A apoteose do super-herói: Hollywood, grandes franquias e a era do espetáculo

Ao longo dos últimos 20 anos o super-herói se tornou uma presença obrigatória nas listas de estreias cinematográficas anuais. O que foi outrora um subgênero inglório da ficção científica (por si só, já bem inglória), conseguiu estabelecer suas próprias convenções, público cativo e uma identidade, convertendo-se no gênero dominante de Hollywood. Como se deu esse salto?

Bem, essa é uma história longa e acidentada, pelo menos para os padrões do audiovisual (tão jovem quando comparado à sua irmã mais velha, a pintura), que costuma mudar de rumo com uma velocidade ímpar no universo das artes. Então, vamos por partes.

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O Lado B

Os super-heróis surgiram quando os seriados cinematográficos estavam no seu auge, entre 1939 e 1942. Surgidos nas primeiras décadas do século XX, estes “filmes em série” convidavam o público a retornar semanalmente para um novo capítulo repleto de aventura. Os cenários exóticos que tornavam estas obras mais ricas em ação e suspense que em caracterizações complexas, o que contribuía para o seu apelo ao público jovem e sedento por ação das matinês.

Sua matéria prima eram clichês bem-estabelecidos, que bebiam referências da literatura pulp e dos quadrinhos. A fama de heróis como Superman e Batman permitiram que esses e outros personagens fossem rapidamente transportados dos quadrinhos para outros meios. Duas empresas, a Republic e a Columbia Pictures logo se tornaram as principais fornecedoras de suas peripécias filmadas.

Eram produções B, com orçamentos reduzidos, ênfase na ação e no aspecto atlético, ousado e bonachão dos heróis. Os efeitos especiais, ainda que limitados, davam conta de criar uma atmosfera de fantasia e/ou ficção científica. Sim, os heróis superpoderosos dos quadrinhos e os seriados compartilhavam do mesmo DNA e se complementavam com grande efeito.

Batman: The Movie (1966, Leslie H Martinson) | Ian Farrington
A clássica série do Batman

Entre as décadas de 1940 e 1950, enquanto a televisão ganhava espaço, os seriados entraram em declínio. A frequentação dos cinemas caiu, em parte graças à concorrência oferecida pela televisão, mas, também porque a Suprema Corte dos EUA baixou o “Decreto Paramount” em 1948, impedindo grandes estúdios de acoplarem filmes B às vendas de filmes A para os teatros, de modo que cinemas poderiam optar por exibir sessões de um único filme, descartando as atrações de matinê.

As adaptações de quadrinhos rapidamente assumiram novas formas, como Superman and The Mole-Men (1951), produzido pela Lippert Pictures com o propósito de promover a série televisiva Adventures of Superman, que seria transmitida de 1952 a 1958. Com 58 minutos de duração, foi o primeiro longa-metragem a ser protagonizado pelo Superman.

O próximo marco foi Batman, o Homem-Morcego (1966), que buscava explorar o sucesso do universo já estabelecido na popular série Batman, produzida por William Dozier para a American Broadcasting Company (ABC) entre 1966 e 1968.

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B de Blockbuster

A década de 1970 viu a emergência de uma nova categoria hollywoodiana, o blockbuster, representado por filmes como Tubarão (1975) e Guerra nas Estrelas (1977). Este contexto favoreceu a ficção científica e a fantasia, despertando no cinema “A” o escapismo e a noção de espetáculo que havia sido alimentada pelos seriados cinematográficos em décadas anteriores. Adaptações de histórias em quadrinhos, até então relegadas ao segundo plano, se converteram em um item valioso com a ascensão do blockbuster.

Superman (1978) dispunha de todos os componentes para brilhar: um orçamento multimilionário e astros reconhecidos em seu elenco. Somavam-se aos créditos o roteiro assinado por Mario Puzo, à época conhecido por seu trabalho em O Poderoso Chefão, e a trilha sonora de John Williams, famosíssimo por seu trabalho em Tubarão e Guerra nas Estrelas. O slogan no pôster do filme, “Você acreditará que um homem pode voar” prometia, para além do espetáculo escapista de efeitos visuais impressionantes, um super-herói verossímil, que poderia impressionar a todos os espectadores.

O sucesso de Superman abriu espaço para novos filmes, mas a tendência não deslanchou de imediato. O gênero se ergueu sobre uma corrente de continuações para o filme de Donner, incluindo três produções protagonizadas pelo Superman e uma pela Supergirl, entretanto dirigidos por outros profissionais, e sem desfrutar do mesmo sucesso da obra precursora.

