A Caçada contra a estupidez de Donald Trump

De ponta a ponta do espectro ideológico, de Roger Stone a João Santana, todo mundo sabe do que é feito o marketing político: guerra de narrativas. Não à toa , “campanha” é um termo emprestado da semântica militar. Porém, é inegável que um polo específico vem esticando muito a corda no globo: a extrema-direita. Seja por sua massificação de gabinetes de ódio e fake news, seja pela desonestidade ou erosão intelectual de seus representantes mundo afora. Vide o exemplo de Donald Trump.

O 45º Presidente dos Estados Unidos é o principal modelo atual dessa forma de se fazer política. Uma forma estúpida, cujo método é antagonizar seus adversários ou quem pensa diferente com base nas mentiras mais sórdidas. Na maioria das vezes, isso é feito de modo proposital, para manter seu eleitorado inflamado. Tantas outras, o método toma conta do ser e o desvio cognitivo acontece sem que ele mesmo se dê conta. Creio ser este o caso na revolta de Donald Trump em relação ao filme A Caçada (2020).

“A esquerda de Hollywood é racista em seu mais alto nível. Eles se proclamam ‘Elite’, mas eles não são Elite”, ele postou em sua conta oficial no Twitter. Aliás, cabe aqui um parêntese: perceba como a argumentação do líder republicano é tola, rasa e depõe contra si. A preocupação do presidente é meramente elitista, com o fato de os democratas dizerem que representam a nata intelectual e moral da “América”. Porém, nunca é sua preocupação articular seus pensamentos com inteligência ou moralidade. Ser tachado como alguém que não integra uma elite com “e” maiúsculo é o que fere seu ego, já que ser tachado de racista, misógino e outras infâmias não o constrange e ele ainda ostenta como capital político.

“Na verdade, frequentemente são as pessoas a quem eles se opõem que são a verdadeira elite”, disse Donald Trump. “O filme que será lançado foi feito com o objetivo de provocar e causar o caos. Eles são os verdadeiros racistas, e são muito ruins para o nosso país”. Tal estupidez do presidente estadunidense inclusive atrapalhou o lançamento de The Hunt (no original). Ainda que a produção da Blumhouse com a Universal satirize menos os republicanos do que os democratas — o que prova que Trump não teve a inteligência de interpretar o filme corretamente ou a moral de julgá-lo pelo que de fato é.

A patricinha platinada de Emma Roberts também é eleitora de Donald Trump
Emma Roberts: Barbie Fascista?

Terror republicano: a (delirante) fúria democrata

A Caçada começa de forma explosiva. Um grupo de ricos esnobes sequestra e mata a sangue frio, com crueldade, um homem indefeso, que age e grita como um animal. A cena é chocante e coloca essa “elite” num lugar bem desprivilegiado junto ao público, cuja reação é repelir de imediato aquele comportamento vil. Em seguida, um outro grupo de pessoas amanhece em um campo verde que não à toa remete a Jogos Vorazes (2012): o espaço é cheio de armadilhas que põem todos em risco de morte. Só que do tipo mais violento, à la Jogos Mortais (2004).

Em seus corpos, mordaças pretas —  objeto que porta um cunho sexual que explicita o caráter objetificador daqueles tipos. Tipos estes banais, toscos e conservadores; republicanos. Ali dispostos para provar do próprio veneno e ser caçados com as armas pesadas, a violência e o preconceito que tanto cultuam. Porém, também retratados como vítimas indefesas. Seus algozes —  esses, sim —  são representados como intolerantes e logo conduzidos à condição de vilões. E eles são os liberais, os democratas, a esquerda estadunidense.

Criador das premiadas e cultuadas séries Lost (2004–10), The Leftovers (2014–17) e Watchmen (2019), Damon Lindelof é o roteirista de A Caçada. Mais um trabalho para o seu rol de criações geniais. Tal como Jordan Peele em Corra! (2017) e Nós (2019), Lindelof concebe uma sátira de horror com o propósito de representar problemas sociais latentes nos Estados Unidos. Em vez de racismo, porém, ele reflete sobre a polarização política no país (que não ocorre só lá, como vemos aqui no Brasil).

Conservadores eleitores de Donald Trump são caçados em The Hunt
Jogos Vorazes + Jogos Mortais = Holocausto Democrata

Bacurau às avessas

Essa polarização é, sim, alimentada por Donald Trump. Que inflama eleitores cada vez mais violentos, racistas e alienados. Porém, não interessa a Lindelof bater palma pra maluco, protestando contra ou dialogando em vão. Sua grande sacada é acatar o delírio reacionário e colocar essa gente na condição de vítima que eles dizem que são. Melhor ainda, o cineasta caricaturiza a esquerda rica estadunidense com um verniz radical absurdo. Aquele mesmo que os rednecks lhe atribuem no recente Borat 2: Fita de Cinema Seguinte (2020). A Caçada é a concretização da paranoia fundamentalista de que os democratas são criaturas terríveis que aniquilam seu idílio de uma América conservadora. A Caçada é a concretização do tuíte insano de Donald Trump. E em fazer isso, em dramatizar esse desatino com o gore vermelho republicano, Lindelof desagrada mais ainda — genial!

| Atenção! Spoilers a seguir!

