Canibais e o massacre do ativismo imbecil

Canibais (2013) é mais um filme racistoso de índios canibais. Homenageando o cinema das tribos antropofágicas, trabalhando majoritariamente em cima do Holocausto Canibal (1980), obra-prima do Ruggero Deodato. Pegando na veia do visual amadoresco de sua inspiração, mas sem o caráter de found footage ou mockumentary, terminologias nem alcunhadas à época do original. Porém aposta na violência gráfica e na temática escrota de merenda com carne humana. Produção da Blumhouse, que ousou investir no Eli Roth como diretor desta bagaça. Se tem uma coisa que eu respeito no Eli Roth, é que ele está pouco se fodendo para alguns limites. Se é pra aloprar, ele vai em frente e mete um humor altamente doentio no troço. Inclusive o tom avulso é assumido desde seu letreiro brega que parece feito no Wordart. É a vantagem de se ter liberdade total para destroçar. Mas o cara vai fazer uma homenagem bagaceira dum clássico altamente controverso? Tem que chutar o balde mesmo. Mesmo assim, apesar da violência, seboseira e os caralhos, o Roth poderia ter aloprado bem mais nesse projeto. O Albergue (2005) é bem mais visceral, por exemplo. Mas entendo que a intenção dele era de caráter espontâneo no gore, onde no citado O Albergue é algo grosseiro, mas fetichista e com um trabalho de cores especificado. Só não conseguiu obter aqui o resultado da naturalização escrotista proposta no embrião da coisa.

Planos chapados. De testa. Sem frescuras ou tratos mais bem acabados. É o aspecto documental buscado. O tal naturalismo das imagens com cores equilibradas de início, antes do destroçamento. Lavadas. A posteriori teremos uma proeminência do inferno verde que a titulação original enseja. E bem contradita pelo vermelho dos autóctones. Sem fugir desse naturalismo seboso. A construção dos planos na decupagem de Canibais segue o ordinário tranquilamente. Para o que o filme se propõe, é coerente. Nada muito arrumado. Roth nem se importa com isso. Filme de gente meio doente. Só meio. Mas a diferenciação de cores citada se faz presente e funciona a partir do segundo ato, na chegada à floresta. Ali esquecemos o cheiro da universidade e seus ativistas de merda para sentirmos cheiro de sangue, tripas, fumaça de vísceras e de bosta. Desse mérito o diretor vagabundo e sua equipe de fotografia e montagem podem ser acusados.

Nativa da chefia dos canibais. Altamente escrota.

E a delicadeza dos temas? Mutilação genital pra começar. Gerando um debate besta e raso. Claro, são bichos neófitos nas universidades. Semivirgens pós-adolescência que não conhecem porra nenhuma. Mas a fita dá a dica do preparo para alguma merda futura. Uma pílula óbvia dada aqui. Em seguida a isto, somos apresentados ao besteirol do enchimento de saco da militância ambiental classemedista. Vazia e cheia de conversa mole e valentia de goela. Uns gatos (e gatas) pingados com probleminhas de consciência moral e ambiental sem saber o que fazer disso, que decidem tocar violão, levantar cartazes e gritar palavras de ordem avulsas. É o branco na sua ânsia em mudar a perspectiva de outrem sem querer enxergar as profundas merdas hipócritas cometidas pelos seus. Merecem se lascar mesmo. Tanto que aqui as frases feitas comem soltas em diálogos expositivos demais, como quando numa das reuniões o ativista-mor Alejandro toca seu violão e cantarola pela paz e depois quando reunido explicita o plano do acorrentamento pela paz de maneira bem avulsa. Acaba por irem todos cantarolando até a Amazônia peruana, sem que os supostos a serem protegidos os convidasse. É a crise de representatividade própria. Quando chegam, conseguem plateia internacional, mas acabam nas mãos da tribo que queriam proteger e se lascam do primeiro ao décimo. Canibais é massa nisso.

O missionarismo de vacilo

Isto me lembra o missionário norte-americano vacilão John Allen Chau, que papocou à base de flechadas em 2018, no Oceano Índico, quando tentava invadir na marra a ilha de North Sentinel, pertencente à Índia. Quis apresentar o cristianismo entrando nessa ilha, coisa que é proibida por lei da Índia para quem quer que seja. País este que tentara por décadas uma aproximação cultural e social com o povo daquela localidade inóspita. Uma tribo (de cerca de 150 almas) absolutamente isolada e que, segundo estudiosos, estão por ali há cerca de 60 mil anos – que vive na ilha e que sempre os hostilizaram de volta. A Índia desistiu da questão em 1990, declarando espaço de preservação e impondo proibição à aproximação a menos de 5 quilômetros da ilha. Além do fato da lei ter sido quebrada – por Chau e por alguns pescadores que ganharam uma verba para deixar o cara por perto –, a invasão é de um profundo desrespeito cultural, moral e social diante da autodeterminação dos povos. Mas o tesão em crer que sua religião é superior à do próximo é uma merda de suposta superioridade cultural, o que missionários não assumem nem na paulada, já que a simulação deles é pela causa da tal apresentação de Jesus aos hereges. Ou seja, apelam para uma construção absurda baseada nas próprias crenças para subjugar seres considerados inferiores.

