A construção da utopia: os musicais da Era de Ouro

Quando falamos dos musicais e de sua importância, falamos da consolidação de Hollywood como uma máquina de sonhos e de como os Estados Unidos tornaram-se a capital cultural do mundo. A história do século XX perpassa pela terra do Tio Sam: é o país das maiorias bilheterias mundiais, para onde vão os diretores do mundo inteiro e a casa da premiação mais assistida do mundo – o Oscar. 

Se isso é positivo ou negativo, é claro, fica a cargo do espectador e seus pressupostos. Mas estudando com distanciamento a questão de como Hollywood chegou lá, fica evidente de como os filmes com sequências cantadas e coreografadas foram uma peça importante para esse protagonismo mundial. Assim que pôde falar em O Cantor de Jazz também aprendeu a cantar, e o resto do mundo seguiu atrás.

Abaixo são comentados os filmes criadores de um império de consumo. Então, ladies and gentlemen, arrumem-se nos seus assentos, pois com vocês…

Cavadoras de Ouro

Cavadoras de Ouro (1933)

Nascido no meio teatral e tenente de artilharia durante a primeira guerra, Busby Berkeley não tardou a ir para o cinema: o coreógrafo criava números que não cabiam no palco. Seus filmes trazem um abuso de de close-ups, travellings e planos de cima (zenitais) desenhando com corpos humanos um caleidoscópico geométrico só capaz de ser reproduzido através da fotografia e montagem, como aponta César Castanha no Cineplayers. Enquanto os expressionistas usavam tais técnicas para explorar as profundezas da psiquê humana, Berkeley criava filmes impressionantes e próximos ao espectador. Com sua história sobre sobre coristas tentando conseguir patrocínio para seu show seduzindo homens endinheirados, Cavadoras de Ouro é um dos exemplos bem-sucedidos dessa lavra, safado e digno dos excessivos tempos pré-Código Hays. Os filmes de Busby para a Warner Bros. eram a obsessão de um Estados Unidos falido pela crise de 1929, que viam uma válvula de escape histórias cantadas de pessoas tentando se dar bem (também é a sinopse de Rua 42 e Belezas em Revista). A influência é nítida (Os Homens Preferem as Loiras, de Hawks, não deixa mentir) e chega a ser tentador afirmar Berkeley como pai do musical cinematográfico. 

Número de destaque: We’re In The Money  

O Picolino

O Picolino (1935)

Todos cinéfilo já ouviu, em algum momento, a expressão “star system”. Na fábrica de sonhos hollywoodiana, muitas vezes não importava qual era o filme e sua história, mas quem estava nele. É o caso de O Picolino, colaboração mais bem-sucedida entre Fred Astaire (senão o maior, um dos dançarinos mais influentes do cinema) e Ginger Rogers. Com 10 filmes em 16 anos a dupla foi um dos primeiros fenômenos culturais, como Fellini retratou em Ginger e Fred, retrato de um casal de artistas que ganha a vida como imitadores dos astros. Foi um dos maiores sucessos do RKO, o estúdio de vanguarda da Era de Ouro de Hollywood, responsável por produções ousadas e diversas como King Kong e Cidadão Kane. A ousadia se justificava porque suas produções de luxo se pagavam, como é o caso aqui, onde é inesquecível o casal principal dançando aos clássicos de Irving Berlin, um dos maiores compositores de standards do jazz. Tipo de produção onde tudo deu certo e criou uma era identificada pelo glamour.

Número de destaque: Cheek to Cheek

O Mágico de Oz

O Mágico de Oz (1939)

Com mais de dez anos de filmes sonoros, o musical já tinha estabelecido seu lugar como sinônimo de superprodução. Mervin LeRoy, diretor de Cavadoras de Ouro ao lado de Busby Berkeley, havia ido para a Metro-Goldwyn-Mayer para atuar como diretor e produtor, lá conseguiu convencer Louis B. Mayer a comprar os direitos para uma adaptação de uma fantasia infanto-juvenil: O Maravilhoso Mágico de Oz (1900), de L. Frank Baum. Junto a …E o Vento Levou, no mesmo ano, a obra dirigida por Victor Fleming introduziu para as massas em grande escala o uso do filme colorido em Technicolor. Nesse caso, de forma mais sintomática, pois Dorothy deixa o Kansas de cor sépia para entrar em uma terra fantástica, habitada por seres absurdos e colorida em abundância. E claro, não seria ícone cultural não fosse por Judy Garland, com sua voz doce e olhar sonhador tornou-se sinônimo do gênero. Mas claro, mesmo perdida em uma terra fantástica, Dorothy sonha em voltar para casa – mesmo com o excesso de novidade, “não há lugar como nosso lar”.

