Democracia ou farsa? 5 filmes sobre a política estadunidense

A edição nº 02 dessa revista seria, inicialmente, lançada em dezembro. Mês em que se discutia os melhores filmes do ano e o Presidente dos Estados Unidos parecia mais calmo. Assim, apostamos no porvir de janeiro. Em como a iminência da posse de Joe Biden poderia inflamar o gênio ferino de Donald Trump. Dito e feito! Enquanto o mundo assistia atônito à invasão do Capitólio no último dia 6, o grupo dos editores da Revista Cine Cafe bombava por causa da adivinhação. O timing parecia perfeito.

Ao longo de todas essas páginas de discussão, abordamos mais de uma vez que os Estados Unidos têm mania de grandeza. Esse é um traço de sua identidade nacional que impulsionou sua expansão territorial rumo ao Oeste e, depois, rompeu sua postura isolacionista para abraçar a condição de maior potência do mundo — e, com isso, impor seus interesses sobre o restante dele. Nesse contexto, não surpreende que o país se considere a maior democracia de todas. Já foi.

Os Estados Unidos são a democracia mais antiga do mundo. Ou, em outras palavras, são a nação fundadora do regime democrático moderno. É assim porque os Patriotas que declararam sua independência, no dia 4 de julho de 1776, fizeram isso para se livrar do autoritarismo do Império Britânico. Sendo que o regime inglês, com sua monarquia constitucional, já era o sistema que mais se aproximava de uma democracia. Coube, então, aos pais fundadores dos EUA admitir seu pioneirismo, criar a primeira Constituição da História (em 1787) e um sistema de governo novo, baseado em três poderes independentes e responsáveis por garantir a democracia e seu bem mais caro: a liberdade.

O que a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro diz sobre a "maior democracia do mundo"?
O que a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro diz sobre a “maior democracia do mundo”?

O problema é que o ser humano tem uma vocação particular por distorcer o real sentido de liberdade. Numa democracia de fato, liberdade é um direito coletivo. Ou seja, todos possuem esse mesmo direito; portanto, a liberdade individual de A não pode atacar a liberdade individual de B. Num exemplo simples, uma pessoa não tem o direito de tirar a vida de outra, tampouco pode alegar que cometeu o assassinato num momento de gozo de sua liberdade individual. “Seu direito termina onde o direito do outro começa”. Aprendi isso pequeno e nunca esqueci.

Mas já violei esse princípio. Todos violamos ao longo da vida. Nos momentos mais cotidianos, nas pequenas injustiças do dia a dia, cometemos falhas dessa natureza em escala pessoal. Pois os pais fundadores dos Estados Unidos cometeram essa falha em escala federal. Desde sua primeira Constituição. Negando a negros, indígenas, mulheres, pobres, analfabetos e outras minorias os direitos que eles — homens, brancos, saxões e protestantes (WASP), além de educados e ricos — possuíam em sua totalidade. Como, por exemplo, o direito ao voto.

O que esse contexto nos apresenta é que a democracia mais antiga do mundo sempre foi uma “democracia”. Nunca foi uma democracia de fato, para todos e plena. E os eventos do dia 6 de janeiro de 2021 em Washington D.C. nos ajudam a lembrar disso. Quando uma turba de vândalos predominantemente brancos e homens se revolta contra a maior expressão de sua democracia (uma eleição decidida no voto), insuflados pelo próprio Presidente dos Estados Unidos (!), testemunhamos a variante grotesca de um desrespeito ao coletivo que se manifesta continuamente desde 1787. A diferença é que, geralmente, isso ocorre de maneira furtiva, institucional, política.

Já que somos uma revista de cinema (lembra?), essa discussão continua com 5 filmes para entender a política estadunidense — e como esse sistema não faz jus ao título de “maior democracia do mundo” autodeclarado pelos Estados Unidos.

Noam Chomsky em Requiem For The American Dream (2015), filme que denuncia a democracia americana como uma falsa democracia.

Requiem For The American Dream

O nome e o brilhantismo de Noam Chomsky me são familiares desde 2005, tempo em que estudava Linguística na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Qual não foi minha surpresa quando, anos depois, eu o reencontrei em outro campo, o da política. E, aqui, elucidando questões que me afligiam bem mais, que diziam (e ainda dizem) respeito à extrema desigualdade social que enfrentamos e ao fracasso dos sistemas políticos em garantir a democracia.