Também incrível é a sublimação cênica do Bacurau (2019) às avessas de Damon Lindelof. Já nas primeiras cenas, o filme estraçalha a personagem de Emma Roberts — uma das atrizes mais conhecidas do elenco e protagonista de A Caçada em seus primeiros minutos. A trama segue essa lógica deliciosamente caótica por cerca de meia hora, quando a troca de ponto de vista cessa e enfim se estabelece naquela primeira mulher vista à distância matando a sede num lago — um pronto indicativo de sua maior adaptação àquele terreno selvagem que da patricinha platinada vivida por Roberts. E que mulherão da porra é Crystal, a real anti-heroína da história.

O diretor Craig Zobel e a atriz Betty Gilpin (GLOW, 2017–19) compõem Crystal com um atleticismo e uma dramatização ímpares; como uma verdadeira veterana do Afeganistão, quase sem expressão mas cheia de tiques. Uma verdadeira personagem de ação, que pouco fala e age com admirável destreza, especialmente quando o assunto é sua sobrevivência. Assim como John Wick (2014), embora ela seja uma legítima Noiva moderna — influência que se confirma no ato final da obra, claramente inspirado em Kill Bill: Volume 2 (2004).

O divertido confronto entre Crystal e Athena que lembra Kill Bill

Graça na desgraça de Donald Trump

The Hunt mantém o ritmo e o rodízio de boas sacadas do início ao fim. Quando versa clichês típicos dos filmes de terror, como o vilão que conta seus planos para o mocinho (e para a plateia), isso não soa como falta de inventividade, mas como a mais pura e deliciosa gaiatice. É assim porque a mise-en-scène de Craig Zobel embala direitinho, com os vícios devidos, o texto satírico de Damon Lindelof. Vide a cena em que Crystal transforma o conto infantil A Lebre e a Tartaruga numa fábula sangrenta que acrescenta pouco a uma suposta personalidade psicótica da personagem e diz bastante sobre a abordagem jocosa dos cineastas — mais preocupados em zombar de uma certa tendência da nova cena de horror (como o maldito “pós-terror”) de soar sofisticada pela articulação forçada de simbolismos da alta cultura.

O barato de A Caçada é ser um filme de terror despretensioso e desrespeitoso com quem merece o escárnio. Sua sagacidade é subverter o horror social tradicional e retratar com o melhor cinismo um cenário impossível, em que o opressor é o oprimido e vice-versa. É, assim, honrar as tradições do gênero ao enfiar e torcer o dedo na ferida de todos, do republicano que se orgulha de ser tosco ao liberaleco otário que não percebe sua hipocrisia. O que lhe permite avacalhar à vontade. Inclusive com o elenco, ao explodir a cabeça de uma atriz famosa logo no início e apresentar uma vencedora do Oscar só no final — e ao caprichar visualmente nessas introduções, a propósito da chegada triunfal não só de Hillary Swank (Meninos Não Choram, 1999, Menina de Ouro, 2004), como do “astro” do circuito de horror cult Macon Blair (dos ótimos Ruína Azul, 2013, e Sala Verde, 2015).

Damon Lindelof se permite rir de si mesmo ao escarnecer de uma “elite” liberal que ora pira real na problematização. Craig Zobel se esbalda com o almofadinha de esquerda que comete o pior ato falho da sua vida: lacra na hora errada e morre violentamente. Juntos, diretor e roteirista criam uma vilã única: uma liberal metida à besta que se chama Athena e se julga autorizada punir quem posta notícia falsa no “Feici” e a gentalha que não leu A Revolução dos Bichos (1945). Os caras se divertem! No fim e aparentemente sem querer, ambos têm, e nós também, o prazer de ver Donald Trump se lascar por seus modos e ideais mais boçais, pois por isso ele nem se permitiu curtir A Caçada — um filme que poderia amar se não fosse tão estúpido.

Donald Trump
Donald Trump, um cristal de estupidez

Obras citadas:

Bacurau (2019), Juliano Dornelles, Kléber Mendonça Filho; Borat 2: Fita de Cinema Seguinte (Borat: Subsequent Moviefilm, 2020), Jason Woliner; A Caçada (The Hunt, 2020), Craig Zobel; Corra! (Get Out, 2017), Jordan Peele; De Volta ao Jogo (John Wick, 2014), Chad Stahelski, David Leitch; GLOW (2017–2019), Liz Flahive, Carly Mensch; Jogos Mortais (Saw, 2004), James Wan; Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), Gary Ross; Kill Bill: Volume 2 (Kill Bill: Vol. 2, 2004), Quentin Tarantino; The Leftovers (2014–2017), Damon Lindelof, Tom Perrotta; Lost (2004–2010), Damon Lindelof, J.J. Abrams, Jeffrey Lieber; Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), Clint Eastwood; Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry, 1999), Kimberly Peirce; Nós (Us, 2019), Jordan Peele; A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 1945), George Orwell; Ruína Azul (Blue Ruin, 2013), Jeremy Saulnier; Sala Verde (Green Room, 2015), Jeremy Saulnier; Watchmen (2019), Damon Lindelof

Rodrigo Torres

Minha vida é um dilema: amo Jornalismo mas fiz Letras, sou de humanas e miro a tecnologia, digo que cinema é hobby e não paro de tratar como trampo. Minha vida é um dilema: amo.

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