Número de destaque: Over The Rainbow

Agora Seremos Felizes

Agora Seremos Felizes (1944)

Quando passava a primeira onda de musicais coreografados e luxuosos, surgiu Vincente Minnelli. Antes de chegar ao cinema, trabalhou com fotografia, cenografia, figurinos e diretor teatral. Quando começou a fazer filmes, era o que chamariam de autor. Minnelli tornou as premissas básicas dos musicais ainda mais ralas, com filmes como Um Americano em Paris e A Roda da Fortuna mal tendo uma história e rendendo-se à muitas abstrações formais. Andrew Sarris, um dos proponentes da teoria dos autores, chamava Minnelli de um “estilista puro”. Em Agora Seremos Felizes, Judy Garland dá sequência ao sucesso da MGM com o futuro esposo Minnelli. A sensibilidade é empregada em um filme de tom nostálgico: nunca os personagens de um filme creram tanto viver no melhor dos mundos e na melhor das gerações, um espírito preso à terra é inabalável. A tragédia do filme é, acima de tudo, a ameaça de ir embora de St. Louis – ir embora é abdicar de si mesmo. A música se manifesta alegre em St. Louis, melancólica longe da mesma. Poucas vezes, antes ou depois, Hollywood foi tão pueril feito aqui – um filme inteiro sobre a expressão de um sentimento.

Número de destaque: The Trolley Song 

REEEEALLY want Panchito and Jose added eventually, to reunite the Three  Caballeros 👀 : disneymagickingdoms

Você já foi à Bahia? (1944)

O cinema como uma invenção industrial é a marca do homem chegando aos quatro cantos da Terra. As imagens e sons chegam a milhões como poucos meios de comunicação conseguiam antes. Assim, é claro, seria utilizado em caráter de propaganda. Não só o Terceiro Reich Nazista e os documentários estilizados de Leni Riefenstahl, mas também o cinema americano teve sua parcela militante. Como mostra o documentário Five Came Back, diretores como John Ford e Frank Capra viajaram para a Europa e filmaram os horrores da guerra. Além deles, Walt Disney, pioneiro no cinema de animação com Branca de Neve e os Sete Anões, usou seus personagens como ferramentas políticas. Você já Foi à Bahia? é a confirmação simbólica da aliança das Américas contra o Eixo, onde o inocente americano Pato Donald conhece personagens exóticos como o brasileiro Zé Carioca e o mexicano Panchito. Os sete segmentos do filme misturam esquete, abstração, gags cômicas e sequências elaboradas. A nata da chanchada e do samba ilustram a parte brasileira – Aurora Miranda resplandece em tela, cantando composições de medalhões da nossa cultura como Ari Barroso, João de Barro e Dorival Caymmi. Um filme onde é visto até onde o cinema vai como máquina de propagar ideias, como explica Filipe Figueiredo no Nerdologia. 

Número de destaque: Os Quindins de Yayá  

Cantando na Chuva

Cantando na Chuva (1952)

O filme de Gene Kelly (estrelando e dirigindo) e Stanley Donen não impressionou de imediato – a bilheteria foi modesta e rendeu uma indicação ao Oscar. Mas com o passar do tempo, essa história sobre as dificuldades da transição do cinema mudo para o cinema falado tornaram Cantando na Chuva o pináculo dos musicais, a expressão máxima de um gênero. Tornando-se um ícone desse tipo de cinema, é interessante o tema metalinguístico, uma Hollywood autofágica, rindo de seus percalços mas acima de tudo celebrando sua própria glória. O impacto foi imenso: os roteiristas Betty Condem e Adolph Green contam que na França foram tietados pelo vanguardista crítico e diretor François Truffaut, onde junto com outros colegas de profissão, como Alain Resnais, assistiam o filme repetidas vezes em um pequeno cinema Parisiense. História de um ator apaixonado por uma corista que ascende ao estrelato, é uma celebração do Sonho Americano, onde quem quer consegue, e onde até o mais ordinário pode alcançar o céu. Hollywood nunca foi tão Hollywood.

Número de destaque: Singin’ in the Rain

Os Homens Preferem as Loiras

Os Homens Preferem as Loiras (1953)

Um casamento perfeito? Nenhum gênero grita mais “Hollywood” que o musical, assim como nenhuma atriz invoca mais o distrito angeleno feito Marilyn Monroe, e é isso é visto em Os Homens Preferem as Loiras. O filme de Howard Hawk é cínico até a medula, contando com Marilyn Monroe e Jane Russell como duas vedetes em um cruzeiro tentando arranjar um marido rico, que creem ser “a única maneira de uma mulher suceder economicamente”. Uma homenagem a filmes como Cavadoras de Ouro? Hawks mostrou o ser diretor certo para a empreitada, egresso das comédias malucas (screwball comedies), envolvendo tudo em uma aura sugestiva, malandra e sensual. Mesmo dentro do código de ética, todos participam do jogo da conquista feito pavões. Monroe brilha com sua aura angelical e Russell conquista com sua esperteza na ponta da língua. Feito na década de 50, pós-Segunda Guerra, com os EUA emergindo como o “primeiro mundo”, Os Homens Preferem as Loiras é filho indissociável da sua época, um filme que grita “capitalismo” em cada fotograma, com uma deliciosa presença de espírito. 

