10 filmes para se apaixonar pelo Estúdio Ghibli

Por Bernardo Brum e Heitor Romero

Qual o melhor estúdio de animação? Muitos responderão Pixar, o estúdio de Toy Story e outros a Dreamworks, de Shrek, mas uma larga fatia de cinéfilos responderá que nem um, nem outro: esses produtoras americanas podem realizar bons filmes, mas a grande casa de animação contemporânea é o japonês Estúdio Ghibli, que com obras esmeradas e temáticas sofisticadas. Se estão certos ou não, quem ainda tiver dúvidas pode conferir seu catálogo, que chegou em 2020 à Netflix.

Reino de sonhos e loucura

O documentário Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura lançado pela Toho em 2013 capta muito bem em seu título a essência do estúdio fundado em 1985 pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata e o produtor Toshio Suzuki, que aborda tanto temas reais como família, meio-ambiente e guerra quanto fantásticos, como espíritos da floresta, castelos flutuantes, bruxas e animais antropomórficos.

Ao longo de trinta e cinco anos de existência, o estúdio conquistou números e prêmios expressivos, como nove vezes a maior bilheteria do ano no Japão e um Oscar de Melhor Animação. Um feito e tanto para uma casa de ideias muito particular: difícil imaginar como um estúdio com produções demoradas que ainda arrisca no 2D ao invés do CGI alcançaria sucesso em uma indústria preocupada com produções rápidas e lucros maximizados. Porém, de sua forma toda particular, o Ghibli continua a conquistra corações por onde passa.

Confira a nossa seleção para entrar em um mundo que você nunca viu antes.

Principais obras:

Meu Amigo Totoro (1988)

Meu Amigo Totoro (1988)

Em seu terceiro filme, Miyazaki contou a história de duas irmãs que vivem na zona rural do Japão pós-guerra e que, com a mãe doente e o pai ausente, passam a interagir com Totoro, um espírito da floresta carinhoso e bonachão. Sem exatamente um conflito central para além da contemplação dos dias que se passam, foi não apenas um filme importante para elevar os padrões narrativos da animação como também virou um marco cultural: o personagem-título é até hoje a mascote do estúdio.


O Túmulo dos Vagalumes (1988)

O Túmulo dos Vagalumes (1988)

Apesar que O Castelo No Céu (1986) ser oficialmente o primeiro filme produzido pelo estúdio, Meu Vizinho Totoro e o drama O Túmulo dos Vagalumes são uma espécie de “estreia”do estúdio como grande força do cinema de animação. O filme de Isao Takahata é reconhecido por ser um dos mais tristes do cinema, representando um Japão destruído pela Segunda Guerra mundial onde um garoto perde a mãe para os bombardeios e se vê como a única família da irmã menor. Para assistir com uma caixa de lenços do lado.


Memórias de Ontem (1991)

Memórias de Ontem (1991)

Um filme que se sustenta inteiramente no exercício de observação do cotidiano, na sensibilidade do olhar, dos pequenos gestos, das lembranças banais, da rotina. Takahata foi um esteta e poeta que enxergava a beleza naquilo que vemos e sentimos todos os dias, mas sem nos dar conta, ou naquilo que as memórias do passado deixam em nossa alma, mas sem tornar evidente. A vida é feita dessas pequenezas e elas que nos dão a noção da profundidade e complexidade do tempo – tão efêmero, tão rápido e ao mesmo tempo tão eterno. O conceito de Ozu aplicado sobre o cinema de animação.


Sussurros do Coração (1995)

Sussurros do Coração (1995)

A história da menina que sonha em ser escritora e por vezes se deixa levar pela sua imaginação de autora, que invade sua realidade e transforma seu cotidiano em uma aventura sem fim, é a síntese de duas das principais vertentes recorrentes nos roteiros do Studio Ghibli: o drama intimista sobre o amadurecimento e a extraordinária fantasia escapista. Sussurros do Coração é um título esquecido em meio ao monopólio Miyazaki/Takahata do estúdio, mas não deve em nada aos títulos mais famosos e ainda deu origem ao também lindo spin-off O Reino dos Gatos.


Princesa Mononoke (1997)

Princesa Mononoke (1997)

Uma volta aos temas políticos que Miyazaki abordou em seu segundo longa Nausicäa do Vale do Vento (1984), Princesa Mononoke é um verdadeiro épico do diretor, onde com uma abordagem política complexa retrata os impactos do homem na natureza através da guerra contra mineradores e deuses-animais vingativos. Tudo visto pelos olhos de Ashitaka, um nobre do interior cuja empatia pode ser um concílio entre a fúria vingativa da Princesa Mononoke e a lógica progressista da Lady Eboshi.