Os estudos de Noam Chomsky me mostraram que, parafraseando Darcy Ribeiro, a crise da democracia não é uma crise, é um projeto. E o material do pensador político que desenvolve essa perspectiva de maneira mais acessível é um documentário: Requiem For The American Dream (2015), adaptação do seu livro homônimo que enumera os 10 princípios de concentração de riqueza e poder. Em suma, a riqueza como poder para moldar a democracia para manutenção… da riqueza e do poder de homens ricos e poderosos.

Arte que explica a democracia americana.
Autoexplicativo.

Chomsky apresenta a origem desse círculo vicioso em seu primeiro princípio, intitulado “reduza a democracia”. O título é uma representação fiel da preocupação principal de James Madison ao, veja bem, criar a Constituição Federal do Estados Unidos da América! Nas palavras de Madison: “A maior preocupação da sociedade deve ser proteger a minoria dos abastados da maioria [pobre]”. Enquanto, há mais de 2 mil anos, Aristóteles resolvia esse mesmo dilema com uma proposta de diminuição das desigualdades, Madison propôs limitar a democracia (e, consequentemente, a liberdade) para poucos privilegiados. A adesão ao seu projeto foi tamanha que ele se tornaria um dos pais fundadores mais proeminentes do país e, rá!, o 4º Presidente dos Estados Unidos.

O resultado desse pensamento foi, em um primeiro momento, um sistema político limitado a essa elite branca, rica e masculina, do direito a eleger ao de ser eleito. Então, o documentário mostra como a abertura de representação parlamentar foi acontecendo gradativamente ao crescente de leis protecionistas a essa casta de homens. Ao longo de toda a História americana, de modo que isso se manifesta, até hoje, de diferentes formas. Chomsky demonstra, ainda, que a principal faceta desse fenômeno no mundo atual, desde a década de 1970, é o neoliberalismo econômico.

Os diretores Peter Hutchinson, Kelly Nyks e Jared P. Scott apresentam essas teses com o devido respeito pela obra literária de seu autor. Aliando o grau de profundidade e informação que o material exige a um formato didático, ilustrado e fluido. A vênia é tanta que Noam Chomsky é o narrador de Requiem For The American Dream, o filme — um dos melhores da faixa de documentários políticos.

Lincoln (2012), ficção sobre esse ícone da democracia estadunidense.

Lincoln

Aos 10 anos de crítica e 34 de idade, hoje eu entendo perfeitamente por que detestei Lincoln (2012) em sua data de lançamento. Primeiro, um filme totalmente diferente do esperado de Steven Spielberg — de quem, mesmo em suas obras políticas mais sérias, eu sempre tive algo dinâmico e acessível, como (o ótimo) Munique (2005). Depois, porque esperava um épico ilustrativo, com uma bela lição de História, gostosa e didática como Requiem For The American Dream, e fui bombardeado por 150 minutos de intensa verborragia da qual eu não conseguia assimilar nada. Impossível.

Lincoln, agora eu percebo, é um filme que serve ao contrário: como um material complementar para quem já conhece a História. Para enriquecer seu conhecimento prévio com dramatização, para testemunhar diálogos específicos, para visualizar os cenários que apenas imaginara (se tanto)… Pois se trata de um projeto extremamente idiossincrático, para o povo de seu país mesmo ou quem se interessa pelo estudo e compreensão da política estadunidense. A tortura da primeira sessão virou diversão nessa revisão (desculpa o refrão).

Só então, só hoje, há pouco, eu pude perceber a imensa dedicação de Steven Spielberg aos detalhes de Lincoln, usufruir do talento genial de Daniel Day-Lewis por completo e da reconstituição de época que se compara ao meu filme de época favorito, a obra-prima Barry Lyndon (1975) de Stanley Kubrick. Pensando bem, em 2013 eu me incomodei com o aspecto sombrio de sua fotografia, que tão bem captura a atmosfera daquele momento após 4 anos intensos de estadunidenses matando os seus próprios irmãos. Essa maturidade é tão transformadora que, ao me surpreender com a granulação de filme, de fita mesmo do longa-metragem, eu ri da minha própria insolência, por desgostar tanto de uma obra para a qual não estava preparado.