O ativismo colorido cegueta bebe um bocado dessa fonte. Percebemos isso nesse Canibais exatamente no debate idiota sobre o horror da mutilação genital. Não há aprofundamento nenhum da questão (aliás, este filme não é pra isso), mas fica a percepção da menina branca rica querendo resolver os absurdos do mundo e foda-se em que cultura ela interfira. Tem que detonar e pronto. Sem nenhum tipo de pensamento do escroto impacto externo e como isso pode ser destroçador para uma pequena comunidade. Divaguei pra cacete nisso porque é um tema que me interessa e o filme não entra demais na questão da mesma forma que um grupelho de militantes imbecis também não entraria em grande parte das vezes. É rotular? Sim. Clichê? Sim. Mas baseado em comprovações.

Missionário norte-americano John Allen Chau nas proximidades da proibitiva ilha.

O missionarismo é braço do colonialismo genocida. Na base da INVASÃO. De irresponsabilidade e estupidez absurdas. O cara na ilusão de que conseguiria entrar no local através da paz imaginada na sua cabeça acabara por ser responsável por causar a própria morte. O cristão que se mata vai para o inferno, né não? Se não me engano, a Bíblia deixa isso claro, então supunhetemos que, de repentelho o inferno exista, o Chau foi pra lá. Ou ganhou a salvação por plena burrice e papo furado de evangelismo? E olhe que correu o risco dele transmitir doenças de todos os tipos àquele povo, o que poderia acarretar em uma dizimação em massa, já que os mesmos não possuem anticorpos de defesa para as mazelas que carregamos com orgulho. O proselitismo cristão carniça fazendo das suas. O filme Canibais não tem a reza como desculpa, mas se embalsama de ideologia ativista para cometer – e frescar com – suas merdas. Sem entender porra nenhuma do país que estão a pisar. Jumentice total. Se é vantagem, isto ajuda a não torcer para nenhum deles.

É uma marmota não levar em consideração o que determinada população pensa acerca de si. Não falo isto somente da tribo sobre o qual o Canibais porcamente se debruça, mas sim ao governo peruano. O povo peruano, que, independentemente de merdas acontecidas em seu próprio território, deve ter legitimidade para decidir por si mesmo. Acabamos por saber que o esquema é por disputas de empresas que querem destruir a tribo, e num primeiro momento acreditamos que a parada do ativismo funciona, mas em seguida vem a desgraça e o cinismo do próprio movimento ativista. Roth foi vagabundamente maroto aqui.

Os otários perdidos na selva de canibais

Então, Canibais apresenta estes otários e os manda para a selva. Reitero que dá até um prazer em saber de antemão que os imbecis vão todos papocar. Mas o filme tem um ritmo arrastado por demais em seus primeiros 45 minutos. Altas enrolações. Algo que já era reclamado até no longa original Holocausto Canibal, do que discordo de forma frontal. Mas neste, além do ritmo, pesa também a duração. 100 minutos disso. Sendo que uns bons 70, 75 minutos resolveriam bem. Em suma, Canibais busca paralelos com a obra de 1980 sim, mas visa a manter sua – se é que dá pra chamar disso – identidade própria. Muito calcada no humor em meio à podridão que vai sendo aumentada.

O gore. Finalmente. E vem sem cerimônia. A tensão criada para ele seria mais pela disposição imaginária do espectador ao saber da situação ali que daria merda em alguma hora. A queda do avião, as mortes acidentalmente imbecis, o canibalismo. Tudo visto às claras. E é aqui que entra o nome do monstro sagrado Greg Nicotero e de Howard Berger nos efeitos práticos de maquiagem. Nicotero, fundador do estúdio KNB EFX Group, tem vasta experiência na área com mais de 180 créditos em fitas e tendo sido pupilo do gênio Tom Savini no horror zumbi Dia dos Mortos (1985), a terceira parte da primeira trilogia doutro cara genial que é o George A. Romero, do brutal A Noite dos Mortos-Vivos (1968). Seus créditos incluem trabalhos como Uma Noite Alucinante 2 (1987), A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy (1989), À Beira da Loucura (1994), Um Drink no Inferno (1996), entre outros tantos. O cara tem cacife pra cacete e não decepciona, obviamente. Mesmo com orçamento reduzido, ele faz estragos na destruição dos corpos quando a hora se apresenta para tal. Mesmo que alguns CGI’s metidos e porcos embacem aqui e ali, os efeitos práticos garantem este gore. A colhida do sangue dos corpos abatidos mais parece a tirada do mesmo num frango em preparo para um prato de galinha cabidela. Uma delícia. Não consegue superar o clima absurdo e real que o filme italiano propôs em 1980, mas diverte na questão. Fazendo os ativistas pagarem na carne o preço da ignorância e do desrespeito que teimam em envernizar de filantropia.

