A Febre e o pêndulo

Sem fazer muito esforço, ainda consigo lembrar daquelas aulas de História no Dia do Índio, quando sempre havia alguém para afirmar o quanto a nossa história era recente e como outros povos indígenas espalhados pelo continente eram superiores aos brasileiros. A máxima era: “Um povo que não escreve não tem história”.

A ignorância de uma afirmação dessa é o registro do desconhecimento que temos sobre os nossos povos originários, e, claro, sobre as nossas próprias raízes. A Febre (2019) não tem a pretensão de fazer um resgaste histórico à la Mel Gibson. Muito pelo contrário: o longa-metragem de Maya Da-Rin quer contar um próprio tempo. O tempo do descolocado. Os ponteiros são nossos, mas somos ensinados a permanentemente ajustar.

Na sequencia inicial do filme, o ruído da mata na tela escura apresenta Justino, (vivido por Regis Myrupu, premiado em Locarno) em seu trabalho de vigia noturno. O plano abre-se lentamente para mostrar o protagonista não resistir ao cansaço e cair no sono. Luzes e o toque de seu comunicador misturam-se ao som da floresta para despertar o fim de sua jornada laboral, e indicar o tom da relação que o espectador vai estabelecer com esse personagem.

Maya Da-Rin, em diversas entrevistas, afirmou que o processo de construção de sua obra foi muito trabalhoso e custou-lhe muito tempo de pesquisa e imersão cultural. Com experiência documental também imersiva em seu Terras (2009), a realizadora construíra bases sólidas que permitiram-lhe entender a interessante mas ao mesmo tempo massacrante realidade dos centros urbanos que têm como maior vizinho a floresta. Segundo ela, um dos motivos que mais alongou o tempo da produção foi justamente perceber que como não indígena a sua relação com o tempo e a história era totalmente outra. Afinal, a tradição oral, ou, para deixar ainda mais claro, o “contar histórias” é uma das marcas mais fundamentais de grande parte dos povos indígenas brasileiros. Portanto, antes de filmar, e de saber o que filmar, teve-se que ouvir.

Assim como André e Renato em Ela Volta na Quinta (2015), de André Novais Oliveira, Justino apanha transporte público e caminha até chegar à boca do fogão de sua casa. Neste espaço é onde o filme torna-se gigante. Em conversas sempre em tukano (língua indígena que predomina na obra), o protagonista tira a sua capa de trabalhador e veste-se de patriarca. Um ato de resistência natural dentro de sua própria casa. Os filhos, por mais que discordem, sempre ouvem atentamente ao pai.

Numa das sequências mais lindas do longa, o pequeno neto senta-se no colo do avô à mesa de jantar, o tempo para num plano conjunto, e escutamos juntos com o pequeno Josué um conto sobre um grande caçador que adormecia em seu próprio ofício, e terminava num mundo paralelo dominado por macacos. Sabe-se pela realizadora que o próprio Myrupu — responsável espiritual por sua aldeia — desenvolvera com os outros roteiristas estes momentos de oralidade que fazem parte de uma família indígena, e que formam a essência do filme.

Portanto, a inteligência indígena está em partilhar os seus ensinamentos a partir da própria experiência, geração por geração — é isto que de alguma forma tenta fazer o protagonista com a sua família. O tempo passa ser o tempo da oralidade. O problema, obviamente, não está em contar histórias, mas sim em silenciá-las, ou, ainda pior, destruí-las num enorme genocídio, ou para quem escreve a História: o colonizador.

Do tempo ao permanente atraso

Depois de Da-Rin marcar no relógio, e preparar o espectador para o ritmo do filme, A Febre passa a desenvolver leituras para o seu título. Justino seguira o trilho de diversos brasileiros, e vai buscar melhores condições na cidade. Diferente da literatura latino-americana que desenvolve o tema “campo x cidade” e coloca a monstruosidade desse encontro num ser fantástico — como magistralmente faz Horacio Quiroga em diversos exemplos de seu célebre livro Contos da Selva (1918) —, o protagonista jamais abona a sua aldeia definitivamente. O trabalho transforma o seu caminhar num pêndulo. O constante movimento torna-se o reflexo da aflição espiritual dos dois mundos dentro de si, a conseguinte incapacidade de decifrar este monstro invisível que o apavora.

O incômodo do protagonista é permanente. Registra-se tanto fisicamente, nos primeiros planos em seu rosto cansado, na imensidão dos planos bem abertos em contraste com as suas dores; mas potencializa-se, mentalmente, na sua assimilação dos sensos comuns mais nocivos do mundo branco, sintomaticamente percebido no desprezo à medicina e à ciência, por parte de sua filha, e na decorrente aproximação das religiões protestantes em prol de respostas — como quando, em uma dentre as varias possíveis aproximações com O Abraço da Serpente (2015), Justino, mesmo fora da igreja, faz-se presente ao culto evangélico (em tukano).

Assim, por mais que desconheçamos os sentimentos de Justino, a precisão técnica de Da-Rin ao escolher olhar o cinema de figuras como Apichatpong Weerasetakhul como referência, une-se ao seu ouvido, claro, etnográfico, mas acima de tudo dono de uma sensibilidade capaz de emular a sensação constante da febre, que chega sem uma aparente razão, mas destrói por dentro, de uma forma que somente a angustia pode adjetivar.

Apesar das diversas possíveis alusões a outras obras, A Febre faz-se imprescindível por ir adentro do pêndulo. Enquanto Ihjãc, de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), escolhe abandonar suas responsabilidades espirituais para tentar abraçar a cidade, vemos o protagonista de Da-Rin buscar soluções diversas para um problema que ele nem mesmo entende bem o que é. Corrói-se por tentar descobrir, e sofre por dar soluções sem saber quais são as perguntas.

A perseguição espiritual que deixa Justino sempre em desvantagem em relação à sua febre pode ser facilmente sintetizada como consequência da colonização. Entretanto, optar por respostas simples, nesse caso, significa haver perdido o que há de mais especial no filme. Não é sempre que é positivo adaptar-se, há vários tempos, há varias respostas, a única certeza é que todas elas já foram vividas na floresta.

Obras citadas

Terras (2009), Maya Da-Rin; Ela Volta na Quinta (2015), André Novais Oliveira; Contos da Selva (1918), Horacio Quiroga; O Abraço da Serpente (El abrazo de la serpiente, 2015), Ciro Guerra; Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), Reneé Nader Messora e João Salaviza.

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