Guerra de Secessão, momento importante da democracia americana.
Sobre a sangrenta Guerra Civil Americana.

Há 1 mês, estudando para essa edição da revista, eu obtive uma informação inédita sobre Abraham Lincoln: de que ele não era verdadeiramente contra a escravidão. Por causa da seguinte citação:

Meu objetivo principal nesta luta é salvar a União, não é salvar ou destruir a escravidão.
Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu o faria;
se pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu faria isso;
e se pudesse fazer isso libertando alguns e deixando outros para lá, eu também faria isso.

Antes de rever Lincoln, quando decidi escrever esse texto, aprofundei a pesquisa sobre o político. E, para nova surpresa, descobri um homem diferente do pragmático insensível sugerido pelo historiador ao citar o trecho acima. A citação é literal, mas o contexto transforma sua conotação: a frase foi dita em resposta ao jornalista Horace Greeley, do New York Tribune, que (legitimamente) pressionava o presidente pelo fim da escravidão. Suas palavras são, ao mesmo tempo, um recado para Greeley e os abolicionistas que, em seu sentimento, o antagonizavam; para a nação, empunhando a bandeira da União e dos Estados Unidos; e para todos os deputados e senadores que ele precisaria convencer para, enfim, abolir a escravidão — que era, sim, o seu desejo. Tanto que, nessa ocasião, ele trabalhava na redação da Proclamação de Emancipação, expedida em setembro de 1862.

15 de abril de 1865: um dia fatídico na história da democracia americana
Mary Todd e Abraham Lincoln: reconstituição do fatídico 15 de abril de 1865.

É bem verdade que o empenho abolicionista da União se pautava em anseios industriais, capitalistas e territoriais: transformar os escravos libertos em mão de obra barata, mercado consumidor e massa de povoamento do Oeste agrário. Porém, Lincoln retrata um cenário que representa perfeitamente a história de Lincoln: um homem de fala mansa, ideário firme e convicção inabalável, que precisou fazer muita política e muitos cálculos, ser inteligente e cirúrgico, para pensar todos os cenários e mover as peças no momento certo. Fez tudo isso com maestria e o fez em prol de terceiros, assumindo riscos imensos e, como sabemos, irreversíveis.

É um erro comum julgar homens do passado pelas réguas do presente. Porém, Lincoln foi uma figura tão grandiosa, tão convicta na defesa do que é certo, que dispensa esse esforço. Esforço, aliás, é negar sua história, sua postura coerente em defesa dos direitos das minorias (como um legítimo representante do Partido Whig) e seu esforço para aprovar a 13ª Emenda. Esforço este tamanho que alcançou seu árduo objetivo ao custo da própria vida. Coube à História, e ao Spielberg, fazer jus à rara expressão de liberdade e democracia (e liderança, e sabedoria, e abnegação) representada por Abraham Lincoln na cadeira de Presidente dos Estados Unidos.

E pensar que Donald Trump (um tapado e um covarde) teve a audácia de se comparar a Lincoln, um homem de verdade. Haja paciência…

Kevin Costner em JFK (1991)

JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar

Um dos artigos da presente edição da revista discute como o país do futebol americano tem a violência como um traço identitário fundamental na formação dos Estados Unidos; e como os irmãos Coen manipulam esse fetiche em seu cinema e retratam essa violência como um carma, um fardo com que o homem branco tem de lidar após seu expansionismo genocida rumo ao Oeste.

Aí eu pergunto: existe melhor argumento para isso que o assassinato de um presidente?

Um, não. Dois!

Abraham Lincoln e John Fitzgerald Kennedy.

JFK foi uma figura particularmente fascinante. Complexa. Um gentleman perante a opinião pública e um homem, no íntimo, dividido entre duas mulheres: a sex symbol Marilyn Monroe e uma das primeiras-damas mais midiáticas da História, Jackie Kennedy. Um presidente muito popular apesar de católico, o primeiro no comando de um país baseado no cristianismo protestante e suas doutrinas. John Kennedy tinha uma inteligência e um carisma privilegiados, e foi um grande interventor militar nos países da América Latina, inclusive por aqui, apoiando a ditadura no Brasil.