Meus Vizinhos, Os Yamadas (1999)
Meus Vizinhos, Os Yamadas (1999)

Enquanto Miyazaki seguia uma trajetória de evolução em técnicas de animações permitidas por novas tecnologias, Takahata demonstrava interesse maior na tradição do gênero e em suas origens milenares da pintura e desenho japoneses. Meus Vizinhos, os Yamadas é um produto de resistência, intencionalmente anacrônico em seu traçado e no seu humor ingênuo. Para a geração das crianças do início dos anos 2000 foi uma verdadeira incógnita, mas discutiu com muita sensibilidade os sentimentos, situações cotidianas e interações entre os membros de uma família tipicamente japonesa.


A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro (2001)

Muita gente conheceu o Estúdio Ghibli (e tiveram suas vidas mudadas, alegam) com A Viagem de Chihiro, até hoje o único filme a vencer o Oscar de Melhor Animação que não é falado em inglês. De quebra, também é o filme japonês de maior rendimento de bilheteria da história. Vendo o filme não é difícil entender a importância que carrega a obra, largamente comparada a Alice no País das Maravilhas ao retratar uma garota comum presa em um mundo absurdo. Miyazaki, porém, imprime sua visão pessoal aqui fazendo uma fantasia sobre amadurecimento, e o resultado é singular, para dizer o mínimo.


O Castelo Animado (2004)

O Castelo Animado (2004)

Em 2004, logo após o maior triunfo de sua carreira, Miyazaki tomou uma decisão inusitada: adaptar um livro, algo raro na história do estúdio. Baseado no livro homônimo de Diana Wynne Jones, Miyazaki aborda a história de personagens tentando reverter as maldições que receberam mas também, curiosamente, aprendendo a conviver rotineiramente suas condições fantásticas. O tema antibelicista volta a marcar presença, com larga parte do filme mostrando os males da guerra (o conflito entre EUA e Iraque revoltou o diretor). Tudo isso enquanto desenvolve figuras nunca estereotipadas e sempre complexas.


O Mundo dos Pequeninos (2010)

O Mundo dos Pequeninos (2010)

A vida vista por baixo em um universo próprio escondido nas florestas e habitado por pessoinhas de 10 centímetros, foi a forma que Hiromasa Yonebayashi e Hayao Miyazaki encontraram de estabelecer um paralelo alegórico com a visão das crianças em um mundo de adultos. Também desenha um bonito contraste entre o tecnológico e o rural, algo muito caro ao Studio Ghibli e suas mensagens pró meio-ambiente, que incentivam as crianças a deixarem um pouco de lado o caos urbano e se conectar com a felicidade lúdica que pode ser encontrada na simplicidade da natureza.


O Conto da Princesa Kaguya (2013)

O Conto da Princesa Kaguya (2013)

Isao Takahata fez do seu canto de cisne um dos filmes mais celebrados da sua carreira revolucionária. O filme é baseado em O Conto do Cortador de Bambu, a mais antiga narrativa popular japonesa conhecida, que através da fantástica história de uma criança encontrada por um camponês explica a origem do Monte Fuji. Evocando justamente por isso a estética das antigas xilogravuras, Takahata usa o poder da animação para evocar uma espécie de “história viva”, onde podemos ser testemunhas oculares de um verdadeiro patrimônio cultural do país. Se não é o melhor do diretor, deve ser ao menos sua obra mais importante.


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Nausicaä do Vale do Vento (1984)

Nausicaä do Vale do Vento (1984)

Logo após o divertido debut O Castelo de Cagliostro, Miyazaki lançou a obra-prima Nausicaä do Vale do Vento, baseado no seu próprio mangá escrito dois anos antes. O filme é considerado um pivô no desenvolvimento do anime moderno, sendo amplamente elogiado pela crítica por sua ambientação, uma espécie de ficção científica pós-apocalíptica com elementos de fantasia e romances medievais sobre uma princesa elemental que tenta salvar a civilização tanto de reinos em guerra quanto da invasão de insetos gigantescos. É seguro dizer que o Estúdio Ghibli existe por conta do impacto desse filme – inclusive sendo comercializado como um mesmo sendo anterior à sua criação.


A Tartaruga Vermelha (2016)

A Tartaruga Vermelha (2016)

Também é necessário conhecer o trabalho do Estúdio Ghibli como co-produtor e distribuidor de filmes, e um dos destaques mais recentes é A Tartaruga Vermelha, dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit, onde conhecemos a história de um homem isolado em uma ilha e como sua vida é transformada ao interagir com uma tartaruga vermelha gigantesca. Sem nenhuma fala durante 80 minutos de projeção, foi um dos projetos mais elogiados de seu ano por sua carga altamente subjetiva e interpretativa.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

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