Ainda vai frescar com o desconhecido?

Claro que Roth aposta na violência e também no humor dalgumas situações ridículas e escatológicas moldadas por atuações bizarras de todo o avulso elenco. Como na cena da cagada, que mostra um Eli Roth asqueroso se divertindo, mas ainda assim pegando leve, chegando a um certo ponto: sem bosta saindo e aparecendo. Vale pelas crianças autóctones mangando do cheiro de podre. Quer outras marmotas? O Alejandro punheteiro e o canibalismo laricado. Enquanto os companheiros morrem, Alejandro pratica uma masturbação marota na gaiola para relaxar a mente. O grande Eli Roth a testar os limites da verossimilhança, paciência e o politicamente-corretismo da galera. E o plano de fuga? Meter maconha no estômago da suicida pra turma indígena ficar muito doida com a fumaça da carne dela quando assada for. Dá certo em parte, assim como vem também a larica. O maconheiro é morto pela galera que usufruiu do seu produto porque ficou com uma fome da porra. Este é o nível de Canibais. Além de destroçar os ativistas, os ridiculariza com putaria e cinismo. A ironia deles serem usados de merenda pela tribo que visavam, supostamente, defender.

Toques finais de avacalho, fuga e despedida dos abestados

E os ativistas de uniforme? Faz diferença na situação? Os uniformizados são funcionários da empresa que vai desmatar aquelas terras. Expropriá-las. Logo, é inimigo declarado pelos nativos. A prova é uma cabeça de funcionário real da empresa sendo carregada em comemoração. Esta é outra questão interessante. O canibalismo aqui é justificado pelo conflito tribal. Havia tribos que praticavam a antropofagia exatamente por um respeito ao inimigo vencido. Claro que aqui isto passa despercebido, por causa do maniqueísmo do material.

Não esqueçamos do cinismo do Roth ao mostrar que o ativista-mor Alejandro (Ariel Levy) é na verdade um oportunistazinho de merda envolvido com ativismo buscando benefício próprio para a fama do grupinho de bosta que ele criara. Com direito a citações canalhas do 11 de Setembro e de guerras contra as drogas como mentiras deslavadas que justificam o mundo de cão comendo cão que ele agora passaria a defender publicamente. Alejandro é o revolucionário farsesco que quer encher os bolsos às custas de quem quer que seja e que isto se some ao bom mocismo que ele também quer vender – na vitrine – para conseguir fincar sua farsesca filantropia. Agora eu quero que este Zé Bostinha fique vivo.

Ao fim de Canibais, temos uma empreitada desconjuntada, mal montada, pestilenta, esculhambada, avulsa, sebosa, mefítica, sangrenta, doentia, fedorenta, catinguenta, engraçada, aleatória, ignorante, racista e divertida que acaba por meter a chibata no ativismo demagogo em toda a sua acepção de limpeza de princípios bonitinhos, mas que não levam em consideração o outro. E isto traz a reboque consequências nefastas, sejam elas ligadas à antropofagia via combate tribal, seja por proteção territorial contra um missionário intencionado por um cristianismo difuso.

Mesmo com toda esta maçaroca divertida, os últimos planos quase estragam tudo. Com uma espécie de discurso cagão da sobrevivente vendido como oficial e no qual ela não toca no canibalismo. Espécie de tentativa de reparação do branco para com o autóctone, mas que tem vulto porque o ativismo do filme já é uma seboseira hipócrita de um lado ao outro, então foda-se. Mas que faltou um violino nesse choro final, ah, isso faltou.

Obras citadas:

À Beira da Loucura (In The Mouth Of Madness, 1994), John Carpenter; O Albergue (Hostel, 2007), Eli Roth; Canibais (The Green Inferno, 2013), Eli Roth; Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, 1996), Robert Rodriguez; Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980), Ruggero Deodato; A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy (A Nightmare on Elm Street 5: The Dream Child, 1989), Stephen Hopkins; Uma Noite Alucinante 2 (Evil Dead II, 1987), Sam Raimi; A Noite dos Mortos-Vivos (The Night of the Living Dead, 1968), George A. Romero.

Ted Rafael

Pesquiso cinema marginal utilizando-me da minha paixão e mote acadêmico pelo banditismo urbano. E ainda produzo, dirijo e monto umas bagaceiras. Gosto de cinema sem muita frescura. E como frescuras outras não são comigo, paro por aqui. Cinema. CINEMA.

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