O destino de JFK é, portanto, a mais clara expressão da releitura que Ethan e Joel Coen fazem do fardo do homem branco e de que os Estados Unidos estão longe de ser, na prática, a maior democracia do mundo. Pura propaganda e megalomania.

Se tem um legítimo cidadão estadunidense que questiona esse título, esse alguém é Oliver Stone. E estamos falando de um americano de excelência, que serviu voluntariamente no Vietnã e, anos depois, usaria sua experiência na guerra para realizar grandes filmes de heróis de seu país, como Platoon (1986) e Nascido em 4 de Julho (1989), pelos quais ganhou seus 2 Oscars de melhor diretor. Portanto, um cineasta e um patriota de respeito. Ao seu modo, contribuindo para a democracia dos Estados Unidos pelo questionamento do que possa haver de errado em seu sistema político.

E um dos grandes erros da História estadunidense no século 20 foi o assassinato de John Kennedy e, segundo alguns autores, a investigação desse crime. JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (1991) se baseia nos livros JFK – Na Trilha dos Assassinos (1988), de Jim Garrison, e Crossfire: The Plot That Killed Kennedy (1989), de Jim Marrs, para traçar uma teoria complexa sobre a conspiração tramada por um empresário de Nova Orleans, Clay Shaw (Tommy Lee Jones), para matar o 35º Presidente dos Estados Unidos.

Em defesa da democracia: o promotor Jim Garrison (Kevin Costner) faz de tudo para descobrir o que de fato aconteceu no dia da morte de JFK.
Kevin Costner como o promotor Jim Garrison

A dedicação de Oliver Stone é imensa, tanto pela forma com que reconstitui passo a passo os eventos daquele fatídico 22 de novembro de 1963, como por dedicar 3 horas e 26 minutos de filme (no corte do diretor) para defender com a devida profundidade essa teoria tão premente (levantada por um órgão do governo, o Comitê da Câmara sobre Assassinatos, em 1979). Kevin Costner foi elogiado por sua atuação como o promotor Jim Garrison e o longa-metragem venceu 2 Oscars, por sua fotografia e sua melhor qualidade, a montagem. De um modo geral, a sétima arte endossou o trabalho do Stone pela coragem e pelo detalhismo, inclusive motivando um documentário complementar, Beyond ‘JFK’: The Question of Conspiracy (1992), que você também encontra (assim como JFK) no Prime Video.

Fora da bolha do cinema, no entanto, a obra foi detonada por repercutir teses supostamente infundadas sobre um crime solucionado: Lee Harvey Oswald seria o assassino do presidente, muito embora ele tenha afirmado que fora usado como bode expiatório e tendo sido, ele também, morto apenas dois dias após a fatalidade envolvendo JFK. Muito estranho, não? Tanto que, até hoje, um dos maiores mistérios da cultura pop e da sociedade ianque como um todo é quem seria o verdadeiro assassino ou mandante do crime — o que denota a desconfiança de um povo sobre o pleno funcionamento das instituições desse país que se gaba de ser a maior democracia de todas.

American Dharma (2018)

American Dharma

“Você pode me odiar, você pode odiar aquilo que eu represento, mas nós teremos uma revolução nesse país. Está chegando.” — Steve Bannon, 2018

Dirigido por Errol Morris, American Dharma (2018) constrói um retrato difuso de Steve Bannon, banqueiro tornado cineasta tornado jornalista e finalmente conselheiro político, mais notoriamente para a campanha presidencial de Donald Trump em 2016. Morris, um documentarista incisivo e multipremiado, foi bastante criticado quando do lançamento do filme, por sua aproximação dócil do sujeito que buscou retratar. De fato, o documentário não é muito literal em contra-argumentar as exposições que Bannon realiza durante seus 95 minutos. Porém, talvez o que Morris pretenda é que os discursos de Steve sirvam, por si só, como revelação de seu caráter odioso.

