

Se antes um filho bastardo, no novo século, o Gótico Sulista já se tornou uma tradição: Jeff Nichols parece nutrir apreço especial pelo gênero, vide O Abrigo (2011) e Amor Bandido (2012). As temáticas reciclam as obsessões do gênero: no primeiro, um pai de família tem visões apocalípticas e decide construir um refúgio. Isso custa todo o seu círculo social. Já no segundo filme, dois adolescentes conhecem a tragédia romântica de um foragido da lei. Atores sulistas Michael Shannon e Matthew McCounaughey complementam ainda mais a ambientação.

Já o veterano William Friedkin adaptou duas peças do dramaturgo Tracy Letts mostrou diálogos com o Gótico Sulista que esbanjam vitalidade: Possuídos (2006) é o gótico sulista pós-imperialismo ianque, com um veterano de guerra salvando a mulher de um marido abusivo apenas para tragá-la para uma espiral de loucura a ver com insetos.

O clima de loucura contagiosa continua em Killer Joe – Matador de Aluguel (2011), onde a noção de família nuclear é pervertida e não inocente como em O Mensageiro do Diabo. Apenas uma figura aberrante como um assassino contratado é capaz de purificar por intermédio de sexo, sangue e dor a sujeira moral dos protagonistas. McConaughey reina em tela como um personagem maior que a vida e uma cena sexual grotesca tornou-se infame. 

Uma dupla de policiais investiga o sul profundo na primeira temporada de True Detective (2014)
Uma dupla de policiais investiga o sul profundo na primeira temporada de True Detective (2014)

Novos caminhos

O gênero também passa a mostrar relevância na televisão: True Blood (2008-2014) mescla monstros tradicionais do horror com a ambientação única do Sul, Justified (2010) traz as narrativas de crime para o Kentucky rural e Lovecraft Country (2020) traz os mitos de Lovecraft atualizados sob a ótica do racismo, desconstruindo os escritos do xenófobo autor em um horror de deslocamento.

Mas talvez o produto mais representativo da tela pequena seja a primeira temporada de True Detective (2014), onde dois detetives da polícia perseguem o autor de assassinatos bizarros e acabam encontrando pelo caminho cultos religiosos fundamentalistas, cartéis de droga e uma fascinação pelo oculto que esfrega no rosto da América oficial o seu lado renegado. Mesclando o gótico americano e o horror e protagonizado por uma dupla de protagonistas cínicos que tentam manter a sanidade, é considerado um novo clássico da TV.

Natural do Missouri, Gillian Flynn é o nome que mais revitaliza o gênero desde o supracitado Tracy Letts: seus romances Objetos Cortantes (2006), Lugares Escuros (2009) e Garota Exemplar (2012) conflitam cidade e campo, tradição e modernidade, casamento e traição, família e paixão de maneira singular.

Objetos Cortantes é talvez o mais arquetípico do gênero, onde uma jornalista com tendências à automutilação tem de enfrentar seu passado, voltando à sua cidade natal para investigar um crime enquanto tem de lidar com uma mãe aristocrática e uma meio-irmã rebelde. Todos deram origens a adaptações com nomes estelares na frente e atrás das câmeras, como os atores Amy Adams, Ben Affleck, Charlize Theron e os diretores David Fincher e Jean-Marc Vallée, colocando Flynn como uma das autoras mais destacadas dos últimos quinze anos. 

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O chocante sermão das aranhas em O Diabo de Cada Dia (2020)

Em um passado recente…

Uma forte evidência para detectar a importância está em um de seus exemplares mais recentes, O Diabo de Cada Dia (2020). Uma obra com narrativa que atravessa décadas e oganiza um coral de vários personagens que são um microcosmo muito representativo de como o americano comum é afetado pelas transformações no seu entorno.