Batman 1989: Steven Seagal was considered for Batman and other dark knight  facts
Tim Burton criou um Batman mais sombrio

Dois anos depois do lançamento de Superman IV: Em Busca da Paz (1987), veio o último filme de super-herói da década: Batman (1989), dos estúdios Warner Bros. Assim como Superman, a produção buscaria se afastar do passado camp e irônico dos super-heróis dos seriados, investindo em efeitos visuais e designs elaborados. O filme de Tim Burton rejeitava o aspecto lúdico e pitoresco do Batman da década de 1960 em favor de uma visualidade sombria e personagens perturbados.

A perspectiva de Batman, por hostil e violenta que fosse, não era uma negação do conceito de super-herói. O traje do personagem preservava o contorno icônico do personagem, mas substituía o tecido cinza e azul por uma armadura rígida de látex preto. O design de produção incorporava elementos de cinema noir, arquitetura monumental, gárgulas neogóticas e art déco para compor uma ambientação lúgubre e hostil.

Essa visão sombria forneceu um contraste para a leveza idealista de Superman. Compartilhando da mesma motivação, que era tornar os super-heróis matéria prima para o cinema blockbuster, Superman e Batman evidenciavam duas abordagens distintas, embora ambas prezassem pela grandiosidade. A disparidade entre os dois ângulos de representação, leveza e obscuridade, ainda hoje é relevante para o modo como os filmes de super-herói são elaborados e como se constituem, passo a passo, em um gênero.

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Wesley Snipes em cena de Blade, O Caçador de Vampiros

Tentativa e erro

Se Batman se destacou em 1989 por levar o super-herói além do pitoresco e do auto-irônico, as sequências chamam atenção por retornarem a ele. Assim como as continuações de Superman, as de Batman caíram no desfavor do público. Além de Batman e Robin, 1997 viu o lançamento de Aço e Spawn, o Soldado do Inferno: ambos controversos e carentes de boas respostas do público e da crítica.

O ano seguinte não viu a transposição de títulos consagrados dos quadrinhos de super-herói para as telas, mas apresentou uma adaptação importante para desenvolvimentos subsequentes. Blade, O Caçador de Vampiros (1998) adapta livremente um personagem concebido por Marv Wolfman e Gene Colan como coadjuvante para a edição Nº 10 da revista de terror da Marvel The Tomb of Dracula, tendo feito sua estreia em His Name is… Blade!, história publicada em 1973.

Blade, O Caçador de Vampiros foi a segunda adaptação1 de uma propriedade da Marvel Comics para o cinema, e a primeira a obter sucesso financeiro. Embora fosse protagonizado por um personagem pouco conhecido (e que mal pode ser classificado como um super-herói), Blade já apontava para a viabilidade comercial de narrativas oriundas dos quadrinhos da Marvel, o que levaria a empresa a buscar agressivamente transpor seus títulos mais famosos para as telas. Segundo o produtor Avi Arad, “Foi a primeira vez que ficou claro a Hollywood que a franquia Marvel tinha algo de especial”. Ainda que egresso do terror, o caçador de vampiros abriria as portas para uma leva de super-heróis.

O próximo longa-metragem de super-herói, também proveniente do repertório da Marvel, viria dois anos depois. A exemplo de Batman, X-Men (2000) apresentava alguns dos heróis mais famosos de seu selo editorial, mas com um visual distinto daquele que adotavam nas páginas dos quadrinhos. Os trajes tradicionais, em tons fortes de azul e amarelo, foram substituídos por macacões “táticos” de couro preto, uma concessão do valor camp dos quadrinhos ao realismo perceptual dos filmes. O roteiro até mesmo zomba disso: quando Wolverine questiona sobre os uniformes empregados pela equipe de mutantes, o líder, Ciclope, responde: “Bem, o que você preferiria, collants amarelos?

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Para além do sucesso individual, a produção deu início a uma franquia que conta com mais de uma dezena de filmes e obteve um faturamento total próximo a cinco bilhões de dólares. Baseada nos quadrinhos criados por Stan Lee e Jack Kirby, a trama de X-Men gira em torno dos mutantes, indivíduos que nascem com habilidades extraordinárias, e de seu conflito com a sociedade, que frequentemente os vê como ameaças. Em resposta à intolerância e às políticas públicas ofensivas, alguns mutantes se unem para atacar os humanos, sob a liderança do antagonista principal, Magneto. Os X-Men, liderados pelo Professor Charles Xavier se opõem a este grupo subversivo, com a finalidade de evitar um confronto entre mutantes e humanos.

