Testemunhem a suspensão do Eu em Cam

O fenômeno paranormal de avistar uma pessoal igual a você, seu duplo, recebe em alemão o nome de doppelgänger. No significado original cunhado pelo romancista Jean Paul, “aquele que caminha ao lado”. Na mitologia nórdico-germânica, avistar alguém igual a você era considerado símbolo de mau presságio e possivelmente morte. 

Nas artes, os exemplos são inúmeros: William Wilson (1839), de Edgar Allan Poe, O Duplo (1846), de Fiódor Dostóievski, e O Homem Duplicado (2002), de José Saramago, são três exemplos famosos. No cinema, os duplos também são parte importante da narrativa de Estrada Perdida (1997) e Twin Peaks (1990-1991; 2017) de David  Lynch. Dessa forma, é fácil entender o apelo que tem um filme como Cam (2018)

Muito comparado à série sobre tecnologia e moral Black Mirror (2011—), a produção da Blumhouse aborda a temática através da tecnologia: Alice (Madeline Brewer, de The Handmaid’s Tale, 2017) trabalha como camgirl, assumindo o nome de Lola para encantar e seduzir os admiradores anônimos. Uma mulher independente e ambiciosa em um mundo competitivo que vê a vida sair dos trilhos quando sua conta é roubada, pelo que parece, por ela mesma. A duplicata continua a se apresentar contra a sua vontade e, cedo ou tarde, sua vida dupla acaba se tornando conhecimento público.

Autoimagem em Cam
Um conto sobre personas que ganham vida

Autoimagem

De certa forma, Cam é um filme diferente sobre o tema. Ao contrário de O Inquilino (1976), por exemplo, o filme não trata sobre o indivíduo perder o que torna único, o seu caráter, mas antes ter sua persona roubada — ou seja, a identidade que criou para si. Especialmente marcante essa personalidade chamar-se Lola, a arquetípica dançarina de cabaré vivida por Marlene Dietrich, Anouk Aimée e Barbara Sukowa em O Anjo Azul (1930), Lola, a Flor Proibida (1961) e Lola (1981). Todas personas de mulheres sensuais que mudam a vida de homens para sempre.

Na outra ponta, temos Alice, a pessoa real. Um nome que chama a interpretação óbvia: a personagem principal de Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através de um Espelho e o Que Ela Encontrou Por Lá (1871). Na cultura pop, especialmente após o filme da Disney, torna-se quase um sinônimo da personagem que sonha com realidades absurdas e fantásticas. No caso, essa Alice, através de Lola, entrega um tipo adulto, distorcido de fantasia aos clientes que a pagarem, em números eróticos frequentemente temáticos.

No artigo O duplo como fenômeno psíquico, os autores Marta Regina de Leão D’Agord, Marcos Rafael de Oliveira Barbosa, Rukaya HasanI e Rafael Cavalheiro Neves denotam que o uso narrativo mais frequente do duplo é como despersonalização. Freud chamava de unheimlich um efeito inquietante surgido da suspensão da barreira entre o fantástico e o real. Nesse caso, quando o duplo de nós mesmos entra como “o estranho que me olha”, ocorre a noção psicanalítica lacaniana de injunção — a diluição da barreira entre “o que sou e as formas pelas quais me representam”.

Esse mundo em Cam era bem demarcado: como ficamos sabendo ao longo do filme, a família de Alice não tinha conhecimento de Lola. É justamente quando Alice perde o controle de Lola, e seu duplo passa a interagir sozinha. Como descobre depois, não é a primeira, e muitas mulheres da vida real morrem, mas inexplicavelmente suas personas continuam para todos verem.

Ao interagir com admiradores durante a trama, a personagem também descobre que homens amáveis por trás da tela, como Barney e Tinker, podem se revelar com um lado sombrio. Barney é um homem agressivo e Arnold é um stalker. Nessa selva ambígua que é a internet, enquanto tenta ascender socialmente entre outras camgirls, Alice aprende sobre o lado não idealizado por trás da câmera a duras penas. Assim como ela tem com Lola, todos têm sua projeção.

