A Hollywood limítrofe de O Esquadrão Suicida

Ao ser perguntado se concordava com o epíteto “Marvel não é Cinema” do amigo Martin Scorsese, Paul Schrader interessantemente respondeu a curiosidade em observar que “entretenimento adolescente” se tornou o “gênero economicamente dominante”. “Agora nós temos uma audiência informada por videogames e mangá. Não são os diretores que mudaram, foram o público”.

O Esquadrão Suicida (2021) é o produto (ou resposta?) desse público mudado. James Gunn (Super, Guardiões da Galáxia) recebeu a missão de resgatar das cinzas o ironicamente odiado sucesso de 2016 e entregou o que foi solicitado: a história que o público queria sem o filtro que a saturava. A DC/Warner deu carta branca para um filme violento e politicamente incorreto.

Então, soando como uma paródia perversa dos filmes “homens em missão” que Tarantino reavivou com Batardos Inglórios (2009) mas que existem desde os longínquos tempos de Os Canhões de Navarone (1961), O Esquadrão Suicida entrega esse típico resgate sob uma nova ótica. Dessa vez os EUA são o pano de fundo por trás do antagonismo encarnado na figura da estrela gigante Starro. A violência é cínica, principalmente a do “Capitão América babaca” (definição do próprio Gunn) que John Cena encarna na figura do Pacificador. Tudo transcorre de maneira perturbador e hilário tal qual a franquia de games Grand Theft Auto.

Sem com isso, é claro, deixar de ser Hollywood.

A máquina autoconsciente

Novo escopo, velha lógica

Gunn nem pensa em quebrar as regras da cartilha, é claro. O Esquadrão Suicida é como Deadpool (2016) e Deadpool 2 (2018): a roupa é nova, as estruturas são as mesmos. Arlequina de Margot Robbie pula, atira e mata tal qual uma Buster Keaton pós-moderna. Tudo é atlético, plástico, cômico e surpreendente – e repete-se, estilisticamente, todas as fantasias de poder. É a lógica psicológica famosa do homem (ou mulher) que muda tudo na base de atitude e da violência – a lógica militarista, mas com a arma apontando em outra direção. Em suma, o que uma geração com outras referências e outros ícones, como aponta Schrader lá em cima, entende por subversão.

Ruim? Não. Derivativo? Talvez. É certo que segundo um axioma muito famoso, “um bom artista sempre está refinando a mesma obra”, e nesse sentido a história tipicamente (e honradamente) pulp sobre os heróis ambíguos que vão combater um monstro-estrela gigante preso na torre Jotunheim na ilha de Corto Maltese é um Guardiões da Galáxia mais “fio desencapado”, uma Hollywood que sabe brincar de si mesma e ver o ridículo que são essas histórias sobre indíviduos muito fortes mandando tudo pelos ares. Um ridículo, claro, ainda sob o regime do fetichismo e da catarse instrumental da indústria.

Nesse sentido, The Boys (2019-) pode ser percebido talvez como uma desconstrução mais atenta dos clichês à direita e a à esquerda – tanto o “salvador branco” de Homelander quanto o ridículo marketing feminista da frase Girls Get It Done. Talvez porque ainda se prenda bastante à lógica do revanchismo solitário produzido por uma gigante do streaming/varejo (Amazon). Mas é interessante ver o quanto essa presença de espírito e essa autoconsciência vão – desde que, é claro, se tenha sempre um porto seguro para voltar de quaisquer águas arriscadas.

Obras citadas

Os Canhões de Navarone (The Guns of Navarone, 1961), J. Lee Thompson; Super (2010), Guardiões da Galáxia (Guardians of The Galaxy, 2014), O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad, 2021), James Gunn; Deadpool (2016), Tim Miller; Deadpool 2 (2018), David Leitch; The Boys (2019-), Eric Kripke.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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