Com o tratamento visual impactante e as sequências de ação elaboradas, o tom sério e carregado de comentários sobre relações sociais de opressão lançou as bases para um novo tipo de filme de super-herói, não apenas crível, mas relevante. X-Men propunha que era possível ir além da aventura, dos confrontos e dos efeitos. Pode-se argumentar que esta questão se insere em uma discussão maior: podem os blockbusters ser relevantes, ou são apenas entretenimento descartável? Para o cineasta James Gunn (2018), “filmes-espetáculo” não só podem ter “visão e coração”, como precisam dessas qualidades para que possam sobreviver enquanto formato. Resta claro que, por mais estes filmes busquem principalmente entreter com imagens bombásticas, seu poder de permanência depende da capacidade de incluir temas que atinjam intimamente públicos diversos.

Assim, a trilha rumo à verossimilhança iniciada por Superman, que buscava oferecer o espetáculo crível de um homem em pleno voo, ganhava cada vez mais textura. Discussões sobre preconceito, responsabilidade, justiça e a natureza do mal ganhavam o primeiro plano, cedendo um ar de seriedade às narrativas. Avanços em efeitos práticos e computação gráfica intensificavam a impressão de realismo sobre os superpoderes mostrados na tela, enquanto trajes de látex e couro, preferencialmente de tons mais escuros, menos vistosos e mais próximos a vestimentas militares, impunham-se aos tecidos justos e às cores primárias do passado, traçando uma fronteira entre os personagens dos quadrinhos e seus equivalentes no cinema. O exemplo de X-Men encerrava uma década de filmes e, ao mesmo tempo, inaugurava outra.

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Para o alto e avante

Superman buscara tornar verossímil um homem em pleno voo; Batman trouxera as elaborações mais sombrias dos quadrinhos da década de 1980 para as telas; X-Men trouxera uma abordagem “adulta” aos super-heróis no cinema, apresentando narrativas inclinadas a discutir temas sérios entre cenas de luta e efeitos estonteantes. A virada do século traria, então, o cenário ideal para a consolidação, a diversificação e a expansão do gênero.

Após o sucesso de X-Men e Homem-Aranha (2002), outras propriedades Marvel chegariam também aos cinemas nos anos seguintes: Demolidor (2003), Hulk (2003), Elektra (2005), Quarteto Fantástico (2005). Christopher Nolan dirigiu uma bem-sucedida trilogia do Batman, enquanto a franquia X-Men se agigantava (com resultados mistos) e a Marvel buscava reunir seus personagens num único universo cinematográfico.

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A experiência ousada de replicar no cinema uma fórmula já explorada nos quadrinhos – a de produzir filmes que eram, a uma só vez, títulos individuais e parte de um grande universo compartilhado – rendeu frutos, ao ponto de ser imitada, com variadas medidas de sucesso, pela rival DC.

Essa abordagem, que gera numerosos filmes, da mesma forma que gera numerosos títulos regulares nas bancas e livrarias, consolidou o gênero no cinema, mas também pode ser a fonte de sua saturação e morte. Como ocorreu com o western e o filme de brucutu dos anos 1980-90, o sucesso do filme de super-herói pode muito bem ser seu próprio veneno. Por enquanto, cabe aproveitar o voo. Excelsior.


Obras citadas:

Superman and The Mole-Men (1951), Lee Sholem; Adventures of Superman (1951-1958), Whitney Ellsworth e Robert J. Maxwell; Batman, o Homem-Morcego (Batman, the Movie, 1966), Leslie H. Martinson; Batman (1966-1968), William Dozier; Tubarão (Jaws, 1975), Steven Spielberg; Guerra Nas Estrelas (Star Wars, 1977), George Lucas; Superman: O Filme (Superman, 1978), Richard Donner; O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), Francis Ford Coppola; Superman IV: Em Busca da Paz (Superman IV: The Quest for Peace, 1987), Sidney J. Furie; Batman (1989), Tim Burton; Aço (Steel, 1997), Kenneth Johnson; Spawn, o Soldado do Inferno (Spawn, 1997), Mark A.Z. Dippé; Blade, O Caçador de Vampiros (Blade, 1998), Stephen Norrington; X-Men: O Filme (X-Men, 2000), Bryan Singer; Homem-Aranha (Spider-Man, 2002), Sam Raimi; Howard, O Super Herói (Howard the Duck, 1986), Willard Huyck.

Notas

  1. A primeira havia sido Howard, O Super Herói (1986), baseado nos quadrinhos de humor metalinguístico e existencialista de Howard, O Pato, personagem criado por Steve Gerber.

Vilson Gonçalves

Arte-educador, comediante, desenhista e escritor. Siga "História da Arte com Tio Virso" no Instagram!

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