Número de destaque: Diamonds are a Girl’s Best Friend

Craig McGrath (@CraigMcGrath54) | Twitter

Carmen Jones (1954)

Mas é claro, existia vida fora da MGM, Warner Bros. e RKO. E como se destacar? Tentando o que ninguém tentou antes. Pareceu ser o lema por muito tempo da 20th Century Fox. Carmen Jones transferiu Carmen de Bizet, sobre uma cigana seduzindo um militar casado, para uma fábrica da Carolina do Norte. A diferença principal residia na atriz da personagem-título: Dorothy Dandrige, a primeira atriz afro-americana do alto escalão. Nesse filme, se tornou a primeira pessoa negra a ser indicada ao Oscar de atuação protagonista (inspirando em parte a série da Netflix Hollywood). Em um país marcado pelo racismo – as leis racistas ainda estavam em vigor durante a produção da obra – Dandrige foi uma heroína em matéria de representatividade. Ao lado do carismático ator Harry Belafonte, um ícone da comunidade negra americana (homenageado por Spike Lee de maneira emocionante em Infiltrado na Klan), o filme fez história. Créditos também para o diretor, Otto Preminger, egresso de profundos noir de cunho social (Passos na Noite e Laura), assumiu com ousadia autoral uma obra controversa desde o seu material base. Apesar de considerado problemático por importantes autores negros como James Baldwin, que em ensaio criticou as estilizações de Preminger, mostrando preocupado com a representação negra, Carmen Jones é único em seu tempo e espaço.

Número de destaque: Dat’s Love

Amor, Sublime Amor

Amor, Sublime Amor (1961)

O teatro musical e o musical cinematográfico sempre andaram de mãos dadas, com os filmes muitas vezes eternizando versões ou inspirando novas obras que revisitam o passado (Wicked, por exemplo). A partir da segunda metade do século, como explicado no início do artigo, o teatro musical da Broadway passaria a ter ainda mais proeminência, com boa parte dos grandes exemplares musicais posteriores tendo sido encenados primeiro no palco. Hollywood tentava acompanhar de perto as transformações sociais ao mesmo tempo fornecendo um espetáculo técnico. Isso é encontrado em em Amor, Sublime Amor, adaptação da peça de Arthur Laurents, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim. Até então diretor de horror, do noir e da ficção científica (em obras como O Dia em Que a Terra Parou), Robert Wise surgiu como uma opção improvável mas que funcionou às mil maravilhas. Nessa reimaginação da tragédia shakespeareana Romeu e Julieta transposta para uma história de gangues proletárias, quebrou paradigmas e voltou o interesse de Hollywood em busca dos musicais luxuosos do teatro. Além de ser um dos musicais mais celebrados de todos os tempos, também transformou sua história.

Número de destaque: A abertura

A Noviça Rebelde

A Noviça Rebelde (1965)

O último grande musical da Hollywood clássica. Simples assim. Mesmo em sua magnitude, o filme demorou para se pagar e explicitou a crise dos novos consumidores do pós-guerra em idade adulta, querendo consumir algo diferente dos filmes moralistas e ingênuos. Filmes como Alô, Dolly não alcançaram o mesmo sucesso e soaram anacrônicos. Com Hollywood a alguns anos de ser revirada por Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas e Easy Rider – Sem Destino, A Noviça Rebelde parece pertencer a outro mundo, a outra era, os menos de cinco anos entre essas obras parecendo muito mais. Mesmo tocando no tema espinhoso do nazismo,  a história verdadeira da freira e musicista Maria Von Trapp, seu casamento e sua fuga da Áustria mantém a inocência de que o amor (e a música) tudo vencem. Robert Wise explora como ninguém os alpes verdejantes fotografados de maneira colossal em Super Panavision 70. Julie Andrews maneja humor, drama e música de maneira nunca mais repetida por Hollywood. Um canto do cisne digno de um gênero a ser solapado junto com o faroeste pelas revoluções culturais posteriores. O sonho americano já estava estabelecido no presente e no passado, no céu da terr. Na década seguinte, viria a fantasia absurda, inverossímil e cósmica do blockbuster – Tubarão, Star Wars, Superman – e o resto, como dizem, é história.

Número de destaque: The Hills Are Alive


Obras citadas:

O Cantor de Jazz (1927), Alan Crosland;  King Kong (1933), Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack; Cidadão Kane (1941), Orson Welles; Agora Seremos Felizes (1944), A Roda da Fortuna (1953), Um Americano em Paris (1951), Vincente Minnelli; Infiltrado na Klan (2017), Spike Lee; O Dia Em que a Terra Parou (1951), Robert Wise;  Alô, Dolly (1969), Gene Kelly; Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (1967), Arthur Penn; Easy Rider – Sem Destino (1969), Dennis Hopper; Tubarão (1975), Steven Spielberg; Star Wars (1977), George Lucas; Superman (1978), Richard Donner; Ginger e Fred (1986), Federico Fellini; Rua 42 (1933), Belezas em Revista (1933), Lloyd Bacon; Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Walt Disney; Passos na Noite (1950), Laura (1944), Otto Preminger.  

Agradecimentos especiais a César Castanha

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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