Em um filme-coral que coleciona os arquétipos do gênero, temos um veterano de guerra incapaz de lidar com a perda; um pastor que cita a bíblia de cor e salteado que em segredo é um aliciador sexual; um fanático religioso capaz de ir até o limite para provar sua fé; um casal de assassinos de caroneiros. O que temos mais perto de um protagonista, o personagem de Tom Holland, após sofrer todo tipo de desgraça em sua vida, participa de atos de violência enquanto, de cabeça baixa, pede perdão aos céus.

A obra de Antonio Campos é carregada de imagens religiosas, mas nunca de maneira catártica, esperançosa – muitas vezes são expressão de desespero, com o homem parecendo ser condenado ao erro. Talvez a única redenção seja a vontade de viver e o desejo por uma vida digna 

Como visto nessa narrativa de dois séculos vista acima, o Gótico Sulista é, por direito, uma das correntes responsáveis pela crônica das transformações culturais, uma voz única e ousada que transgride os limites da representação de impulsos humanos como sexo e violência, atravessando a história do país como um narrador indesejado, que se antes rejeitado, apresentou uma pungência tão perturbadora que no final das contas, acabou por tornar-se necessário para entender a história dos Estados Unidos – nem que seja da maneira que o mesmo não queira ser compreendido.


Obras citadas:

O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, 1915), D.W. Griffith; …E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939), Victor Fleming; Caminho Áspero (Tobacco Road, 1941), John Ford; O Segredo do Pântano (Swamp Water, 1941); A Grande Ilusão (La Grande Illusion, 1937); A Regra do Jogo (La règle du jeu, 1939); A Cadela (La Chienne, 1931); O Crime do Monsieur Lange (Le Crime de Monsieur Lange, 1936); A Besta Humana (La bête humaine, 1938), Jean Renoir; Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951); Boneca de Carne (Baby Doll, 1956), Elia Kazan; Gata em Teto de Zinco Quente (Cat in a Hot Tin Roof, 1958); Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth, 1962), Richard Brooks; O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, 1958), Anthony Mann; O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), Robert Mulligan; O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 1971); Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), Don Siegel; O Mensageiro do Diabo (Night of The Hunter, 1955), Charles Laughton; A Adolescente (The Young One, 1960), Luís Buñuel; Círculo do Medo (Cape Fear, 1962), J. Lee Thompson; Cabo do Medo (Cape Fear, 1991), Martin Scorsese; Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte, 1964); O Que Terá acontecido com Baby Jane? (What Ever Happened To Baby Jane?, 1962), Robert Aldrich; Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972), John Boorman O Massacre da Serra Elétrica (The Texas CHainsaw Massacre, 1974), Tobe Hooper; Terror nas Trevas (The Beyond, 1981), Lucio Fulci; Coração Satânico (Angel Heart, 1987), Alan Parker; Quando Chega a Escuridão (Near Dark, 1987), Kathryn Bigelow; Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight In The Garden of Good and Evil, 1996), Clint Eastwood; Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (Big Fish, 2003), Tim Burton; Entrevista com o Vampiro (Interview With The Vampire, 1994), Neil Jordan; A Mão do Diabo (Frailty, 2001), Bill Paxton; A Chave Mestra (The Skeleton Key, 2005), Iain Softley; Entre o Céu e o Inferno (Black Snake Moan, 2007), Craig Brewer; Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010), Debra Granik; O Abrigo (Take Shelter, 2011); Amor Bandido (Mud, 2012), Jeff Nichols; Possuídos (Bug, 2006); Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, 2011), William Friedkin; True Blood (2008-2014), Alan Ball; Justified (2010-2015), Graham Yost; Lovecraft Country (2020), Misha Green; True Detective (2014-), Nic Pizzolatto; Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), David Fincher; Lugares Escuros (Dark Places, 2015) Giles Paquet-Brenner; Objetos Cortantes, Jean-Marc Vallée (Sharp Objects, 2018); O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, 2020), Antonio Campos.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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