Quando Bannon cita Almas Em Chamas (1949) como uma obra particularmente formadora, Morris argumenta que sua história expõe claramente dois tipos de lideranças: uma ultrassensível, e uma fundamentalmente durona. Bannon retruca dizendo que o personagem de Gregory Peck não é um durão, mas um líder que entende seu dharma, que entende o que deve fazer. Para Bannon, cujas falas exibem um sincretismo católico e profundamente esotérico, “dharma” seria a combinação de dever e destino.

Morris e Bannon.

Em Almas Em Chamas, o personagem de Gregory Peck faz um discurso desanimador, visando destroçar as esperanças de seus soldados em retornarem vivos para casa. O General Savage (Peck) quer que eles sejam máquinas de matar, que lutem e se sacrifiquem pelo bem maior. Bannon complementa essa cena dizendo que a mensagem do filme é de que a modernidade é baseada na emoção, que muitas vezes impede a concretização dos destinos individuais e coletivos de determinado grupo. Por não temer ser odiado e fazer aquilo que julga ser seu dever, Peck cumpre seu seu destino, cumpre o seu dharma. Para Steve, Savage é Donald Trump.

Acima de tudo, talvez o que Bannon enxergue ou projete no General Savage seja essa retórica aniquiladora. Quando Morris questiona a contradição latente entre o populismo retórico de Trump e sua subserviência à grandes corporações, ele sugere que Bannon não deseja efetuar mudanças para o melhor o bem-estar social, mas apenas “destruir tudo”.

Ainda que Trump tenha nos últimos anos de seu mandato buscado um afastamento de seu gerente de campanha, inegavelmente os germes retóricos de Bannon já estavam instalados, de maneira que a Invasão do Capitólio pode ser enxergada, à luz do documentário, como uma espécie de concretização dessa retórica, disruptiva por natureza e responsável pela aparente queda de Trump como ícone republicano. Diante dessas questões, o espírito rompedor de Steve Bannon continuará vivo na índole da extrema-direita? A astúcia e a sedução de sua retórica farão com que ele volte a ficar em evidência? Ainda que Trump tenha caído, a divisão que Steve buscou promover continua formatada na sociedade americana, além de ter se alastrado por Brasil, Hungria, Reino Unido e muitos outros países. Resta saber como essas sociedades responderão aos desdobramentos históricos que estão por vir.

Texto de Guilherme Bakunin

Até o Fim: A Luta Pela Democracia (2020)

Até o Fim: A Luta Pela Democracia

2020 foi um ano pródigo de filmes que discutem a democracia no mundo. Na minha bolha, os mais bem-sucedidos foram aqueles que discutem um mal que é pauta global: o avanço da extrema-direita no mundo e seu usufruto das redes sociais como plataforma de disseminação de ódio. O documentário o Dilema das Redes (2020) e a ficção Rede de Ódio (2020) foram os principais representantes dessa casta. Ambos ótimos, porém nenhum tão importante em termos de denúncia quanto um doc que passou praticamente despercebido: Até o Fim: A Luta Pela Democracia (2020).

Se até agora você não entendeu o que aconteceu no Capitólio no dia 6 de janeiro, fica tranquilo: você só precisa de acesso ao Prime Video da Amazon e 1 hora e meia do seu tempo. Pois aquele episódio é consequência direta das denúncias apresentadas pelas diretoras Lisa Cortes e Liz Garbus. Uma pergunta no início de All In: Fight For Democracy sintetiza sua premissa: “Se o voto é importante e igualitário, por que certas pessoas, de certas regiões e de certas origens estão tendo seu direito a voto limitado?”. O questionamento é feito por uma mulher negra.

"Vote!", um movimento histórico, pela democracia, resgatado com força em 2020.
“Vote!”, um movimento histórico resgatado em 2020.

Até o Fim: A Luta Pela Democracia revela como o sistema eleitoral americano não autoriza muitas pessoas a votar, desautoriza tantas outras e desmotiva todas elas. E que a supressão de votos “é uma prática tão antiga quanto a nação”, o que remonta a Requiem For The American Dream e à proposta de James Madison quando da fundação dos Estados Unidos. Portanto, mesmo que você tenha acompanhado tudo que aconteceu nos últimos meses — como a briga de Donald Trump para impedir a votação por correio apesar da pandemia —, o documentário servirá como aprofundamento do que vem acontecendo atualmente e por sua contextualização com momentos históricos do país no passado.