Essa visão mostra que, como o filósofo Marshall McLuhan previu em seus estudos sobre a comunicação, em textos como Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem, nossas próteses técnicas nos fizeram esquecer noções como tempo e espaço, criando através de uma interface um ambiente onde a consciência é simulada. Em um mundo de comunicação descentralizada não presencial, as relações inevitavelmente são afetadas. Quando tornam-se um caso de competição, como visto em Cam, a questão do avatar que criamos de nós é posta em xeque.

Real ou falso: ainda importa? Cam explora essa problemática
Vale tudo por atenção?

Real ou falso: ainda importa?

Com o advento da tecnologia informática, a questão da identidade ganhou novo significado. Ao abordar A Comunidade Virtual, de Howard Rheingold, Fernanda Andrade aponta que, ao permitir que pessoas com interesses mútuos se reúnam, também cria-se uma comunidade à parte, onde há a possibilidade de criar uma nova pessoa para si, ou, como escreve Rheingold, “a gramática da realidade virtual envolve a criação de novas sintaxes da identidade”.

“Você não tem controle sobre isso, e é isso que torna tudo tão terrível. Assim que você coloca alguma coisa online, você não tem ideia para onde isso vai, quem vai pegar, como vai ser usado, se será usado para práticas de catfish (N.E.: falsa identidade) com alguém. É algo muito universal que todos nos experenciamos”, diz Iza Mazzei, roteirista de Cam e ela mesma uma ex-camgirl, em entrevista ao Rue Morgue.

O medo sobrenatural que Alice sente em relação a Lola tem fundamentos pessoais. “Você performa muito”, conta Iza: “Eu estava trabalhando 10 horas por dia como uma pessoa diferente, e ao tentar reconciliar isso com a identidade que eu realmente era, essa paranoia começou. As pessoas que eu considerava amigas gostavam de mim, elas gostavam apenas da persona, eles gostariam de mim na vida real?”. 

Nesse sentido, é curioso ver como controle da própria imagem torna-se difícil no mundo online. O próprio conflito central do filme veio quando a imagem de Iza era compartilhada por outras pessoas sem que ela recebesse crédito. “Parecia parte de mim sendo roubada, porque repentinamente eu e minha persona pornô foram transformadas em “garota pálida com cabelos encaracolados”. Sentir essa perda de controle foi de onde eu tirei minha inspiração”.

Na mesma entrevista, o diretor Daniel Goldhalber define que o horror do filme vem quando justamente essa perda de controle acontece sobre um “componente erotizado” da protagonista. Para os apoiadores anônimos, deixa de importar que a camgirl esteja sendo mostrada de maneira involuntária. O que lembra, em certo nível, a atriz pornográfica Mia Khalifa. Após fazer seis filmes adultos que viralizaram, a atriz constatou, ao lembrar como é trabalhar em uma indústria com um lado tóxico bastante criticado, de ser o lado da história que menos lucrou da história ao preço de “perder direito a toda privacidade”, que está “a um clique de distância do Google”, como conta em suas redes sociais.

Em uma indústria onde a autenticidade importa mais que o real, ou seja, desde que seja representação, pouco importa como a pessoa retratada se sinta sobre aquilo. Perde-se o direito ao reconhecimento ou até mesmo viola-se o contrato, perseguindo-se a pessoa privada. Isso é demostrando no arco envolvendo o stalker Arnold em Cam, a persona sombria por trás do simpático perfil Tinker Boy. Analisando assim, o horror na obra parece mais tátil que a média.

Representação viciosa em Cam
Depois de algum tempo, o perigo é não se reconhecer mais

A representação viciosa

Para o filósofo Peirce, o que é representado se conecta com sua interpretação “por meio de um convenção de que ele será assim entendido objeto por meio de uma convenção de que ele será assim entendido,  ou ainda por meio de um instinto ou ato intelectual que o toma como representando seu objeto, sem que qualquer ação necessariamente ocorra para estabelecer uma conexão factual entre signo e objeto”. 