Liz e Lisa tiveram a extrema felicidade de convidar uma porta-voz do direito ao voto das minorias para enriquecer a narrativa: Stacey Abrams, figura em ascensão na política estadunidense que sente na pele a dor da supressão de votos, de formas bem diferentes. Primeiro, pelo histórico de sua família, impedida de votar em um dos estados mais racistas dos Estados Unidos, o Mississípi. Depois, quando ela própria concorreu ao governo da Geórgia e foi vítima dessa prática: porque uma parcela significativa de seu eleitorado não foi às urnas e porque sua derrota, por uma margem ínfima, foi declarada enquanto votos ainda eram contabilizados e, em sua grande maioria, eram atribuídos a ela.

A postura de Stacey Abrams durante a contagem dos votos, logo após seu rival Brian Kemp cantar vitória antecipadamente, foi igual à do também democrata Al Gore na polêmica disputa presidencial de 2000, contra George W. Bush: reconhecer a eleição de seu oponente, em nome da democracia. No entanto, Abrams fez isso com um discurso poderoso sobre a premência de se respeitar cada voto nos Estados Unidos.

Assim, além de rememorar o passado, a encenação da experiência pessoal de Stacey Abrams também foi premonitória. Do ponto de vista republicano, ao prever que Donald Trump tentaria ganhar no grito e interromper a eleição antes do fim da contagem de votos (com o patético “Stop the count!”, o tuíte que virou meme). Do lado democrata, pelo peso decisivo que os votos por correio computados tardiamente tiveram para a eleição de Joe Biden.

Quis o destino que ela própria também tivesse esse peso: graças à sua campanha de regularização eleitoral de minorias, sua insistência da importância de que (principalmente) os negros e negras fossem às urnas e seu apoio convicto a Joe Biden, os democratas ganharam os 16 votos do estado da Geórgia pela primeira vez desde 1992, quando Bill Clinton foi eleito presidente. Isso mesmo: nem Barack Obama venceu por lá.

E fez mais. Enquanto uma maioria de homens brancos reacionários destruía o Capitólio, a construção de Stacey Abrams no conservador estado da Geórgia permitiu que os dois candidatos democratas (o jornalista e cineasta progressista Jon Ossoff e o pastor afroamericano Raphael Warnock) ganhassem as cadeiras para o Senado. No mesmo dia 6 de janeiro. Histórico.

Até o Fim: A Luta Pela Democracia é um documentário bem convencional em seu formato; ali, o que vale e entretém é a gravidade do seu discurso. Mas o cartaz do filme tem uma arte que muito me agrada, referencial ao Mito de Sísifo — personagem da mitologia grega condenado a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma montanha. O recado é claro: a luta pela democracia deve ser um esforço constante, ininterrupto, pois assim também é a força sobrenatural que empurra a pedra de volta para baixo sempre que Sísifo chega ao topo. Literalmente, uma vez que Stacey Abrams luta contra uma força institucional lavrada em 1787 pelos pais fundadores dos Estados Unidos.


Obras citadas:

Barry Lyndon (1975), Stanley Kubrick; Platoon (1986), Oliver Stone; JFK – Na Trilha dos Assassinos (On the Trail of the Assasins, 1988), Jim Garrison; Crossfire: The Plot That Killed Kennedy (1989), Jim Marrs; Nascido em 4 de Julho (Born on the 4th July, 1989), Oliver Stone; JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK, 1991), Oliver Stone; Beyond ‘JFK’: The Question of Conspiracy (1992), Danny Schechter, Barbara Kopple; Munique (Munich, 2005), Steven Spielberg; Lincoln (2012), Steven Spielberg; Requiem For The American Dream (2015), Peter Hutchison, Kelly Nyks, Jared P. Scott; American Dharma (2018), Errol Morris; Almas Em Chamas (Twelve O’Clock High, 1949), Henry King; Até o Fim: A Luta Pela Democracia (All In: The Fight for Democracy, 2020), Lisa Cortes, Liz Garbus; O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020), Jeff Orlowski; Rede de Ódio (Sala samobójców. Hejter, 2020), Jan Komasa.

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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