Essa interpretação possui um significado sombrio em Cam, que em primeira análise parte de um olhar erótico e objetificado. Em A ımagem: representação da mulher no cınema, Giselle Gubernikoff lembra que o cultural é área de intervenção da ideologia, pois, segundo Teresa de Lauretis, a construção social da mulher se dá por meio de um códice pré-estabelecido sobre a mulher representada. Para o movimento feminista dos anos 70, como o artigo indica, a mulher nunca era protagonista, mas o outro, o alvo do desejo masculino.

Ora, Lola é a mulher representada. Uma mulher que mostra “partes selecionadas de si mesma”, como aponta a roteirista. Representada como sensual e vulnerável, batizada com nome de femme fatale, é, antes de uma mulher, um discurso sobre uma mulher, a idealização de uma mulher, uma promessa para a sua performer de que ela será recompensada financeiramente desde que entre, como a Alice de Caroll, em um mundo absurdo.

Mas será possível voltar desse mundo? O horror mora aí. Ainda segundo Freud em Das Unheimliche, o medo é uma ameaça de castração da pulsação sexual. Alice é confrontada com o estrangeiro, com o pouco familiar, com a irrealidade, sendo que quem ela vê é sua própria imagem agindo fora de sua própria vontade. Seu desejo recalcado de exploração da própria sensualidade, da promessa de garantir futuro financeiro é confrontado com a repressão da família e amigos que rejeitam seu papel como performer erótica. Entre suas colegas de trabalho, preocupadas em “vencer” conquistando a atenção dos admiradores, é descartada como “esquisita”. E quando os voyeurs veem a imperfeição, é experimentada uma terceira onda de rejeição.

Sobretudo em relação ao “eu”: para Freud, quando nos deparamos com o monstro/escondido/estranho que há em nós, podemos lidar com a nossa agressividade e a nossa sexualidade, familiarizando-nos com esse outro obscuro de nós mesmos (até então desfamiliar).

Quando a família vê a Lola em Alice e os espectadores a Alice em Lola, a autoimagem que a protagonista criou para si é abalada. Importa a convenção construída, e todo o resto é secundário. Resta, então, a Alice combater Lola, a criação saída de controle, em seu próprio terreno. Para a revista Galileu, Eduardo V. Junqueira escreve que Freud lembra que o medo tem como função nos fazer ensaiar nossas interações reais, nos ensinando a lidar com a nossa agressividade e sexualidade. Em Cam, Lola tornou-se o medo da atriz Alice perder o avatar, algo que tem de ser enfrentado. Se antes o filme explorava o quanto a atriz estava disposta a oferecer para construir Lola, o final implica o quanto ela arrisca para reivindicar para si a parte que a falsa Lola roubou.

Esse estudo de personagem em Cam torna a obra um dos horrores psicológicos mais interessantes dos últimos anos, uma espécie de horror à lá Polanski em um ambiente virtual, em que o medo da perda de controle para fatores externos encenada em filmes como Repulsa ao Sexo (1965). Quando a barreira entre o que sou e o que eu represento são diluídas, quando a pressão por exposição tão presentes nos tempos atuais faz o personagem descolar-se do performer, nasce um horror contemporâneo legítimo, no qual a imagem que projetamos no espelho é uma imagem que projetamos para a câmera, que todos veem, ao vivo, o tempo todo. Será que, como pontua a última cena, estamos tão dependentes que estar conectado é existir? Não se sabe. Daí o horror.

Obras citadas:

O Anjo Azul (Der Blau Engel, 1930), Josef Von Sternberg; Black Mirror (2011—), Charlie Brooker; Cam (2018), Daniel Goldhaber; O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale, 2017—), Bruce Miller; O Duplo (Dvoiník, 1866), Fiódor Dostóievski; Estrada Perdida (Lost Highway, 1997), David Lynch; O Homem Duplicado (2002), José Saramago; O Inquilino (Le Locataire, 1976), Jacques Demy; Lola (1981), de Rainer Werner Fassbinder; Lola, a Flor Proibida (Lola, 1961), Jacques Demy; Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965) de Roman Polanski; Twin Peaks (1990-1991; 2017), de David Lynch; William Wilson (1839), de Edgar Allan Poe.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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